Selic a 13,75%: o que joga a favor e contra um novo corte nesta quarta; veja os dados que pesam na decisão
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decide nesta quarta-feira (16) os próximos passos da Selic, atualmente em 14% ao ano. A expectativa é de um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de juros para 13,75% ao ano.
Desde a última reunião do colegiado, em agosto, novos dados de atividade, inflação e mercado de trabalho reforçaram a percepção de que a economia brasileira começa a perder fôlego, ao mesmo tempo em que os preços dão sinais mais favoráveis após o choque do petróleo.
O cenário abre espaço para a continuidade do ciclo de flexibilização monetária. Mas nem todos os dados favorecem essa leitura: a taxa de desemprego segue em níveis historicamente baixos, mostrando que o mercado de trabalho ainda está aquecido.
PIB cresce, mas economia perde velocidade
Um dos principais sinais de desaceleração veio do Produto Interno Bruto (PIB). A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre, acima da expectativa de 0,4%, mas perdeu força em relação à expansão de 1,1% registrada nos três primeiros meses do ano.
A composição também trouxe sinais de moderação. Os Serviços avançaram apenas 0,2% e a Indústria, 0,1%. A Agropecuária teve desempenho mais forte, com crescimento de 2,8%.
Pela ótica da demanda, o consumo das famílias recuou 0,4% frente ao primeiro trimestre. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), por outro lado, cresceu 1,2%.
Assim, embora a economia continue crescendo e o resultado tenha superado as projeções, a perda de velocidade entre o primeiro e o segundo trimestre reforça os sinais de desaceleração da atividade.
IPCA dá uma mãozinha ao Copom
Se a atividade perdeu ritmo, a inflação trouxe um sinal ainda mais favorável para o Banco Central.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,32% em agosto, após alta de 0,07% em julho. O resultado também foi melhor do que o recuo de 0,29% esperado pelo mercado.
Em 12 meses, a inflação desacelerou para 4,22%, ficando dentro do intervalo de tolerância da meta perseguida pelo BC, de 3%, com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Parte importante da deflação veio de fatores pontuais. Habitação caiu 1,87%, principalmente devido ao Bônus de Itaipu sobre as contas de energia elétrica. Transportes recuaram 0,86%, com queda de 13,17% das passagens aéreas e de 0,91% dos combustíveis.
Ainda assim, a queda de 0,34% em Alimentação e bebidas, após recuo de 0,67% em julho, também contribuiu para uma fotografia mais favorável dos preços.
Para o Copom, a desaceleração da inflação amplia o espaço para reduzir os juros, embora a autoridade monetária continue de olho principalmente na dinâmica dos serviços, núcleos e expectativas de inflação.
Caged mostra perda de força nas contratações
O mercado de trabalho formal também começou a dar sinais de arrefecimento. O Brasil criou 58.568 empregos com carteira assinada em julho, resultado bastante abaixo da mediana de 114 mil vagas esperada pelo mercado.
Foram 2,263 milhões de admissões e 2,204 milhões de desligamentos no período. Entre os setores, a agropecuária criou 12.523 vagas, enquanto a indústria geral registrou saldo positivo de 11.315 postos.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, os números reforçam a leitura de um mercado de trabalho que permanece resiliente, mas passa por um “processo gradual de arrefecimento”, em meio à expectativa de desaceleração da atividade ao longo deste ano.
Desemprego ainda é ponto de atenção
Se o Caged mostra perda de força na criação de empregos formais, a Pnad Contínua lembra por que o Banco Central ainda tem motivos para manter a cautela.
A taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, menor nível para o período desde o início da série histórica, em 2012. O indicador estava em 5,8% no trimestre terminado em abril e em 5,6% entre maio e julho do ano passado.
O rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.762, estável na comparação trimestral, mas 3,3% maior em relação ao mesmo período de 2025.
Já o número de empregados do setor privado com carteira assinada ficou em 39,4 milhões, sem variação significativa tanto no trimestre quanto no ano.
A fotografia, portanto, é de um mercado de trabalho que começa a mostrar sinais de moderação em alguns indicadores, mas permanece apertado, com desemprego historicamente baixo.
E agora, Copom?
No conjunto, os dados divulgados desde a reunião de agosto oferecem argumentos para o Banco Central dar continuidade ao ciclo de cortes nesta quarta-feira.
A atividade econômica perdeu velocidade entre o primeiro e o segundo trimestre, a geração de empregos formais surpreendeu negativamente e, principalmente, a inflação acumulada em 12 meses voltou ao intervalo de tolerância da meta.
O mercado de trabalho, porém, continua sendo uma peça menos confortável desse quebra-cabeça. O desemprego de 5,3% mostra uma economia ainda próxima do pleno emprego, fator que pode manter pressões sobre salários e, consequentemente, sobre a inflação de serviços.