Descoberta de petróleo na Amazônia dá impulso eleitoral a Lula, mesmo com resultado incerto
A descoberta de petróleo em um poço exploratório na costa da Amazônia na semana passada deu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um novo impulso para sua campanha de reeleição, ajudando-o a reforçar suas credenciais pró-desenvolvimento em uma região que pode se mostrar crucial para a eleição de um Senado favorável.
“Isso aqui… pode se chamar de passaporte para o futuro deste país”, disse Lula no início desta semana, enquanto segurava um pequeno frasco de petróleo durante uma visita à região. No entanto, mesmo que a descoberta venha a se confirmar como comercial, o que ainda está longe de ser certo, é improvável que a Petrobras inicie a produção antes de pelo menos sete anos.
Isso significa que quaisquer benefícios econômicos só chegarão depois de um eventual quarto mandato, caso Lula seja reeleito, e muito depois do pico da demanda global por petróleo, que a Agência Internacional de Energia estima que será atingido por volta de 2030.
Ainda assim, a campanha de Lula acredita que a descoberta possa influenciar os eleitores do Amapá, Estado que deve colher os maiores ganhos com qualquer exploração de petróleo, disse uma pessoa da campanha à Reuters.
Embora o Estado tenha apenas 803 mil habitantes, um número pequeno em comparação com a população brasileira de 213 milhões de habitantes, o Amapá é a base política do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), que tem uma relação difícil com Lula.
Depois de meses barrando projetos do governo no Congresso, Alcolumbre voltou a conversar com o presidente nas últimas semanas. O senador destravou projetos importantes para Lula nesta campanha eleitoral, como o do fim da escala 6×1, de olho em um possível apoio para se manter como presidente do Senado no próximo mandato.
A mesma fonte da campanha acrescentou que já estão sendo produzidos materiais publicitários sobre a descoberta de petróleo.
Boom petrolífero incerto
Lula não perdeu tempo em comparar a descoberta de petróleo na Amazônia com o pré-sal, a grande descoberta brasileira da década de 2000, que foi divulgada durante o segundo mandato de Lula e transformou a Petrobras em uma das maiores produtoras de petróleo bruto do mundo.
Mas a Petrobras precisa perfurar pelo menos mais três poços para determinar se a produção de petróleo na região seria comercialmente viável, disse a presidente-executiva da estatal, Magda Chambriard.
Ela afirmou no ano passado que, se forem confirmadas grandes reservas, a Petrobras poderia iniciar a produção em até sete anos.
Ainda assim, a descoberta de petróleo gerou entusiasmo entre as autoridades locais, que já estão pensando em quais cidades poderiam abrigar instalações petrolíferas no Amapá, um Estado onde mais de 90% do território é coberto por floresta tropical intocada.
A Petrobras estuda a implantação de um centro de logística no Amapá, onde há planos para criar dois polos industriais e até mesmo construir uma ilha artificial para o atracamento de navios da indústria petrolífera, relatou Wandenberg Pitaluga Filho, secretário de Desenvolvimento Econômico do Amapá.
Um boom petrolífero em torno do desenvolvimento esperado poderia começar em cerca de dois anos, assim que a Petrobras determinar se a produção de petróleo na região é economicamente viável, disse Telmo Ghiorzi, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Serviços Petrolíferos (ABESPetro).
“Aí sim veremos uma movimentação extraordinária”, disse ele.
Preocupações ambientais
Uma campanha focada no petróleo contrastaria com o esforço de Lula para se apresentar ao mundo e aos eleitores como um líder climático capaz de salvar a imensa floresta amazônica da destruição.
Mesmo ao colocar a descoberta de petróleo como fundamental para o Brasil no início desta semana, ele também teve o cuidado de acrescentar que não estava abandonando seu compromisso com “um dia em que não precisaremos mais de combustíveis fósseis”. A lógica do presidente, manifestada diversas vezes, é usar o petróleo para financiar uma transição energética, que aponta como inevitável.
A iniciativa da Petrobras de perfurar um poço exploratório na bacia da foz do rio Amazonas gerou um debate acirrado dentro do próprio governo, colocando as preocupações ambientais contra o argumento da empresa petrolífera de que precisa reabastecer suas reservas.
No entanto, em uma disputa eleitoral acirrada, a guinada pró-petróleo de Lula pode se revelar útil para ajudar a desfazer a percepção, entre um eleitorado cada vez mais conservador nos Estados amazônicos, de que o presidente prioriza o meio ambiente em detrimento do desenvolvimento da região, segundo Breno Rodrigo, analista político da Universidade Federal do Amazonas.
“A visão que se tem é de que o excesso de preservação do meio ambiente, o excesso de legislação, tem travado o nosso desenvolvimento”, disse ele.
A disputa interna levou a um atraso de anos na concessão das licenças, já que o Ibama exigiu que a Petrobras aprimorasse seu plano de resposta a vazamentos de petróleo em situações de emergência. Lula, por vezes, criticou o Ibama, mas também afirmou que a perfuração seria realizada da maneira mais segura possível.
As questões ambientais se concretizaram em janeiro deste ano, após um vazamento de fluido durante a perfuração. O Ibama multou a Petrobras em cerca de US$ 480 mil pelo vazamento, enquanto organizações indígenas locais no Amapá afirmaram que o acidente confirmou suas preocupações em relação às atividades.
“Essas são as contradições que o Lula vai ter que enfrentar e que já está enfrentando”, disse Rodrigo.