Títulos de 10 anos sob pressão: O que a alta dos juros revela sobre a economia global
Na semana passada, os juros dos títulos públicos globais saltaram para a máxima de vários anos. Nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, a escalada dos juros foi observada, principalmente, nos títulos do Tesouro de 10 anos.
Em 2 de setembro, o rendimento (yield) do título do Tesouro norte-americano, Treasury, de 10 anos — referência para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito — atingiu 4,818%, no maior nível desde novembro de 2023.
No dia anterior, o yield do título do governo britânico, conhecido como Gilts, com vencimento de 10 anos alcançou 5,2341%, o nível mais alto desde junho de 2008; e o Bund, da Alemanha, de 10 anos registrou nova máxima do ano a 3,3546%.
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Segundo especialistas do mercado, a disparada dos yields tem fatores em comum: as expectativas para a política monetária e os acontecimentos geopolíticos.
“As expectativas sobre a política monetária acompanham de perto os acontecimentos geopolíticos: os juros dos títulos subiram com o início do conflito no Oriente Médio, incorporou a redução das expectativas de aperto monetário após a assinatura do Memorando de Entendimento (MoU) em junho e voltaram a subir à medida que as tensões se intensificam novamente”, explica Arend Kapteyn, economista do UBS BB, em relatório divulgado na última sexta-feira (4).
Já a outra parte da escalada dos yields pode ser explicada pelo aumento do risco de inflação e prêmio de risco-país.
Títulos x taxas de juros
Nas contas do UBS BB, cerca de metade da alta de aproximadamente de 60 pontos-base (bps) nos yields do Gilts é explicada pelas expectativas para a taxa de política monetária.
A taxa referencial de juros no Reino Unido está em 3,75% e o mercado ainda precifica três aumentos pelo Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) até o meados de 2027.
Nos EUA, 79% da alta, nas contas do banco, nos juros dos Treasuries de 10 anos também é explicada por uma mudança nas expectativas para as taxas de política monetária.
Segundo o UBS BB, a maior parte desse movimento ocorreu antes da primeira entrevista coletiva do presidente do Fed, Kevin Warsh.
Na ocasião, Warsh defendeu a retirada das orientações futuras (forward guidance), a menor transparência nas comunicações do Fed e a perspectiva de uma volatilidade estruturalmente maior das taxas de juros.
Por outro lado, Padhraic Garvey, diretor de research para as Américas, do ING, avalia que o yield do título de 10 anos a 5% não é uma taxa “particularmente alta”. “Considerando os níveis de inflação (3,5%) e o déficit fiscal (6% do PIB), é justificável”, diz.
Hoje, os operadores precificam cerca de 50% de chance de o Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano) elevar os juros, que estão na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, em 25 pontos-base na decisão de setembro.
Na Alemanha, toda a alta acumulada no ano dos juros dos Bunds de 10 anos,. assim como nos outros dois países, também tem por trás a perspectiva dos investidores sobre a trajetória dos juros.
Na Zona do Euro, a principal taxa de referência, de depósitos, está em 2,25% e o mercado espera uma nova alta nas taxas, de 25 pontos-base, na decisão do Banco Central Europeu (BCE) neste mês.
“Isso se deve não apenas ao fato de alguns membros do BCE terem defendido um aumento na reunião de julho, mas também porque, desde então, a economia da zona do euro demonstrou uma resiliência quase inesperada à guerra no Oriente Médio”, afirmam os estrategistas James Knightley , Carsten Brzeski , James Smith e Chris Turner, do ING.
Segundo a equipe, com os preços do petróleo ainda elevados e o risco de um novo choque nos preços do gás a aumentar, é provável que a maioria dos membros do BCE considere justificada uma nova alta das taxas de juros.
Na visão do UBS BB, um aumento moderado no prêmio de risco de inflação, por sua vez, foi compensado por uma queda no prêmio de juro real.
IA tem alguma parcela de culpa?
Alguns analistas ainda atribuem a onda vendedora de títulos soberanos aos altos investimentos em infraestrutura de tecnologia focada em inteligência artificial por meio dos títulos emitidos pelas empresas hiperescaladoras de tecnologia (hyperscalers). Mas essa visão não é compartilhada pelo UBS BB.
“Observamos que as emissões com grau de investimento por empresas de tecnologia estavam dentro da volatilidade normal das condições de crédito nos EUA, que havia poucas evidências de uma rotação para fora dos Treasuries”, afirma Arend Kapteyn, economista do banco.
“A ausência de pressão sobre os spreads no próprio crédito de grau de investimento parecia inconsistente com efeitos de crowding-out (disputa pelo recurso”, acrescenta.
E no Brasil?
A curva brasileira, por ser sensível ao ambiente externo, também acompanhou a escalada dos juros globais – mas com efeito limitado.
“A taxa nominal de dois anos subiu em 2026, principalmente em resposta à reprecificação da política monetária nos EUA. O fator local seguiu atuando na direção de juros menores, mas com magnitude insuficiente para compensar a pressão vinda do ambiente externo”, escrevem os economistas do Itaú BBA em estudo publicado na última terça-feira (1).
Por aqui, o mercado precifica um movimento contrário ao dos principais Banco Centrais do mundo: um novo corte na taxa básica de juros em setembro, em continuidade ao um ciclo de afrouxamento monetário iniciado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em março.
Desaceleração da inflação e da atividade econômica são os principais fatores que sustentam a precificação de uma nova redução na Selic, que hoje está em 14% ao ano. Na sexta-feira (4), a curva de juros embutia quase 100% de chance de um corte de 25 pontos-base na taxa, para 13,75% ao ano.
Já a XP, por exemplo, espera mais dois cores na Selic, além do já precificado neste mês, levando a taxa básica de juros a 13,25% ao ano em dezembro.
Há também o ‘efeito eleições’. As últimas pesquisas de intenção de votos têm apontado uma disputa acirrrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro – o que reforçou a aposta dos investidores em uma troca de governo em 2027.
De modo geral, Lula é visto com desconfiança por boa parte do mercado, que vê em sua reeleição um empecilho para o controle das contas públicas e, consequentemente, da inflação.