Crise nos mercados ameaça mais o PIB do que a inflação, diz Capital Economics
A disparada dos juros após a eleição presidencial representa uma ameaça maior ao crescimento da economia brasileira do que a alta do dólar para a inflação, avalia a Capital Economics. Para a consultoria, o encarecimento do crédito e o aumento dos custos da dívida pública podem aprofundar a desaceleração da atividade em 2027.
Em relatório divulgado na quinta-feira (29), Liam Peach, economista sênior de mercados emergentes da Capital Economics, afirma que a turbulência reforça sua projeção de crescimento de 1% para o Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano.
Segundo o levantamento, desde a sexta-feira anterior ao segundo turno, o real havia perdido cerca de 7% frente ao dólar, as ações tinham recuado 17% e os juros dos títulos públicos de dez anos haviam subido quase 2,5 pontos percentuais.
Crédito pode ficar mais caro mesmo com Selic parada
A Capital Economics avalia que as taxas dos novos empréstimos devem subir mesmo que o Banco Central mantenha a taxa Selic, refletindo a alta dos juros de mercado.
Esse movimento encontra famílias e empresas com pouco espaço no orçamento. Segundo o relatório, os brasileiros destinam uma parcela recorde de 29% da renda disponível ao pagamento de dívidas, enquanto os custos dos empréstimos empresariais e a inadimplência estão em níveis elevados.
O aumento das despesas financeiras tende a pressionar o caixa das empresas e elevar os atrasos nos pagamentos, impondo um freio adicional à atividade.
Dólar deve ter impacto limitado sobre a inflação
A consultoria estima que a desvalorização do real naquela semana acrescente 0,3 ponto percentual ao IPCA nos seis meses seguintes. Isso aumenta o risco de a inflação permanecer acima de 4,5%, teto do intervalo de tolerância da meta, durante boa parte de 2027.
Peach pondera, porém, que a queda da moeda reverteu parte dos ganhos após o primeiro turno e levou o câmbio para perto do patamar esperado pelo mercado para o fim de 2027. Assim, o movimento antecipa uma pressão inflacionária que já estava prevista.
A Capital Economics considera improvável uma alta da Selic, mas espera que as preocupações fiscais levem o Copom a interromper os cortes na reunião da próxima semana.
Pressão sobre as contas públicas
Os juros maiores também encarecem o financiamento do governo. O impacto aparece gradualmente, conforme o Tesouro emite novos títulos e refinancia os vencimentos, e depende da trajetória da Selic, à qual cerca de metade da dívida está vinculada.
A Capital Economics estima que a alta das taxas dos títulos em relação ao ano anterior pode acrescentar 0,5% do PIB às despesas com juros, levando o déficit nominal, que inclui esses gastos, a 9,5% do PIB.
Para Peach, um compromisso do governo com uma política fiscal mais crível poderia aliviar essa pressão. Sem recuperar a confiança, o risco é alimentar um círculo vicioso: juros maiores pioram a trajetória da dívida, ampliam a desconfiança e levam investidores a exigir taxas ainda mais altas.