Vinci acusa fundos da Reag de ocultarem patrimônio de família do agro
A Vinci Compass, uma das maiores gestoras do Brasil, está acusando estruturas ligadas à Reag de terem sido usadas para ocultar patrimônio de integrantes da família Arantes, tradicional grupo do agronegócio com dívidas bilionárias.
A disputa aparece em um processo que tramita na 7ª Vara Cível do Foro Central Cível de São Paulo. Em decisão de 22 de junho de 2026, a Justiça determinou a expedição de ofícios à CBSF Trust Administradora, nova denominação da Reag Administradora, e ao liquidante da CBSF, antiga Reag Trust, para que apresentassem documentos sobre dois fundos, para identificar seus cotistas: o Bansko FIP e o Orchid FII.
Os dois fundos, supostamente ainda controlados pela família, estariam no fim de uma estrutura que controlaria a Grancarnes e o Frigorífico Monte Verde, no Mato Grosso, seu principal ativo operacional.
O pano de fundo da disputa ganhou novo peso após o Banco Central apontar a Grancarnes entre as empresas suspeitas de terem tomado empréstimos fictícios no caso do Banco Master. Segundo o BC, essas operações teriam permitido o desvio de R$ 11,5 bilhões por meio de fundos de investimento. A presença da companhia na lista não significa, por si só, conclusão de irregularidade pela empresa.
O que diz a Vinci
O autor do processo é o FIDC Ativos Especiais II, da Vinci SPS, área de special situations da gestora. No pedido de tutela, a gestora demandou urgência, alegando que a liquidação poderia dificultar a disponibilização dos documentos.
O FIDC também pediu pelo bloqueio de ativos financeiros por 30 dias e a averbação premonitória na matrícula do Frigorífico Monte Verde.
Apesar de ter realizado a intimação e demandado a exibição dos documentos, o juiz negou o arresto e o pedido de averbação, alegando que ainda não havia prova concreta de que os requeridos estavam dilapidando ou desviando bens.
A medida foi pedida pela Vinci para identificar cotistas e beneficiários finais dos dois fundos. Segundo a gestora, os veículos teriam ligação com a família Arantes e poderiam ajudar a esclarecer a estrutura que, na visão da credora, teria sido montada para blindar patrimônio.
O caso envolve uma dívida que, de acordo com o processo, já supera R$ 200 milhões. A cobrança tem origem em execução ajuizada em 2019, inicialmente vinculada à Fênix Securitizadora. Em momento posterior, não identificado nos documentos analisados, a posição credora passou ao Ativos Especiais II, fundo de special situations da gestora.
Em fevereiro deste ano, a Vinci SPS já atuava no processo pedindo a inclusão da Grancarnes Indústria e Comércio de Carnes, da Grancarnes Holding e de fundos ligados à Reag no polo passivo.
A Grancarnes é apontada pela Vinci como a empresa que passou a explorar a principal planta industrial antes ligada ao Grupo Arantes, em Nova Monte Verde, no Mato Grosso. Nas demonstrações financeiras do Silistra Fiagro FIP, a companhia é descrita como uma sociedade anônima de capital fechado com atividade principal de frigorífico e abate de bovinos.
Segundo esses documentos, o Silistra adquiriu a totalidade das cotas da Grancarnes em 27 de abril de 2023, por R$ 300 mil. Meses depois, em agosto de 2023, a empresa foi transformada em sociedade por ações. Em dezembro do mesmo ano, o fundo integralizou R$ 45,9 milhões em direitos creditórios no capital da companhia.
Para a Vinci, porém, a mudança formal de controle não afastaria a ligação da família Arantes com a operação. A gestora sustenta que a estrutura envolvendo Grancarnes, Grancarnes Holding e fundos de investimento teria sido montada para ocultar os beneficiários finais e blindar patrimônio.
A decisão registra ainda a alegação de que Aderbal Luiz Arantes Neto, filho de Aderbal Luiz Arantes Junior, ainda atuaria como diretor de fato da Grancarnes.
O que alega a Vinci
Cadeia societária apontada pela gestora até o Frigorífico Monte Verde
Família Arantes
Aderbal Jr. e Aderbal Neto — controle e benefício final alegado
Bansko FIP
Patrimônio líquido negativo na CVM; investimento pequeno na Grancarnes Holding
Grancarnes Holding S.A.
Antiga NK 291 Empreendimentos e Participações
Silistra Fiagro FIP
Comprou 100% das cotas da Grancarnes em 27/04/2023
Orchid FII
Proprietário do Frigorífico Monte Verde
Grancarnes Indústria e Comércio de Carnes S.A.
Frigorífico / abate de bovinos em Nova Monte Verde (MT)
Frigorífico Monte Verde
Imóvel e planta operacional
A familia Arantes e empresas ligadas ao grupo aparecem associadas, já há algum tempo, a passivos bilionários. Matéria do portal De Olho nos Ruralistas de 2019 apontava o grupo como um dos maiores devedores do agro, com dívida total atribuída de R$ 22,3 bilhões. Em consulta atual na dívida ativa da União, nomes ligados à família, como o da Arantes Alimentos, também aparecem com débitos bilionários.
Dois fundos da Reag
A Vinci também afirma, no processo, que a liquidação extrajudicial da Reag Trust DTVM pelo Banco Central aumentou o risco de perda de documentos relevantes para identificar os verdadeiros titulares dos fundos. Por isso, pediu urgência na intimação da administradora e do liquidante, a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo, que tem como responsável técnico Antônio Pereira de Souza.
A decisão judicial menciona três fundos entre os requeridos: o Silistra Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (esse administrado pela Aguila Capital), o Bansko Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia e o Orchid Fundo de Investimento Imobiliário.
Dados públicos da Comissão de Valores Mobiliários mostram comportamentos distintos entre esses veículos.
O Orchid FII aparece nos informes mensais da CVM administrado pela Reag DTVM, entre 2024 e 2026. O patrimônio líquido do fundo ficou em torno de R$ 117 milhões ao longo de 2024, subiu para cerca de R$ 125 milhões no início de 2025 e permaneceu nesse patamar até maio de 2026. Em janeiro de 2024, o PL era de R$ 117,35 milhões; em dezembro de 2024, de R$ 117,28 milhões; em janeiro de 2025, de R$ 124,83 milhões; e em maio de 2026, de R$ 124,93 milhões.
Já o Bansko FIP não mostra patrimônio relevante nos informes quadrimestrais da CVM. O fundo aparece com patrimônio líquido negativo ao longo de todo o período analisado: -R$ 71 mil em abril de 2024, -R$ 195 mil em dezembro de 2024, -R$ 240 mil em dezembro de 2025 e -R$ 308 mil em abril de 2026.
O movimento mais expressivo aparece no Silistra Fiagro FIP. Segundo os informes quadrimestrais da CVM, o fundo saiu de um patrimônio líquido de apenas R$ 8,9 mil em abril de 2024 para R$ 46,9 milhões em agosto do mesmo ano. Depois disso, permaneceu relativamente estável: R$ 46,87 milhões em dezembro de 2024, R$ 47,14 milhões em dezembro de 2025 e R$ 47,04 milhões em abril de 2026.
Procuradas, Reag e seu liquidante não se manifestaram até a publicação deste texto. A Vinci afirmou que não irá comentar. A reportagem não conseguiu contato com a família Arantes. Os espaços seguem abertos.