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Cotas de fundos da Reag valorizam até 52 vezes após liquidação

07 maio 2026, 13:45 - atualizado em 07 maio 2026, 14:35
Reag Investimentos 
João Carlos Mansur (Reag/reprodução)

Após a liquidação extrajudicial da Reag (hoje CBSF), fundos administrados pela instituição registraram remarcações de cotas com valorizações que chegaram a até 52 vezes em um único mês, sem que houvesse compras proporcionais que justificassem tais variações, segundo dados enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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Levantamento do Money Times com base nos arquivos mensais de Composição e Diversificação de Ativos (CDA) mostra que veículos como Cutter, Fresia, Maranta e Alamo passaram por oscilações relevantes e, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, incomuns entre janeiro — mês em que a liquidação foi decretada — e março deste ano.

A Reag era a administradora formal dos fundos analisados, conforme registros públicos da autarquia. Desde janeiro, porém, a instituição está sob regime de liquidação extrajudicial, conduzido pela APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo, nomeada pelo Banco Central, tendo como responsável pela liquidação o ex-funcionário do BC Antônio Pereira de Souza. Ele aparece na CVM como responsável pela direção dos fundos.

Procurada, a Reag não quis comentar e o Banco Central não respondeu à reportagem. Antônio Pereira de Souza foi localizado, não respondeu e, posteriormente, bloqueou o contato. A APS não foi encontrada. O espaço segue aberto.

Sequência de remarcações

No fundo Maranta, uma posição de aproximadamente 44,6 milhões de cotas de outro fundo — identificada nos arquivos de carteira (CDA) como investimento em cotas do Cutter — foi marcada a R$ 0,04 por cota em janeiro de 2026.

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No mês seguinte, sem registro de compras na base analisada, o valor foi elevado para R$ 1,84 por cota. Em março, novamente sem aquisições declaradas, passou a R$ 12,66. Com isso, o valor total dessa posição saltou de cerca de R$ 1,8 milhão para R$ 565 milhões em apenas dois meses.

Já o fundo Fresia apresentou, em fevereiro, posições em cotas de fundos do mesmo ecossistema — incluindo Cutter e Maranta — com preços idênticos por cota, de R$ 1,84 e R$ 6,06.

Em março, a posição de Fresia em cotas do Maranta foi remarcada de R$ 6,06 para até R$ 316,50 por cota, o que representa uma valorização de cerca de 52 vezes em um único mês, sem registro proporcional de aquisições.

No mesmo período, a quantidade de cotas do Cutter declarada na carteira do Fresia aumentou de cerca de 2,5 milhões para mais de 13 milhões entre fevereiro e março, sem registro de compras correspondente na base analisada.

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No Cutter, uma posição de 190 cotas do FIDC Muffy, classificado como parte relacionada, foi marcada a cerca de R$ 370 mil por cota em janeiro, sem registro de aquisições no período. Em fevereiro, o valor foi ajustado para aproximadamente R$ 228 mil por cota.

Em março, o fundo registrou a aquisição de novas cotas do Muffy a cerca de R$ 34,96 por unidade, mas passou a marcar toda a posição a aproximadamente R$ 237 mil por cota — uma diferença de cerca de 6.800 vezes entre o preço de aquisição e o valor atribuído na mesma base de dados.

Estrutura comum e reorganizações

Os fundos analisados apresentam características estruturais semelhantes.

Fresia e Alamo foram constituídos em 2021 inicialmente sob administração e gestão da Trustee. A partir de setembro daquele ano, a gestão passou para a WNT. Já o Maranta tinha a Trustee como administradora desde o início e, posteriormente, também passou a operar com estruturas ligadas à WNT.

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Os dois nomes são investigados pela Polícia Federal em apurações relacionadas ao caso Banco Master.

Entre 2023 e 2024, as administrações migraram para a Reag e, em 2025, as gestões passaram para a Reag Portfólio Solutions.

O Cutter, por sua vez, foi criado já dentro da estrutura da Reag em 2021, com administração e gestão da própria companhia.

Os dados indicam que parte dos fundos analisados está inserida em estruturas nas quais um fundo investe em cotas de outro, formando cadeias sucessivas de participação.

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Na cadeia principal identificada, o Maranta carrega cotas do Cutter. Os fundos Fresia e Alamo, por sua vez, carregam cotas de Cutter e também do Maranta.

Com isso, uma remarcação em cotas do Cutter pode afetar, em sequência, os fundos que mantêm exposição a ele diretamente ou por meio de outros veículos.

Esse tipo de organização permite que variações de preço em um ativo na base da estrutura se propaguem para os fundos que o carregam, impactando sucessivamente os níveis superiores.

Na prática, uma remarcação em um único ativo pode gerar efeitos multiplicados ao longo de vários veículos interligados.

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Especialistas afirmam que variações em ativos com menor liquidez podem ocorrer, mas destacam que divergências entre preço de aquisição e valor de marcação da magnitude observadas nos dados analisados não são típicas de operações regulares de mercado.

Patrimônio de bilhões

Informes diários enviados à CVM em abril — autodeclarados pelo administrador e sem o detalhamento de composição que o CDA oferece — indicam que os patrimônios declarados avançaram de forma ainda mais expressiva.

O Cutter, que registrava cerca de R$ 801 milhões em março, aparece com patrimônio superior a R$ 58 bilhões nos informes de abril. O Maranta passou de aproximadamente R$ 492 milhões para mais de R$ 41 bilhões. O Alamo saiu de cerca de R$ 305 milhões para aproximadamente R$ 24 bilhões no mesmo intervalo. Os informes diários, após o dia 17 de abril, pararam de ser divulgados.

Os dados históricos da CVM mostram ainda que o comportamento recente dos fundos destoa do padrão observado anteriormente.

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Entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025, os veículos operaram com patrimônios relativamente modestos e oscilações limitadas.

O Cutter, por exemplo, saiu de cerca de R$ 26 milhões para R$ 114 milhões no período. Fresia e Alamo, por sua vez, oscilaram entre aproximadamente R$ 2 milhões e R$ 30 milhões antes das remarcações registradas em 2026.

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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