Varejo sob pressão: veja quem pode surpreender no 2T26 — e quem deve decepcionar
A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 (2T26) começa a ganhar força nesta semana, com grandes nomes do varejo previstos para divulgar seus números. O setor enfrenta um período de complicações diante de um cenário macroeconômico que pressiona o bolso do consumidor e eleva o risco do crédito.
O alto patamar da taxa Selic segue corroendo a renda disponível, enquanto o elevado endividamento das famílias e os efeitos acumulados da inflação continuam mantendo o poder de compra pressionado, avalia o BTG Pactual, apontando esses como motivos para a falta de entusiasmo com os resultados do setor.
De maneira geral, a equipe de analistas do banco, liderada por Luiz Guanais, espera que os resultados do segundo trimestre das varejistas reforcem um cenário ainda caracterizado por baixa alavancagem operacional e poucas revisões positivas de lucro líquido.
O segundo trimestre de 2026 reforça a visão cautelosa do BTG Pactual para as perspectivas de consumo no Brasil no curto prazo.
O múltiplo mediano de P/L (preço sobre o lucro) projetado dos varejistas brasileiros ao longo dos últimos 15 anos foi de 14,7 vezes, enquanto atualmente o setor negocia a 8,5 vezes lucro líquido projetado, aproximadamente 1,5 desvios-padrão abaixo da média histórica de longo prazo. Apesar disso, o prêmio implícito exigido para investir no setor continua elevado, na leitura dos analistas.
A XP Investimentos espera uma temporada mista, marcada por um ambiente macroeconômico ainda pressionado e pela Copa do Mundo como principal tema do trimestre.
“O evento deve impulsionar as vendas de artigos esportivos e eletrônicos, ao mesmo tempo em que tende a pressionar o fluxo de consumidores nas lojas físicas de forma generalizada”, pondera a equipe de analistas liderada por Danniela Eiger.
Em termos de margens, a maior parte dos nomes sob cobertura da XP deve reportar pressão decorrente de bases de comparação desafiadoras, desalavancagem operacional e maiores investimentos, diz a casa.
Sobre juros, em relatório de 27 de julho, o Itaú BBA recorda que a Selic caiu 0,50 ponto percentual no trimestre, de 14,75% para 14,25%, e as expectativas de inflação subiram para 4,92% no fim de 2026, ante 4,32%, e para 4,00% em 2027. As estimativas para a Selic também aumentaram de forma relevante, para 14% no fim de 2026, ante 12,50% anteriormente, e para 12,00% em 2027, ante 10,50%, dizem os analistas.
Neste cenário, para a equipe liderada por Daniel Gewehr, a Smart Fit (SMFT3) deve ter um trimestre forte impulsionado pela TotalPass. Já a RD Saúde (RADL3) deve apresentar receita próxima de R$ 12,7 bilhões e desaceleração mais suave do que a esperada pelo mercado.
Os destaques positivos do varejo
Na avaliação do BTG Pactual, os destaques positivos devem ficar concentrados principalmente em Smart Fit (SMFT3) e nos varejistas de vestuário, enquanto o varejo alimentar continuou enfrentando crescimento nominal fraco e as empresas de e-commerce permaneceram presas ao conhecido equilíbrio entre crescimento e rentabilidade ao longo do trimestre.
A Smart Fit deve voltar a se destacar como uma das empresas com melhor desempenho dentro da cobertura do banco, combinando crescimento robusto de receita com rentabilidade resiliente, apesar dos investimentos contínuos no TotalPass e na expansão da malha.
“Os varejistas de vestuário também surpreenderam positivamente, em especial a Lojas Renner, que continuou se beneficiando de uma gestão disciplinada de estoques e boa execução na margem bruta”, dizem os analistas do BTG.
Analistas do Santander também esperam um trimestre sólido da rede de academias, com crescimento de 22% na receita em relação ao mesmo período do ano anterior e alta de 12% no lucro líquido. Embora reconheçam a captação de novos alunos no Brasil/México como um desafio, acreditam que o impulso do TotalPass deve continuar forte.
Olhando para o varejo de vestuário, o BTG Pactual espera que a C&A reporte números razoáveis, enquanto a Riachuelo manterá um momento positivo de vendas.
Já no e-commerce, os resultados devem voltar a girar em torno do debate entre preservação de margens e defesa de participação de mercado, à medida que Mercado Livre, Amazon e Shopee mantiveram elevada intensidade competitiva.
“Enquanto isso, as redes farmacêuticas continuaram registrando crescimento saudável de vendas e rentabilidade, embora as tendências trimestrais tenham desacelerado claramente em relação ao ritmo excepcional observado nos períodos anteriores”, diz o BTG.
Analistas da XP apontam o Grupo SBF (SBFG3) como o potencial principal destaque da temporada, beneficiada pelo forte impulso da Copa do Mundo sobre a demanda por artigos esportivos.
A casa também espera uma expansão relevante de rentabilidade na Alpargatas (ALPA3), enquanto o segmento de farmácias deve continuar apresentando desempenho resiliente, mesmo diante de comparações mais exigentes relacionadas aos medicamentos da classe GLP-1 (medicamentos usados no tratamento de diabetes e obesidade, como Ozempic e Wegovy).
“No segmento de vestuário de média renda, esperamos vendas em mesmas lojas (SSS) resilientes apesar das bases comparativas mais fortes, além de expansão da margem bruta no varejo. Por outro lado, as operações de serviços financeiros devem apresentar desempenho mais fraco, refletindo uma política de concessão de crédito mais conservadora”, ponderam os analistas da XP.
No segmento de e-commerce, o Mercado Livre (MELI34) deve continuar se destacando, com crescimento robusto do GMV (volume bruto de mercadorias), estimado em +43% ao ano, embora sob alguma pressão de margens.
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Nomes para ligar o alerta
Para o BTG, o varejo alimentar continuará sendo o segmento mais fraco, com Assaí (ASAI3) e Grupo Mateus (GMAT3) ainda enfrentando tendências de consumo pressionadas e baixa alavancagem operacional.
No caso das redes farmacêuticas, apesar de ainda entregarem resultados operacionais sólidos, os analistas notam que as companhias começaram a apresentar uma desaceleração mais visível em relação às tendências excepcionalmente fortes observadas nos trimestres anteriores.
Do lado negativo, a XP aponta a Azzas 2154 (AZZA3) e Natura (NATU3), enquanto o varejo alimentar deve continuar pressionado pela fraqueza nos volumes vendidos
A equipe de analistas do Santander, liderada por Aline Cardoso, espera mais um trimestre fraco do Grupo Mateus, com vendas mesmas lojas (SSS) recuando 7,5% na comparação anual, diante de um ambiente de consumo adverso, combinado a uma compressão de 112 pontos-base na margem Ebitda em relação ao mesmo período do ano anterior.
Sobre Natura, diante de uma série de pressões sobre a receita no Brasil, relacionadas a atualizações de sistemas, mudanças nas políticas de canais, entre outros fatores, o banco espera uma queda de aproximadamente 10% na receita na comparação anual e uma compressão de cerca de 5 pontos percentuais na margem Ebitda.
Já a Pague Menos está diante de uma base de comparação difícil, avalia o Santander. Os analistas projetam desaceleração das vendas mesmas lojas (SSS) na comparação trimestral, para 8,1% na comparação anual, ante 17% no 1T26.
Os ganhos de margem Ebitda também podem diminuir, para 16 pontos-base na comparação anual, ante 80 pontos-base no primeiro trimestre do ano.