“Desonestidade”: João Hazim, da Escola Cripto, fala sobre bitcoin, Elon Musk e dogecoin

19/05/2021 - 13:00
Entenda por que é importante levar o mercado com seriedade e evitar as “memecoins” em entrevista com o cofundador da EscolaCripto (Imagem: Unsplash/grbchh)

Esta semana, o anúncio de que Elon Musk, CEO da Tesla (TSLATSLA34) não está mais tão confiante em relação ao bitcoin surpreendeu a todos e abalou o mercado,

Convidamos João Hazim, cofundador do projeto educacional EscolaCripto, para falar mais sobre o atual momento de mercado e percebermos que os tuítes de Musk não é algo tão passível de alarde. Confira!

1) João, como e quando você se envolveu com o mercado cripto?

A gente começou a se envolver nesse mercado no começo de 2019 com a parte de educação, mas estamos no mercado desde 2017 para especular sobre o preço — pelo mesmo motivo pelo qual grande parte das pessoas entrou.

Em 2018, pegamos todo aquele “bear market” [mercado de baixa]. Muita gente saiu do mercado e, quem ficou, entendeu do que essa tecnologia se tratava. 

Passamos o ano de 2018 estudando e, no final desse ano, a gente [Lalo e eu] se conheceu por conta de um grupo que eu tinha no Telegram e começamos a nos aproximar. 

Resolvi criar um perfil profissional no Instagram para compartilhar conteúdos porque as pessoas me adicionavam, no meu perfil pessoal, para tirar dúvidas, pois havia muitos golpes.

Eu tinha a ideia de criar um projeto educacional e nos juntamos eu, ele e o Cláudio para começarmos a compartilhar esse conteúdo.

Haviam dois perfis naquele momento: o pessoal muito técnico, difícil de ser compreendido, e o pessoal muito da “zoeira”. Faltava alguém que tratasse do mercado com seriedade, mas de forma mais didática, e assim surgiu o EscolaCripto

Começamos pelo Instagram, depois fomos para o YouTube e migramos para as demais redes sociais sempre essa mesma premissa de compartilhar conteúdos de maneira séria, mas de maneira didática.

Não comunicamos para mostrar que a gente sabe, e sim para tentarmos ser didáticos para que as pessoas percebam que também podem ingressar nesse mercado, compreendendo do que se trata.

Tentamos ser um porto seguro para quem está chegando no mercado e tentamos encontrar esse equilíbrio entre informação de qualidade da maneira mais didática possível.

2) Em suas palavras, o que são criptomoedas?

Segundo Hazim, a descentralização permite que tudo funcione de maneira mais segura, produtiva e autônoma, retirando o poder das grandes empresas e o dando para seus verdadeiros donos: os usuários (Imagem: Pixabay/Photospirit)

É uma maneira de eliminar intermediários dentro de um processo para torná-lo mais produtivo.

Um exemplo é a empresa Uber, uma intermediária entre motoristas e passageiros. Se você elimina a Uber desse processo, o motorista consegue ganhar mais e cobrar menos do tomador de serviço.

No mercado cripto, isso só é possível por conta de uma tecnologia chamada blockchain, que surgiu para a criação do primeiro ativo digital escasso, o bitcoin.

Foi uma resposta ao crédito de 2008, à impressão desenfreada de papel-moeda e a consequente desvalorização da moeda fiduciária. O bitcoin surge como um ativo digital e escasso que você pode custodiar sem precisar de um intermediário.

O bitcoin é um software que tem, por trás, um livro de registros descentralizado onde as transações são feitas, colocadas no bloco.

Existe uma disputa para a colocação daquele bloco na rede e recompensa quem encontra aquele problema matemático com bitcoin, além das taxas de transações naquele bloco [“mineração de criptomoedas”].

É sobre a eliminação de pessoas, de partes para que tudo funcione de forma orgânica e produtiva.

O bitcoin foi pensado para ser dinheiro, mas hoje é mais utilizado como reserva de valor. Elimina o Estado no papel de criação de dinheiro, onde não existe alguém que possa alterar as regras e que a consequência disso seja no poder de compra.

