A cidade que nasceu de uma profecia e hoje é uma das maiores metrópoles do planeta
Coincidência ou não, pouca gente sabe que a metrópole mais populosa da América do Norte teria surgido a partir de uma antiga profecia, eternizada até hoje na bandeira de seu país.
Considerada por muitos a cidade mais bonita do mundo em um passado cada vez mais distante, ela já superava Londres em tamanho quando ainda era desconhecida pelos europeus. Sua grandiosidade impressionava até aqueles acostumados aos maiores centros urbanos da época.
Mas o mesmo esplendor que a tornou famosa acabaria decretando sua ruína. Mais de 500 anos depois, porém, ela continua existindo sob outro nome: a Cidade do México, erguida onde um dia esteve Tenochtitlán.
Coincidência ou predestinação?
Como capital do Império Asteca, Tenochtitlán foi construída sobre um lago em 1325. Pode não parecer o local mais adequado para fundar uma cidade, mas os mexicas, como eram conhecidos os astecas antes do império, tinham um plano.
Segundo uma antiga profecia, eles deveriam fundar uma grande cidade onde o deus da guerra, Huitzilopochtli, havia ordenado que encontrassem um sinal divino: uma águia, segurando uma serpente no bico, pousada sobre um cacto.

Guiados pelo presságio, percorreram a região até encontrar o local indicado. Esta seria uma pequena ilha no meio do Lago Texcoco, a 2.240 metros de altitude.
E foi ali que decidiram fundar Tenochtitlán.
Existe uma explicação mais simples para essa escolha. Seria a de que os mexicas chegaram tarde à região, que já contava com dezenas de assentamentos, restando a eles apenas uma pequena ilha no meio do lago.
Mal sabiam eles, porém, que a situação logo se inverteria.
Invenção urbana inédita
Para Tenochtitlán se sustentar sobre as águas do Texcoco, os Mexicas inventaram as chinampas.
Eram ilhas artificiais sustentadas por estruturas de madeira preenchidas com a lama do próprio lago — e que criavam áreas férteis para o cultivo. Também era possível construir moradias sobre elas.
Graças a esse sistema, diversos canais foram sendo abertos entre as ruas, servindo como vias de locomoção dentro da cidade. Havia ainda grandes pontes levadiças, utilizadas para permitir a passagem de barcos.

Para se conectar às terras fora do lago, Tenochtitlán contava com vias pavimentadas com pedras. A cidade também possuía aquedutos que traziam água das montanhas próximas, de forma semelhante à de Veneza, na Itália.
A cidade foi crescendo, até o ponto de abrigar cerca de 200 mil habitantes no século XVI e se tornar a capital do Império Asteca.
Na mesma época, o império ocupava uma área total de aproximadamente 248 mil km² — quase o tamanho atual do estado de São Paulo —, e governava uma população estimada em cerca de seis milhões de pessoas.
Mas tudo mudaria com a chegada dos espanhóis.
A colonização de Tenochtitlán
Em 1519, o conquistador espanhol Hernan Cortés chegou a Tenochtitlán. Foi recebido inicialmente de forma pacífica pelo imperador Montezuma.
“É uma cidade tão gloriosa quanto Sevilha e Córdoba”, escreveu Cortés ao descrever seu fascínio pela capital asteca em um dos mais antigos relatos sobre a região.
Essa inicial diplomacia, no entanto, não demoraria para se deteriorar.
Enquanto avançava pelo território asteca, Cortés havia firmado alianças com diversos povos indígenas rivais, ressentidos da dominação exercida pelo império.
Após sucessivos conflitos entre astecas e espanhóis, Cortés cercou Tenochtitlán e lançou uma ofensiva ao lado de milhares de aliados indígenas.
As rotas de abastecimento foram bloqueadas, interrompendo a chegada de alimentos e água potável e causando fome entre os habitantes. Ao mesmo tempo, epidemias trazidas da Europa, especialmente a varíola, se espalhavam pela região e enfraqueciam a população local.
Depois de mais de dois meses de cerco, Tenochtitlán foi finalmente conquistada. Estima-se que, nesse processo, mais de cem mil mortes foram causadas.

A Cidade do México
A partir de então, Tenochtitlán começou a ser reconstruída pelos espanhóis, que reutilizaram pedras das antigas construções astecas.
O lago Texcoco foi gradualmente drenado, os canais deram lugar a avenidas e templos religiosos astecas foram substituídos por edifícios coloniais, como a Catedral Metropolitana da Cidade do México.
E assim, Tenochtitlán desapareceu para dar origem à Cidade do México.

Séculos depois, permanece a dúvida sobre se o imperador Montezuma realmente acreditava que Cortés era Quetzalcóatl, uma importante divindade mesoamericana que retornaria para pôr fim à ordem estabelecida, segundo algumas tradições.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.