Vale (VALE3) está entre as maiores altas do Ibovespa mesmo após balanço fraco no 3T26. O que explica?
As ações da Vale (VALE3) estão entre os maiores os ganhos do Ibovespa nesta sexta-feira (30), apesar de a mineradora ter apresentado resultados considerados fracos pelo mercado no terceiro trimestre de 2026 (3T26).
O desempenho positivo dos papéis ocorre em meio a uma avaliação mais cautelosa dos analistas sobre os números da companhia, que combinaram pressão sobre o negócio de minério de ferro e uma geração de caixa considerada resiliente.
Durante teleconferência com investidores realizada nesta sexta-feira (30), a administração da Vale também apresentou perspectivas para os próximos meses e detalhou as estratégias adotadas para controlar custos operacionais.
A expectativa da companhia é que a pressão sobre as despesas perca força no quarto trimestre, com indicadores mais estáveis mesmo diante da volatilidade dos preços de insumos e combustíveis. Você pode conferir detalhes nesta reportagem do Money Times.
O balanço dividiu a avaliação dos bancos. Itaú BBA, Safra e BTG Pactual consideraram o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) próximo de suas estimativas, enquanto o BB Investimentos chamou atenção para a combinação de preços menores do minério de ferro e custos pressionados.
O Ebitda proforma somou US$ 3,5 bilhões no trimestre, queda de 20% na comparação anual e de 14% em relação ao segundo trimestre. Para os analistas, o principal ponto de preocupação foi o desempenho da divisão de ferrosos, enquanto a geração de caixa e os resultados da divisão de metais básicos ajudaram a compensar parte da fraqueza operacional.
Minério de ferro preocupa analistas
A principal pressão sobre os resultados veio do minério de ferro. O preço realizado dos finos recuou 10% no trimestre, para US$ 85,10 por tonelada, enquanto restrições operacionais no Sistema Norte afetaram a produção da companhia.
Apesar das dificuldades, as vendas de minério avançaram em relação ao trimestre anterior, apoiadas pelo consumo de estoques. O movimento ajudou a amenizar o impacto dos preços menores, mas não foi suficiente para afastar as preocupações com o desempenho da divisão.
O BTG Pactual destacou a queda da produção em Serra Norte e os desafios operacionais enfrentados pela companhia. A Vale, por sua vez, indicou que a produção anual deve ficar próxima do limite inferior da faixa prevista para 2026.
O cenário também exige atenção à estrutura de custos. Embora o custo caixa C1 tenha apresentado melhora na comparação trimestral, despesas com câmbio, diesel e frete marítimo continuaram pressionando os resultados.
Nesse contexto, os mecanismos de proteção financeira utilizados pela mineradora foram vistos como um fator de alívio. O BTG Pactual ressaltou que os hedges de petróleo e frete ajudam a reduzir o custo efetivo das operações.
Caixa e metais básicos sustentam balanço
Se o minério de ferro foi o principal ponto negativo, a geração de caixa apareceu como um dos destaques positivos do trimestre.
O fluxo de caixa livre recorrente alcançou US$ 1,37 bilhão, enquanto a dívida líquida expandida recuou para aproximadamente US$ 16,4 bilhões. Para o Itaú BBA, os números demonstram a capacidade da companhia de continuar gerando recursos mesmo diante de um ambiente operacional mais desafiador.
Ainda assim, o BTG Pactual ponderou que o nível de alavancagem da mineradora continua limitando o espaço para distribuições extraordinárias aos acionistas.
Outro destaque foi a divisão de metais básicos, especialmente o cobre. O segmento apresentou crescimento expressivo do Ebitda, beneficiado por preços realizados mais elevados e créditos de subprodutos. O desempenho ajudou a compensar parte da fraqueza da divisão de minério de ferro.
No níquel, entretanto, o cenário foi menos favorável. Custos de manutenção pressionaram a rentabilidade, levando a uma contribuição inferior à esperada por parte dos analistas.
O que os bancos recomendam para VALE3?
As avaliações dos bancos refletem diferentes percepções sobre o potencial de valorização das ações da Vale.
O BTG Pactual e Itaú BBA mantiveram recomendação de compra para os papéis. Já BB e Safra adotaram recomendação neutra. As instituições demonstram maior cautela diante da perspectiva para os preços do minério e das dificuldades operacionais enfrentadas pela mineradora.
O Safra também destacou que a fraqueza das cotações representa um obstáculo para os próximos trimestres, embora a desvalorização do real e uma possível recuperação do cobre possam funcionar como fatores de compensação.
Por que a Vale está subindo mesmo assim?
Para Rodrigo Glatt, sócio-fundador da GTI Administração de Recursos, o desempenho positivo das ações da Vale nesta sexta-feira não deve ser interpretado como uma reação direta ao balanço do terceiro trimestre. Na avaliação do gestor, os resultados mais fracos da mineradora já estavam incorporados aos preços, e a valorização dos papéis reflete principalmente um movimento de reposicionamento dos investidores após as eleições.
“É difícil falar que o balanço está predominando. Estamos passando por uma série de ajustes nas carteiras com o resultado das eleições. A gente vê uma busca maior por proteção e por cases mais líquidos, como a Vale e a Petrobras”, afirmou ao Money Times.
Segundo Glatt, a percepção de continuidade da deterioração fiscal aumenta a cautela dos investidores em relação às empresas mais sensíveis à trajetória dos juros. Nesse ambiente, companhias como a Vale passam a ser vistas como alternativas para proteger as carteiras, enquanto ações com maior exposição ao risco doméstico perdem espaço.
“Com a visão de que o fiscal vai continuar deteriorado, o que tira valor das empresas sensíveis aos juros, o pessoal está tentando se defender nas exportadoras, se livrando das ações que têm risco maior. Estamos vendo mais esse cenário do que o resultado da Vale em si”, explicou Glatt.