Já a Ethereum é um grande protocolo de criação de aplicações descentralizadas (dapps) que vão eliminar Uber e Facebook, para manter uma utilização mais justa, segura e privada desses serviços — não pagamos nada para utilizá-los, pois somos o produto desses aplicativos centralizados.

3) Por que nunca é tarde para entrar nesse mercado?

Invista apenas o que você topar perder e faça pequenos aportes mensais (Imagem: Unsplash/executium)

Em primeiro lugar, o bitcoin vai valer muito mais do que hoje. Para quem pensa a médio e longo prazo, é uma boa ideia começar logo.

Àqueles que se lamentam de não terem comprado antes ou que não têm coragem, lembrem-se que a moeda já valeu centavos — agora, US$ 45 mil — e a rede não era tão robusta quanto ela é, o criador era um pseudônimo chamado Satoshi Nakamoto.

Tinha tudo para ser um golpe e tudo era mais arriscado quando valia centavos.

Faz todo o sentido começar a investir desde já. A recomendação é estudar sobre do que se trata esse mercado. Em seguida, investir apenas aquilo que você pode perder, devido à volatilidade, para você não ter dor de barriga quando a volatilidade, para baixo, acontecer.

Quando ela sobe, todo mundo fica de boa, mas quando a volatilidade é para baixo, todos se apavoram e tomam uma decisão pela emoção, e não racional.

Quando você definir quanto você tem para alocar, fracione os aportes. Se eu tenho R$ 1 mil, investir US$ 100 e ver o preço cair, posso aplicar mais em uma oportunidade de compra para, depois, aplicar mais US$ 100. Se você colocar tudo de uma vez só e o preço cair, você se desespera.

4) O que você acha desse manipulação de mercado do bitcoin gerada por Elon Musk?

Musk gerou a ira de muitos “bitcoiners” por conta desse seu “chove e não molha” em relação à maior criptomoeda do mundo (Imagem: Reuters/Hannibal Hanschke/Pool)

Sempre o admirei por ter revolucionou o mercado dos automóveis, mas estou extremamente decepcionado. Ele vinha falando de DOGE há algum tempo e eu achava que era uma maneira de ele chamar a atenção para o mercado cripto e, consequentemente, para o principal ativo, que é o bitcoin.

Aí ele começou a promover DOGE com um pouco mais de força depois de a Tesla anunciar que tinha uma estratégia de tesouraria de US$ 1,5 bilhão em bitcoin.

Pensei: “Beleza. Ele vê valor no bitcoin e ele tem um outro ativo para o qual ele pode ter algum plano, que nasceu para ser uma piada, mas que ele pode dar algum uso, que pode ser interessante”.

Desde quando essa história começou e o pessoal começou a xingá-lo, pensei nessa transformação de um ativo de piada em um uso interessante. Ele tem um plano aqui, mas entende o bitcoin como algo de valor.

Porém, esses dois tuítes de uma semana atrás foram uma questão de desonestidade.

Num dia, ele abre uma votação no Twitter dele perguntando se ele deveria aceitar DOGE como uma forma de pagamento pelos carros e, no dia seguinte, ele questiona o gasto elétrico do bitcoin, dizendo que agride o meio ambiente para as transações acontecerem.

Em primeiro lugar, a energia elétrica não é gasta no momento em que a transação é feita, e sim quando mineradores estão tentando confirmar um bloco na rede.

Apesar disso, ele não fala que é justamente o fato de gastar muita energia que torna a rede do Bitcoin tão segura devido à grande quantidade de computadores.

A conclusão que cheguei é que ele está sendo desonesto, pois está promovendo um ativo em detrimento do bitcoin, como se ele e dogecoin fossem comparáveis.

Para quem está chegando, gera-se muito “FUD” (medo, incerteza e dúvida), então isso demonstra que o mercado ainda é muito imaturo. É muito prejudicial e demonstra a importância de as pessoas entenderem do que o bitcoin se trata, e não comprarem só porque está na moda ou porque alguém falou.

