‘Como é que você olha empresas inexpressivas criando rombos de dezenas de bilhões?’, questiona Esteves, do BTG
O presidente do conselho de administração do BTG Pactual (BPAC11), André Esteves, afirmou nesta segunda-feira (14) que a principal preocupação para o Brasil nos próximos anos não está na economia, mas no ambiente institucional.
Durante um painel sobre as perspectivas para 2030 realizado pelo Grupo Esfera, Esteves avaliou que o país já avançou significativamente na consolidação da estabilidade econômica e que o próximo governo terá pela frente um cenário mais organizado do que o enfrentado por administrações anteriores.
“O tema econômico está fácil. Tem um caminho, tem uma fórmula para ser seguida, tem as experiências internacionais, tem os benchmarks internacionais. Não tem invencionices a serem feitas”.
Para ele, o desafio econômico tem um caminho relativamente claro: o equilíbrio fiscal. Já a questão institucional seria uma batalha mais difícil e que não pode ser perdida.
“Eu acho que a batalha econômica está mais fácil. A batalha institucional é a guerra que a gente não pode perder”, afirmou.
Segundo Esteves, o país precisa preservar o que chamou de “Brasil institucional” diante do avanço de atividades informais e de problemas envolvendo empresas que, apesar de terem pouca relevância econômica, são capazes de provocar prejuízos bilionários.
“Como é que você olha segmentos regulados da economia que, de repente, se tornaram 20% informais? Como é que você olha empresas inexpressivas criando rombos de dezenas de bilhões? Então, isso não pode acontecer. Tão simples quanto isso”, disse.
O banqueiro afirmou que o país já venceu “várias batalhas”, mas não pode baixar a guarda. “A gente ganhou várias batalhas, mas a gente aqui, nessa sala, não pode descansar, porque a guerra não está vencida. E essa guerra a gente não pode perder”, afirmou.
Na avaliação de Esteves, o Brasil tem condições de ocupar uma posição melhor no cenário internacional. Ele citou México e Rússia como referências de países em uma posição que, segundo ele, o Brasil não deveria buscar.
“Nós somos melhores do que isso. Com todos os nossos problemas, desafios, mazelas, a gente é melhor do que isso”, afirmou.
Economia
Apesar da preocupação com o ambiente institucional, Esteves disse acreditar que o próximo presidente encontrará um país em condições econômicas melhores do que as observadas em momentos anteriores de transição de governo.
Ele citou como exemplos os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, que assumiram o país em períodos de maior fragilidade macroeconômica.
“Quem for sentar na cadeira no ano que vem vai pegar um Brasil muito mais arrumado do que outros governos do passado”, afirmou.
Para Esteves, o principal passo que ainda falta para consolidar a estabilidade econômica brasileira é reduzir estruturalmente os juros.
“Nós não temos juros civilizatórios. Esse juro de 14% é sufocante para qualquer empresa, incluindo para os bancos. Ele é ruim para todo mundo”, disse.
O banqueiro defendeu que a taxa básica de juros poderia cair de 14% para algo próximo de 7%, desde que o país avance no equilíbrio fiscal.
“O nosso juro está alto porque a gente está, de um lado, expandindo a economia com o fiscal; do outro lado, estamos segurando a economia com o monetário”, afirmou.
Para ilustrar o argumento, Esteves comparou a política fiscal e monetária a um carro. “Se você dirigir um carro e apertar o acelerador e o freio ao mesmo tempo, você vai ter que pisar muito mais no freio. É mais fácil você tirar o pé do acelerador, porque aí você precisa pisar menos no freio”, disse.
Segundo ele, a redução dos juros teria impacto não apenas sobre empresas e mercados financeiros, mas também sobre a população de menor renda.
“Isso vale muito mais do que qualquer programa social, do que qualquer política de governo, do que aumentar um pouquinho o investimento”, afirmou.
Eleição
Sobre a disputa eleitoral, Esteves afirmou enxergar um cenário de empate entre os candidatos e avaliou que a eleição deve ser decidida no segundo turno.
“Eu acho que a eleição vai ser 51 a 49. A gente só não sabe para quem. A gente está numa eleição virtualmente empatada”, afirmou.
Segundo ele, pequenas variações nas pesquisas e fatores como o número de eleições estaduais decididas em primeiro turno podem influenciar o resultado da segunda etapa, inclusive por seus efeitos sobre a abstenção.
Neste momento, disse Esteves, há uma “ligeira” vantagem do chamado likely vote, ou eleitorado provável, para a direita. “Agora, a maneira mais clara de dizer onde nós estamos é: nós estamos num virtual empate”, afirmou.