Bradesco (BBDC4): Os alertas do CEO para o cenário; ação cai 3%
O Bradesco (BBDC4) deu mais um passo em sua maratona rumo à recuperação dos números. Na noite da última quarta-feira, o banco reportou lucro de R$ 6,8 bilhões, quando o mercado esperava R$ 6,2 bilhões. Na abertura, a ação caía 3,37%, a R$ 18,62.
As principais linhas, como rentabilidade e margens, melhoraram, enquanto a inadimplência se manteve estável.
Mas o cenário não é de céu de brigadeiro, o que, talvez, torne a recuperação do banco ainda mais surpreendente. Em teleconferência de resultados com jornalistas, o CEO Marcelo Noronha vê uma piora do sentimento em relação ao trimestre passado.
Na visão dele, a guerra do Irã já traz impactos, especialmente no petróleo. A perspectiva só não é pior por conta do dólar controlado. Na última sessão, a moeda norte-americana chegou a R$ 4,92, o menor patamar desde 2024.
“Essa valorização do real traz efeitos distintos. Por um lado, pressiona setores exportadores, especialmente o agronegócio. Por outro, beneficia a economia brasileira em diversos aspectos, principalmente no controle inflacionário”, destaca.
Outro ponto de alerta diz respeito ao próprio Banco Central, já que a disparada do petróleo pode fazer com que os juros permaneçam mais altos por mais tempo.
“Dizer que o Brasil está imune ao cenário global simplesmente não faz sentido. É fato que o ambiente macroeconômico piorou. Ainda que existam alguns efeitos positivos pontuais, seguimos vendo uma inflação mais pressionada ao longo do ano. E isso naturalmente influencia as decisões de política monetária”, diz o executivo.
Mercado com menos apetite?
Isso também poderá bater no mercado de capitais. No início do ano, era esperada uma nova janela de IPOs (oferta pública inicial de ações), o que não ocorreu até agora.
Nesta quinta, está marcada a precificação da Compass, empresa do grupo Cosan, que pode marcar a reestreia de aberturas de capital no Brasil após quatro anos.
“Esse cenário também afeta o apetite a risco no sistema financeiro como um todo — não apenas para nós, mas para todas as instituições”.
Sobre o cenário eleitoral, Noronha não vê grandes mudanças estruturais. “Pode haver alguma volatilidade de curto prazo, especialmente para quem atua no mercado, mas normalmente isso fica concentrado em uma ou duas semanas. Não é algo permanente ao longo de todo o período eleitoral”.
Cenário conservador
Mesmo com a entrega de resultados, Noronha reafirmou que o Bradesco segue com um viés mais conservador. Isso não significa puxar o freio ou parar de operar, no entanto.
“Esse viés mais conservador significa, na prática, que podemos olhar para determinados modelos e concluir que não temos apetite para seguir em algumas modalidades específicas”.
Por outro lado, seguimos com forte tração nas linhas consideradas de melhor qualidade, com bons ratings e garantias. Como mostramos na apresentação, continuamos crescendo de forma consistente.
Maiores provisões preocupam?
Outro ponto que chamou atenção foi a escalada da despesa com PDD, reserva de capital que bancos fazem para lidar com casos de inadimplência, que saltou 26,5% no ano e 9,5% no trimestre, para R$ 9,6 bilhões. O número ficou bem acima de outros concorrentes, como o Itaú.
Noronha, no entanto, tratou de tranquilizar sobre a piora. Segundo ele, trata-se de um caso específico no atacado. “Não posso comentar individualmente sobre operações, mas trata-se de um caso em recuperação no qual, por uma postura mais conservadora, decidimos elevar o nível de provisão”.
Outro ponto é que o Bradesco elevou as provisões para proteger a carteira de crédito, que cresceu 0,1% no trimestre e 8,4% no ano, chegando a R$ 1 trilhão, com expansão de 9,5% na carteira de pessoas físicas, a R$ 474 bilhões.
“A regra contábil da 4.966 exige um volume maior de provisão no momento da originação do que acontecia na antiga 2.682. Por isso, o crescimento das provisões parece quase um relógio”.
Segundo o executivo, se retirarmos esse evento específico da conta, seguimos em normalidade. “Tanto que o nosso índice acima de 90 dias continua estável. Onde vemos um pouco mais de atenção é na carteira rural mais antiga, que pode pressionar ratings daqui para frente. Mas nada fora do esperado”.