Quem é Kevin Warsh? Novo chefe do Fed promete mudanças, mas pode frustrar Trump nos juros
Nesta última quarta-feira (13), Kevin Warsh, indicado de Donald Trump à cadeira de presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos), foi finalmente aprovado para o cargo. Warsh assume cercado de expectativas sobre os próximos passos dos juros nos Estados Unidos com forte pressão inflacionária e além de questões envolvendo a independência do Fed.
Aos 56 anos, Warsh construiu uma trajetória que mistura mercado financeiro, academia e bastidores do poder em Washington. Formado pela Stanford University e pela Harvard Law School, iniciou a carreira no Morgan Stanley, atuando na área de fusões e aquisições durante os anos 1990.
O salto para a política econômica veio no governo de George W. Bush, quando passou pelo Conselho Econômico Nacional da Casa Branca. Em 2006, tornou-se o diretor mais jovem da história do Fed ao assumir uma cadeira no conselho da instituição aos 35 anos.
Sua passagem pelo banco central coincidiu com um dos períodos mais turbulentos da economia global: a crise financeira de 2008. Ao lado do então chairman Ben Bernanke, Warsh participou das negociações envolvendo os resgates de bancos e os programas emergenciais de liquidez criados para evitar um colapso do sistema financeiro americano.
Na época, ganhou reputação de articulador entre o Fed e Wall Street, graças à proximidade com grandes instituições financeiras e investidores. Nos bastidores, era chamado de “sussurrador” do mercado financeiro dentro do banco central.
Depois de deixar o Fed em 2011, Warsh manteve forte presença nos círculos financeiros e acadêmicos. Tornou-se pesquisador da conservadora Hoover Institution, passou a lecionar em Stanford e também trabalhou ao lado do bilionário Stanley Druckenmiller no Duquesne Family Office.
Proximidade com Trump
Nos últimos anos, o economista se aproximou politicamente de Trump e passou a criticar com frequência a atuação recente do Fed. Entre os principais alvos estão o tamanho do balanço do banco central, o uso prolongado de estímulos monetários e a comunicação da autoridade monetária sobre os rumos dos juros.
Apesar de hoje defender cortes mais rápidos nas taxas de juros, Warsh ficou conhecido durante sua passagem pelo Fed como um dirigente de perfil mais “hawkish”, termo usado para descrever membros mais duros no combate à inflação. Recentemente, porém, passou a argumentar que ganhos de produtividade ligados à inteligência artificial poderiam ajudar a conter pressões inflacionárias sem necessidade de juros tão elevados.
A chegada de Warsh ao comando do Fed acontece em um momento delicado para a economia americana, com inflação ainda resistente e crescentes pressões políticas sobre a condução da política monetária. Para investidores, a principal dúvida agora é como o novo chairman equilibrará sua visão mais ortodoxa sobre o banco central com as demandas de Trump por juros mais baixos.
O que esperar de Warsh no Fed
Para Benjamim Mandel, chefe de pesquisa e cofundador da Jubarte Capital e ex-Fed, a chegada de Kevin Warsh ao comando do Federal Reserve pode representar uma mudança importante não apenas na condução dos juros, mas também na forma como o Fed se comunica com o mercado.
Na avaliação do economista, Warsh carrega uma visão crítica em relação ao modelo adotado pelo banco central nos últimos anos, especialmente após a pandemia, quando a autoridade monetária expandiu fortemente seu balanço e passou a utilizar orientações futuras (“forward guidance”) como ferramenta central de política monetária.
“Ele entende que o Fed acabou extrapolando seu papel tradicional e criando ruídos desnecessários ao tentar antecipar demais os passos da política monetária”, afirma Benjamin.
Segundo o economista, Warsh deve buscar uma comunicação mais enxuta e menos dependente de sinalizações detalhadas sobre os próximos movimentos dos juros. A ideia seria reduzir a previsibilidade excessiva que, na visão dele, acabou incentivando distorções nos mercados financeiros.
Mandel destaca que, apesar da aproximação recente com Donald Trump e do discurso favorável a cortes de juros, Warsh não pode ser classificado como um dirigente “dovish”, mais tolerante com inflação.
“Ele tem histórico de preocupação com credibilidade monetária e inflação. Ao mesmo tempo, acredita que fatores estruturais, como ganhos de produtividade ligados à inteligência artificial, podem permitir juros menores sem necessariamente reacender a inflação”, explica.
Para o especialista, o novo chairman deve tentar reposicionar o Fed em uma linha mais ortodoxa no longo prazo, reduzindo gradualmente o protagonismo do banco central nos mercados financeiros. “A tendência é um Fed menos intervencionista e mais focado nos mandatos clássicos de estabilidade de preços e emprego”, diz Mandel.
E os juros, como ficam?
Na visão do ex-Fed, essa mudança de postura, porém, não deve significar cortes imediatos nos juros. O economista avalia que o cenário mais provável para os próximos meses ainda é de manutenção das taxas no atual patamar.
“Nossa visão para este ano é de inércia total. Acho que vai ser difícil criar consenso dentro do Fed para mexer com a taxa de juros”, afirma.
Para ele, a tendência é de que os juros permaneçam “travados” no nível atual por pelo menos seis a nove meses, enquanto a autoridade monetária acompanha os efeitos da desaceleração econômica e a trajetória da inflação nos Estados Unidos.
De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, a maior probabilidade de manutenção dos juros é vista até janeiro de 2027. Em março, porém, o cenário muda com a maior aposta sendo em alta dos juros variando entre 0,25 a 0,75 p.p.