AgroTimes

Uruguai quer ceder cota de carne bovina ao Brasil, mas medida esbarra em China e OMC

22 set 2026, 15:54 - atualizado em 22 set 2026, 16:20
carne bovina china uruguai
Uma eventual transferência de volumes não utilizados pelo Uruguai para o Brasil precisaria passar por Pequim. (Foto: Matt Cardy/Getty Images)

O aval do Uruguai para que o Brasil utilize parte de sua cota de exportação de carne bovina para a China pode não ser suficiente para ampliar os embarques brasileiros ao país asiático. Isso porque uma eventual transferência depende de Pequim e precisa respeitar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na segunda-feira (21) que agradeceu ao presidente uruguaio, Yamandú Orsi, pela autorização para que o Brasil utilize o excedente da cota do país vizinho nas exportações à China.

O movimento ocorre em um momento em que a cota brasileira estabelecida pela salvaguarda chinesa está próxima do limite. Uma vez esgotado o volume destinado ao Brasil, os embarques adicionais passam a enfrentar uma tarifa maior para entrar no mercado chinês.

Apesar do sinal verde do Uruguai, Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, avalia que a mudança não é simples.

Segundo ele, informações que circulam no mercado indicam que a China já havia sinalizado ao Brasil, em discussões anteriores, que uma das principais dificuldades para reavaliar e redistribuir as cotas seria justamente a compatibilidade da alteração com as normas da OMC.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“O grau de dificuldade para que a China aceite uma mudança da regra de salvaguarda é bem alto. Então, parece pouco provável que nós tenhamos uma mudança”, afirma Iglesias.

A diferença desta vez, segundo o analista, é que o Brasil passou a contar com a concordância do próprio Uruguai. “Então, são duas partes pedindo isso. Vamos ver como a China vai interpretar”, diz.

Quem decide é a China

Uma fonte especializada em comércio exterior ouvida pelo Money Times sob condição de anonimato explica que o ponto central é que não cabe ao Uruguai simplesmente transferir sua cota para outro país.

Pelas regras da OMC, o país responsável pela aplicação da cota deve estabelecer critérios para sua administração e respeitar as disciplinas multilaterais de não discriminação na distribuição dos volumes entre fornecedores.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Neste caso, é a China quem impõe e administra a salvaguarda. Portanto, uma eventual transferência de volumes não utilizados pelo Uruguai para o Brasil precisaria passar por Pequim.

“Quem impõe a cota é a China, e quem controla a cota é a China”, resume a fonte.

Segundo ela, Uruguai e Estados Unidos estão entre os países que podem não preencher integralmente os volumes que receberam. Isso, porém, não significa que possam transferir unilateralmente o saldo para o Brasil.

“Eles podem até tentar passar a cota para o Brasil, se quiserem. Mas, na realidade, isso teria que ser negociado com a China”, afirma.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A fonte ressalta que a concordância entre Brasil e Uruguai, portanto, não é suficiente para que carne brasileira seja automaticamente enquadrada no volume destinado aos uruguaios.

“Não adianta o Uruguai querer, o Brasil querer, porque a China não vai reconhecer essa transferência de cota”, diz.

As regras da OMC preveem que, quando uma cota é distribuída entre países fornecedores, o membro que aplica a restrição pode buscar um acordo sobre essa distribuição com os países que tenham interesse substancial no fornecimento do produto.

Quando isso não é possível, a divisão deve considerar, entre outros fatores, a participação dos fornecedores em um período representativo anterior.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

As normas também admitem, sob determinadas condições, uma distribuição diferente da regra geral, mas exigem justificativas e procedimentos específicos. Ou seja, não existe uma transferência automática de uma parcela atribuída a um país para outro apenas porque ambos concordaram com a operação.

Poderia haver contestação na OMC?

Caso a China aceitasse uma redistribuição considerada discriminatória por outros exportadores, um país que se sentisse prejudicado poderia questionar a medida na OMC, segundo a fonte ouvida.

Na avaliação dela, contudo, uma disputa formal não é o cenário mais provável neste momento.

Isso porque outros grandes exportadores também enfrentam uma disponibilidade relativamente restrita de carne bovina, reduzindo, na visão da fonte, o incentivo econômico para uma contestação.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“Poderia haver, sim, uma reclamação na OMC, mas eu não vejo isso acontecendo na prática”, afirma.

Assim, o aval uruguaio representa um passo político favorável ao pleito brasileiro, mas não garante o aproveitamento da cota.

A decisão efetiva está nas mãos da China, que teria de aceitar e formalizar uma eventual redistribuição dos volumes sem contrariar as disciplinas aplicáveis da OMC.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Compartilhar

WhatsAppTwitterLinkedinFacebookTelegram
Repórter
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
Linkedin
Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, atua como repórter no Money Times desde março de 2023. Antes disso, trabalhou por mais de três anos no Canal Rural. Em 2024 e 2025, integrou a lista dos 100 jornalistas + Admirados da Imprensa do Agronegócio e, em 2026, alcançou o Top 50 da premiação.
Linkedin

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies.

Fechar