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Patrimônio de fundos ligados à Reag volta a crescer e salta de R$ 2 bilhões para R$ 160 bilhões em um único mês

11 maio 2026, 18:48 - atualizado em 11 maio 2026, 18:48
João Carlos Mansur (Reag/reprodução)
João Carlos Mansur (Reag/reprodução)

Fundos ligados à antiga Reag Trust Distribuidora registraram uma nova explosão patrimonial entre março e abril deste ano, segundo arquivos enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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O Cutter saltou de cerca de R$ 801 milhões para R$ 59,3 bilhões no período. O Maranta passou de aproximadamente R$ 493 milhões para R$ 41,8 bilhões, enquanto o Fresia avançou de R$ 423 milhões para R$ 34,1 bilhões e o Alamo de R$ 305 milhões para R$ 25,1 bilhões. Somados, os quatro principais veículos monitorados pela reportagem passaram de cerca de R$ 2 bilhões para aproximadamente R$ 160 bilhões em apenas um mês.

O Money Times já havia mostrado anteriormente que fundos da estrutura vinham registrando remarcações expressivas entre janeiro e março, com ativos adquiridos por valores reduzidos e posteriormente marcados a preços centenas ou milhares de vezes superiores.

Agora, os números se tornaram ainda maiores. O avanço já aparecia em informes diários de abril, mas, agora, passaram a constar também dos arquivos mensais CDA, confirmando parte dos valores que já apareciam nos informes diários enviados pelos administradores.

O movimento ocorre já sob a gestão do liquidante nomeado pelo Banco Central. Os documentos enviados à CVM com os novos patrimônios bilionários e posições sob confidencialidade seguem sendo assinados pela estrutura de liquidação da CBSF, conduzida pela APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo e por Antonio Pereira de Souza, ex-funcionário do BC indicado para a liquidação extrajudicial da instituição.

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Na prática, a liquidação extrajudicial é um regime conduzido pelo BC para administrar e encerrar instituições financeiras consideradas inviáveis ou com irregularidades. Nesse processo, a autoridade monetária afasta a administração anterior e nomeia um liquidante, que passa a responder pela gestão, preservação dos ativos, levantamento de passivos e envio das informações regulatórias aos órgãos supervisores até o encerramento definitivo da instituição.

Entre janeiro e março, os quatro principais fundos monitorados pela reportagem saíram de patrimônios líquidos negativos ou próximos de zero para cerca de R$ 2 bilhões combinados. O Fresia passou de patrimônio líquido negativo de R$ 17,1 milhões para R$ 423 milhões. O Alamo saiu de patrimônio negativo de R$ 30,7 milhões para R$ 305 milhões. O Cutter avançou de R$ 2,6 milhões para R$ 801 milhões, enquanto o Maranta foi de patrimônio negativo de R$ 70,9 milhões para R$ 493 milhões.

Os dados históricos enviados à CVM mostram que os fundos operaram por anos com patrimônios relativamente modestos e oscilações limitadas.

Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, o patrimônio combinado de Fresia, Alamo, Cutter e Maranta variou entre aproximadamente R$ 40 milhões e R$ 150 milhões. Em janeiro de 2023, os quatro veículos somavam cerca de R$ 48 milhões.

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Ao mesmo tempo em que os patrimônios dispararam, a composição das carteiras ficou menos transparente.

Nos arquivos públicos analisados pelo Money Times, Cutter e Maranta aparecem com patrimônios bilionários declarados, mas sem posições equivalentes identificadas nas carteiras abertas. Já Fresia e Alamo passaram a registrar posições sob regime CONFID, mecanismo que permite manter determinados ativos sob sigilo temporário.

Os registros indicam ainda que algumas dessas posições confidenciais foram adquiridas por valores reduzidos frente ao patrimônio atualmente reportado. Em um dos casos analisados, um fundo declarava posições classificadas como “cotas de fundos” adquiridas por cerca de R$ 32 mil e posteriormente associadas ao patrimônio superior a R$ 34 bilhões.

Na prática, a confidencialidade impede que o mercado identifique, neste momento, quais ativos específicos sustentam parte relevante das valorizações recentes. Os arquivos indicam que o sigilo regulatório dessas posições se estende até o fim de julho.

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Investimentos cruzados

O avanço dos patrimônios ocorre após a reportagem anterior mostrar que fundos da estrutura mantinham investimentos cruzados entre si, permitindo que remarcações em um veículo se propagassem em cascata para os demais.

Em março, por exemplo, o fundo Cutter registrou aquisição de cotas do FIDC Muffy a cerca de R$ 34,96 por unidade e, na mesma base de dados enviada à CVM, passou a marcar essas posições a aproximadamente R$ 237 mil por cota.

O Muffy, por sua vez, tinha em sua carteira direitos creditórios ligados à UNIESP e à CEISP Serviços Educacionais, segundo os documentos analisados pela reportagem. As duas empresas atuam no setor de ensino superior. A UNIESP está em recuperação judicial e é ligada ao empresário José Fernando Pinto da Costa, preso em 2019 durante a Operação Vagatomia, investigação da Polícia Federal sobre suposto esquema de venda irregular de vagas em cursos de medicina e fraudes relacionadas ao Fies.

Na estrutura identificada pela reportagem, o Muffy aparecia na base da cadeia de fundos. As cotas do veículo eram carregadas pelo Cutter, que, por sua vez, aparecia na carteira de Maranta, Fresia e Alamo. Dessa forma, uma remarcação no ativo inicial tendia a se propagar sucessivamente pelos demais fundos conectados à estrutura.

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Os arquivos da CVM mostram ainda que a posição do Cutter no Muffy saiu de aproximadamente R$ 43 milhões em fevereiro para R$ 723 milhões em março, após novas aquisições declaradas a custo próximo de R$ 100 mil.

Em abril, porém, o Muffy deixou de aparecer nos arquivos públicos analisados pela reportagem — incluindo bases abertas e registros sob confidencialidade.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que estruturas com ativos ilíquidos podem apresentar oscilações relevantes, mas ressaltam que operações dessa magnitude — especialmente em fundos interligados e sob liquidação extrajudicial — tendem a exigir esclarecimentos adicionais sobre critérios de avaliação, governança e lastro econômico das posições.

A Reag não respondeu aos questionamentos da reportagem. O Banco Central também não comentou. Antonio Pereira de Souza, responsável pela liquidação da instituição, foi procurado novamente, mas a reportagem não conseguiu contato. No mesmo mês, o patrimônio do Cutter saltou para R$ 59,3 bilhões.

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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