Tokens sociais e o futuro da criação de conteúdo na internet

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23/01/2021 - 11:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
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Em artigo ao The Block por Joon Ian Wong, entenda como tokens podem revolucionar a indústria da criação de conteúdo (Imagem: Freepik/vectorjuice)

Qual é a melhor forma de pagar por conteúdos? Esta pergunta, sempre em segundo plano, está sendo feita novamente. O jornalismo pode ser um bom exemplo.

Algumas empresas midiáticas parecem ter solucionado a questão. Assinaturas e propagandas digitais do New York Times geraram US$ 450 milhões nos primeiros trimestres de 2020, ultrapassando suas receitas por conteúdo impresso pela primeira vez na História.

Mas é só tirar o foco das grandes empresas jornalísticas dos EUA que você pode perceber que a situação é bem mais preocupante. O Poynter Institute possui uma lista, atualizada diariamente, de demissões e fechamentos na indústria jornalística.

O comprimento da página é bem maior do que deveria ser. Poynter também noticiou que mais de 60 redações americanas encerraram suas atividades em 2020.

A grande lista da imprensa — publicações que atendem comunidades locais ou de nicho — é onde os modelos de negócio estão falhando. O público não é grande o suficiente para gerar cliques ou não existe uma demografia rica o suficiente que pague pelas assinaturas.

As soluções fornecidas até agora são insuficientes.

Existe Substack que, segundo o Columbia Journalism Review, parece ser útil para escritores que já têm um público fiel e que pagará pelas assinaturas na plataforma. Além disso, parece aplicar a lógica de muitas plataformas de tecnologia que fizeram a imprensa tradicional falir.

Um ciclo virtuoso é criado, pois tanto os criadores como os fãs geram atividade econômica e aumentam o valor captado pelo token social (Imagem: Freepik/vectorjuice)

Soluções Web 3.0 à economia de criação

Os modelos econômicos de criação ou de paixão fornecem soluções parciais a esse problema ao criar uma base econômica sustentável para escritores, “streamers” e produtores de conteúdos diversos. Mas não são suficientes.

Geralmente, a receita é uma variação um pouco moderna do modelo antigo em obter mais cliques ou vender mais coisas.

Existe uma terceira opção: a imprensa tokenizada, com suas próprias comunidades tokenizadas. “Espera aí!”, você diz. “Alguém já não tentou isso e deu errado?”.

Você estaria certo em relembrar essa fábula — a tokenização de tudo não é um remédio para todos os males. Porém, o ecossistema cripto está em um momento diferente do que em 2017 — é só observar a explosão na atividade de finanças descentralizadas (DeFi) em 2020.

A ideia básica é que escritores, streamers e qualquer um que crie produtos midiáticos na internet possa melhorar as possibilidades que estão contra eles pelas plataformas ao retirar o valor dessas plataformas e migrá-lo para redes descentralizadas.

Esse valor será mantido em tokens cripto detidos por criados e, principalmente, pelas comunidades que mais se beneficiam com seu trabalho. Um ciclo virtuoso é criado, pois tanto os criadores como os fãs geram atividade econômica e aumentam o valor captado pelo token social.

Segundo o investidor Jesse Walden, é o novo tipo de fã-clube.

Minecraft, jornalismo e o limite da censura

Como empresas podem não apenas focar na flutuação desse grande mercado, como também desbloquear esse valor para criadores e usuários? (Imagem: Freepik/upklyak)

Fundos de comunidade e seu longo histórico

Os princípios por trás da criação de moedas personalizadas para benefício próprio não é algo novo.

É possível encontrar evidências de tokens sociais em diversos setores acadêmicos, desde estudos antropológicos a estudos sobre fãs, segundo Joon Ian Wong, pesquisador da Rally, startup que cria infraestrutura para moedas de criadores (do inglês “creator coins”).

A partir do conceito de “dinheiro perfeito” do sociólogo Georg Simmel em 1900 ao de “Banco do Povo” do anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon — que deu início ao mutualismo —, diversos pensadores propuseram soluções utópicas usando dinheiro específico, assim como o sociólogo Nigel Dodd explica na obra “A vida social do dinheiro”.

Com o tempo, comunidades testaram algumas dessas ideias. Entre as décadas de 1980 e 1990, os movimentos “Local Exchange Trading System” (LETS) e de capitalização bancária na América do Norte tinham suas próprias moedas locais, emitidas não por um banco central, e sim por um acordo coletivo de membros da comunidade.

