Wall Street recua após primeira alta nos juros pelo Fed em 3 anos e falas de Warsh
Os índices de Wall Street recuaram nesta quarta-feira (16) após o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) promover a primeira alta nos juros no período de três anos, com o comunicado e o presidente do Fed trazendo um discurso mais duro.
Confira o fechamento dos índices:
- Dow Jones: -1,21%, aos 51.462,26 pontos;
- S&P 500: -0,45%, aos 7.551,81 pontos;
- Nasdaq: -0,01%, aos 25.978,425 pontos.
Fed e Warsh
Em decisão unânime, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) subiu em 0,25 ponto percentual os juros de referência dos Estados Unidos (EUA), levando os Fed Funds para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. Essa foi a primeira elevação desde 2023.
O gráfico de pontos com as projeções individuais dos dirigentes do Fomc, chamado de dot plot, divulgado junto com a decisão de hoje, reforçou a mensagem mais dura da autoridade monetária.
Dois membros projetam que as taxas de juros devem ficar no mesmo patamar da decisão de hoje até o fim de 2026. Já a maioria, 12 dirigentes, aposta em uma nova alta de 0,25 p.p., enquanto outros 2 enxergam a taxa no intervalo entre 4,25% e 4,50%.
Na entrevista coletiva após a decisão, o presidente do Fed, Kevin Warsh, deixou claro que o principal incômodo está nos preços. “O fato simples é que a inflação está alta demais e permanece assim há tempo demais”, afirmou. “Inflação é uma escolha, e hoje demos um passo para entregar estabilidade de preços”.
Segundo Warsh, as leituras recentes não foram suficientes para mostrar uma melhora significativa da tendência inflacionária. O presidente do Fed destacou ainda que diversas categorias continuam apresentando aumentos superiores a 3% nas janelas de seis e 12 meses, além de chamar atenção para a recente alta das commodities.
Além disso, o chairman do Fed avaliou que a junção de três fatores ajuda a explicar a disparada recente dos rendimentos do Treasury de 10 anos: a força da economia dos Estados Unidos, a maior competição por capital e as tensões geopolíticas.
Os títulos de curto e médio prazo voltaram a subir depois da descisão e das falas de Warsh. O T-bond de 10 anos opera a 5.014%, avanço de 1,8 ponto-base em relação ao fechamento anterior.
Na avaliação do economista-chefe da Nomos, Beto Saadia, a decisão unânime é rara e politicamente relevante. “Ela ocorre em um momento em que o presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona por corte de juros e ameaça impor retaliações comerciais caso o Fed não ceda”, diz.
A decisão, acrescenta o economista, também protege Warsh de acusações de que, por ser indicado de Trump, atuaria no sentido da redução de juros e na condução da política monetária de modo a agradar à Casa Branca, visto que os 12 membros votantes o acompanharam na postura mais dura (hawkish, em inglês).
“Na coletiva, Warsh foi na mesma linha, dizendo ter dificuldade de chamar as condições financeiras atuais de restritivas, ou seja, na visão dele os juros atuais ainda não freiam a economia o suficiente”, explica Saadia, que avalia o discurso do presidente do Fed como hawkish.
Na leitura do economista-chefe da Nomos, o Fed opta por reconstruir credibilidade após meses de questionamento sobre sua independência, e a melhor forma de fazer isso é parecer mais duro do que o esperado. “O resultado tende a ser a curva de juros dos EUA mais pressionada e o dólar forte no curto prazo”, diz.
Já para os ativos de risco, como as ações, o recado é de cautela, segundo o economista, já que o “higher for longer” volta a predominar.