Europa

Rússia diz que ‘confisco’ de ativos da Nestlé e da Auchan é retaliação à Europa

18 set 2026, 17:04
Pacotes de sopa Maggi estão expostos em uma prateleira de um supermercado em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, em 29 de outubro de 2024 REUTERS/Dado Ruvic

A Rússia afirmou, nesta sexta-feira (18), que as ações de países europeus considerados hostis por Moscou influenciaram a decisão do governo de assumir o controle dos ativos russos da Nestlé e da varejista francesa Auchan.

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A medida foi determinada por decreto do presidente Vladimir Putin e representa a ação mais relevante contra empresas ocidentais desde a tomada dos ativos da francesa Danone e da dinamarquesa Carlsberg, em 2023.

“Estamos falando de empresas europeias de países hostis”, disse Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. Segundo ele, esses países estão “atualmente envolvidos da maneira mais ativa em ações militares contra nosso país”.

Peskov não citou nominalmente França ou Suíça. A Rússia, porém, considera que países ocidentais que fornecem armas à Ucrânia, como a França, são, na prática, partes do conflito. A Suíça não fornece armas à Ucrânia, mas impôs sanções contra a Rússia desde o início da guerra.

O governo suíço manifestou preocupação com a decisão de Putin e afirmou que está apoiando a Nestlé em seus esforços para reverter a medida.

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A Nestlé, dona de marcas como Nescafé e KitKat, disse que está avaliando a situação.

“A Nestlé está empenhada em tomar todas as medidas necessárias para proteger seus direitos e garantir a continuidade das operações comerciais no interesse de todas as partes envolvidas, especialmente seus funcionários”, afirmou a companhia em comunicado.

A empresa não detalhou quais medidas pretende tomar. As ações da Nestlé chegaram a cair 2,4% nesta sexta-feira.

Rússia amplia controle sobre empresas estrangeiras

A decisão ocorre em meio ao aumento das tensões entre Rússia e Europa. Governos europeus acusam Moscou de conduzir uma campanha de sabotagem no continente, enquanto o governo russo nega as acusações.

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Desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022, a Rússia vem ampliando o controle sobre ativos de empresas estrangeiras. Um decreto assinado por Putin em 2023 permite que propriedades de companhias de países que Moscou considera hostis sejam colocadas sob administração temporária.

O mecanismo também foi utilizado para levantar recursos por meio de vendas forçadas, impostos de saída e descontos, além de transferir ativos para empresários ligados ao Kremlin.

Segundo estimativa de 2025 do escritório de advocacia russo NSP, o Estado russo tomou mais de US$ 50 bilhões em propriedades privadas desde o início da guerra, incluindo ativos de empresas estrangeiras que deixaram o país.

Os negócios russos da Nestlé e da Auchan foram colocados sob controle temporário da L.E.V. Management, empresa pouco conhecida e sem presença pública relevante.

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A Auchan, que opera 230 lojas e uma operação online na Rússia e emprega cerca de 30 mil pessoas no país, não comentou a decisão.

Nestlé reduziu operações na Rússia

A Nestlé mantém seis fábricas na Rússia, que produzem café, alimentos para animais de estimação e fórmulas infantis. Em 2021, último ano em que divulgou dados específicos sobre o país, a companhia registrou vendas de cerca de 2 bilhões de francos suíços, equivalentes a US$ 2,4 bilhões na época, e tinha aproximadamente 7 mil funcionários.

Naquele ano, a Rússia representava cerca de 2% das vendas do grupo. A participação, porém, diminuiu depois que a Nestlé reduziu suas operações no país.

A companhia suspendeu a maior parte das vendas, importações e exportações não essenciais, publicidade e investimentos de capital na Rússia, segundo Jean-Philippe Bertschy, analista do Bank Vontobel. Para ele, o país atualmente representa cerca de 1% das vendas do grupo.

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“Embora seja negativo para o sentimento dos investidores e aumente a possibilidade de uma baixa contábil dos ativos ou de uma venda desfavorável, esperamos um impacto financeiro marginal, dada a contribuição limitada da Rússia para as vendas do grupo”, afirmou Bertschy.

A Nestlé justificou sua permanência no mercado russo argumentando que fornece produtos alimentícios essenciais.

Administração temporária pode levar à expropriação

O jornal russo Kommersant informou anteriormente que uma empresa chamada KS Logistika havia pedido a Putin que colocasse os ativos da Nestlé sob administração temporária. A justificativa seria de que a administração existente estaria impedindo a expansão dos negócios.

A administração temporária já foi utilizada em outros casos envolvendo empresas estrangeiras. Em algumas situações, a medida foi seguida pela expropriação dos ativos pelo Estado e posterior transferência para pessoas ou companhias ligadas ao Kremlin.

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Peskov afirmou, entretanto, que neste momento está sendo considerada apenas a administração temporária.

Outras empresas ocidentais optaram por vender seus negócios na Rússia ou transferi-los para gestores locais diante das sanções e do risco de intervenção estatal.

Para Jon Cox, analista da Kepler Cheuvreux, a decisão representa um sinal negativo para a Nestlé.

“Em última análise, a Nestlé pode acabar perdendo esses ativos — cerca de 2% de suas vendas e recursos financeiros mantidos na Rússia — no futuro previsível, e qualquer compensação provavelmente não será suficiente para compensar essa perda”, afirmou.

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* Com informações da Reuters

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É jornalista formada pela ECA-USP, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais para Jornalistas pela B3. Tem mais de 25 anos de experiência e passagem pelas principais redações do país – entre elas, Estadão, Folha, UOL e CNN Brasil. Atualmente, é editora-chefe do Money Times.
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