Essas ideias foram revividas pelo mundo cripto pelo projeto Circles UBI, capaz de rastrear seu recurso essencial de sobreestadia, ou “dinheiro apodrecido”, às noções propostas por Silvio Gesell.

As lições sobre governança da comunidade podem ser encontradas no histórico do movimento cooperativo. A ideia do trabalhador-proprietário, diferente do investidor, está na estrutura cooperativa.

Recentes reinterpretações de cooperações para a era da internet, por Trebor Scholz e Nathan Schneider, deram origem às noções do cooperativismo em plataformas e uma fuga para as comunidades.

As ideias e propostas de Scholz e Schneider alinham bem mais o interesse de usuários de grandes plataformas com o de seus donos; e pensar em como empresas podem não apenas focar na flutuação desse grande mercado, como também desbloquear esse valor para criadores e usuários.

Tokenização: você lançaria uma IPO da sua própria vida?

Para escritores, streamers e qualquer um que deseje viver de seu trabalho criativo pela internet, tokens sociais fornecem uma oportunidade de realinhar o interesse de criadores e suas comunidades (Imagem: Freepik/vectorjuice)

Panorama sobre tokens sociais

O mundo cripto aproveitou esses temas de forma quase instintiva.

Jesse Walden, que já trabalhou no fundo a16z Crypto e agora está no Variant Fund, está direcionando seus investimentos em empresas que estão desenvolvendo a “economia da governança”, que são muito parecidas com cooperativas, mas com um toque de cripto.

O braço de investimentos da IDEO declarou “criptosocial” — a união de tokens pessoais e de comunidade — como o próximo setor de sucesso, e contratou Reuben Bramanathan, um experimentalista dos tokens pessoais, para trabalhar nessa área.

Ryan Selkis, da Messari, é otimista com a ideia de “dinheiro social” e investiu na plataforma Roll a fim de capitalizar com essa tendência.

Esses tipos de token vão parecer brinquedos — e serão odiados pelos especialistas de cripto — mas, no futuro, serão bem óbvios, segundo Selkis em suas Criptoteses para 2021.

Chega de investidores e teorias. Que parte disso é real? A resposta é: bastante. No centro da economia de tokens sociais estão as plataformas que ajudam pessoas a emitirem seus tokens.

Os dois exemplos mais conhecidos são Roll e Rally — que possuem apoio do a16z —, que arrecadaram financiamento do Fabric Ventures e outros.

Uma gama de novas ferramentas também surgiu, obtendo vantagem da famosa componibilidade — “encaixe” e união de diversos produtos — da Ethereum.

Talvez a ferramenta mais utilizada seja Collab.land: permite que comunidades controlem diversos canais de redes sociais, integrando apenas usuários que têm um determinado saldo de tokens sociais em suas carteiras — basicamente, tokenizando as redes sociais.

Collab.land é utilizada por mais de 400 comunidades com mais de 40 mil usuários, segundo a empresa.

Ferramentas mais atuais, como Unite Community, que facilita a distribuição gratuita (ou “airdrops”) de tokens no Twitter, e Lamma, que facilita o trabalho de gerenciar o tesouro de uma comunidade, acabaram de ser criadas.

Ambas as ferramentas foram resultado de uma “hackathon” (espécie de maratona para desenvolvedores de software) organizada pelo Seed Club, incubador de tokens sociais que foi responsável pela realização da primeira venda de tokens do músico RAC e outros.

Outras ferramentas sob o radar das comunidades de tokens sociais são Dfame e Coinvice, que fornecem novas formas de controlar o conteúdo, além de minerar e distribuir tokens.

Existe até uma newsletter sobre isso — que rastreia quais tokens são populares — chamada Forefront.

Segundo dados da Forefront e do CoinGecko, a Messari estima que os principais tokens sociais equivaliam US$ 200 milhões, em capitalização de mercado completamente diluída, em outubro de 2020.

Todas as questões de tokens sociais estão longe de serem solucionadas.

Por exemplo, como proteger fãs — que podem deter um token como recordação — de especuladores que podem desvalorizar o token com sua venda? Como gerenciar as complexidades da liquidez descentralizada, servidores no Discord cada vez mais lotados e distribuições?

Um criador que emite um token social representa uma variedade de tarefas novas e complicadas a se fazer por um pagamento incerto.

Isso nos leva às soluções do dilema jornalístico na internet. Para escritores, streamers e qualquer um que deseje viver de seu trabalho criativo pela internet, tokens sociais fornecem uma oportunidade de realinhar o interesse de criadores e suas comunidades.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 22/01/2021 - 14:58

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