Selic abaixo de 10%? Economista-chefe do Bradesco (BBDC4) revela quando juros podem voltar a um dígito
Às vésperas de uma nova decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), os economistas-chefe Fernando Honorato e Diogo Guillen, do Bradesco (BBDC4) e Itaú Unibanco (ITUB4), respectivamente, veem espaço para a continuidade do ciclo de cortes da Selic, mas colocam a política fiscal como uma das principais peças para determinar até onde os juros brasileiros poderão cair.
Os economistas participaram da B3 Week nesta terça-feira (15), um dia antes de o Banco Central anunciar sua nova decisão de política monetária.
Guillen indicou durante o painel que seu cenário contempla um novo corte da taxa básica nesta quarta-feira (16). Depois da decisão, a evolução do câmbio e das demais condições econômicas ajudará a calibrar os próximos passos da autoridade monetária.
A discussão sobre juros, porém, rapidamente esbarrou nas contas públicas.
Para Guillen, política monetária e política fiscal mantêm uma relação estreita, tornando difícil analisar a trajetória da Selic sem levar em consideração o comportamento dos gastos e a credibilidade das contas públicas.
O economista destacou avanços institucionais conquistados pelo Brasil ao longo dos últimos anos, mas apontou a rigidez das despesas como um dos desafios para o país.
Uma melhora da credibilidade fiscal, segundo a avaliação apresentada durante o painel, poderia contribuir para condições financeiras mais favoráveis e abrir espaço para mais investimentos.
Juros altos não são apenas uma questão do BC
Honorato também relacionou diretamente a situação fiscal ao nível dos juros brasileiros.
Ao discutir o atual patamar da Selic, ele rejeitou a ideia de atribuir a responsabilidade exclusivamente à atuação do Banco Central.
“Eu não estou culpando meus colegas do Banco Central”, disse. Na avaliação do economista, existem questões estruturais que ajudam a explicar por que o país ainda convive com juros elevados. Sem um avanço fiscal, esse cenário pode persistir por mais tempo.
Honorato destacou que as receitas cresceram nos últimos anos, enquanto a economia já apresenta sinais de perda de força em meio a condições monetárias restritivas.
Para ele, a correção do fiscal é uma das condições para que o Brasil consiga sustentar taxas de juros menores no futuro.
Selic de um dígito só em 2028?
Apesar de enxergar espaço para novos cortes, Honorato não espera uma queda abrupta dos juros.
Caso o real permaneça relativamente estável e a economia continue mostrando fraqueza, o Banco Central teria espaço para avançar no processo de flexibilização monetária.
Ainda assim, na avaliação apresentada por Honorato, a Selic deve retornar ao patamar de um dígito apenas em 2028.
O cenário internacional ajuda a explicar a cautela. A inflação permanece elevada em diferentes economias e as decisões do Federal Reserve continuam tendo impacto importante sobre as condições financeiras brasileiras.
Uma política monetária americana mais restritiva do que o esperado, por exemplo, poderia fortalecer o dólar, pressionar o real e tornar o trabalho do Banco Central brasileiro mais difícil.
Fiscal e monetário caminham juntos
Para Guillen, separar completamente as duas políticas é uma tarefa difícil.
Estímulos fiscais podem afetar a demanda, a inflação e, consequentemente, a atuação do Banco Central. Na direção contrária, maior credibilidade sobre a trajetória das contas públicas pode melhorar as condições financeiras e facilitar o processo de redução dos juros.
A discussão ganha ainda mais importância com a aproximação das eleições.
Honorato avaliou que o debate deveria olhar para o período posterior ao pleito e para as medidas necessárias para reconstruir a credibilidade das contas públicas.
O próximo governo, segundo a avaliação apresentada no painel, precisará sinalizar de maneira mais consistente qual será a trajetória fiscal e como pretende criar condições para uma redução estrutural dos juros.