Se as pessoas entendessem, os tuítes de Musk não iam ter impacto algum no preço da criptomoeda. Uma coisa é valor [segurança, privacidade, autonomia] e outra é o preço. Os valores do bitcoin seguem inabalados, independente do que Musk diz. Porém, o preço despencou.

Muitas pessoas grandes — como Michael Saylor, da MicroStrategy, e Jack Dorsey, da Square/Twitter — parecem ter entendido a proposta do bitcoin.

5) Você acha que moedas de meme, como DOGE, SHIBA e ELON podem ter sucesso no futuro?

Grande parte não vale nada nem tem fundamento algum. Existe até o REAU, uma dogecoin brasileira.

Porém, Elon Musk quer dar alguma utilidade para DOGE e precisamos observar. Eu não tenho nem pretendo ter, mas acho que faz sentido seguir observando. Mas não se compara ao bitcoin, assim como não tem como bitcoin e ether (ETH) serem comparados.

6) Qual dica você daria para quem se surpreende com esses rendimentos fáceis e absurdos de moedas e querem investir imediatamente?

Investiu em algum ativo, mas não no bitcoin? Fez besteira! Pare tudo o que você está fazendo, vai entender do que se trata o bitcoin, quais problemas resolve.

Em seguida, se quiser entender mais sobre outros ativos, estude sobre a Ethereum, algumas aplicações importantes e compreenda o que tem mais valor.

Dogecoin nasceu para ser uma piada. Quem começa por aí, está começando errado, pois é como se estivesse construindo uma casa a partir do telhado, e não criando a estrutura.

Entenda como comprar e guardar bitcoins em uma carteira sua para que você seja seu próprio banco e não terceirize a custódia e vá entendendo o que existe além dele.

Se Musk desistir de dogecoin, os investidores poderão se dar mal, pois o ativo depende da promoção de um agente central, ou seja, é mais arriscado. Sempre busque por ativos mais descentralizados para você não ficar à mercê do humor de uma pessoa.

Sempre saiba o que você está fazendo nos seus investimentos e entender para que o ativo serve.

7) De forma simplificada, qual é o melhor jeito de navegar pelas milhares de criptomoedas e escolher aquelas que têm um futuro promissor?

Estudar o Bitcoin, entender quais problemas quer resolver, seu processo de mineração, por que faz sentido ter o bitcoin em uma carteira com chave privada e a importância de ser o seu próprio banco.

É importante estudar o confisco de dinheiro das pessoas em alguns países e o que acontece quando o governo toma controle sobre o poder de compra de seus cidadãos.

Não é preciso entender tudo sobre o bitcoin, como as partes técnicas, e sim os principais valores para entender por que ele é valioso. Quedas serão vistas como algo desesperador, mas sim como oportunidades de compra.

8) Em quais criptoativos a equipe da EscolaCripto está de olho?

Bitcoin e Ethereum sempre dividiram nossa atenção. Gostamos de analisar as principais dapps no blockchain da Ethereum, que são muito valiosas.

Os novos blockchains que estão surgindo, com o objetivo de fazer o que a Ethereum faz de uma maneira mais barata ou rápida, como Polkadot (DOT), juntamente com a Kusama (KSM).

Binance coin (BNB), que é o ativo da Binance, que as pessoas precisam usar no Binance Smart Chain (BSC), que não é descentralizado, mas que se torna mais barato.

Cardano (ADA), que sempre foi uma promessa e, agora, está para lançar sua atualização Alonzo, para que usuários finalmente a utilizem. Também vale dar uma olhada em Solana (SOL) e Maker (MKR).

9) Você participou da edição #53 do podcast Crypto Storm sobre tokens não fungíveis (NFTs). Quais são suas previsões sobre esse mercado multibilionário ainda em 2021?

Acho que NFTs passaram por um momento de euforia, mas acho que, assim como DeFi, não é uma moda. Foi uma moda, deu uma arrefecida agora e vai voltar com mais força.

Até agora, falamos muito sobre arte digital, mas também temos ativos do mundo real, pools de liquidez em protocolos, jogos, música…

NFTs só estão começando. É um mercado extremamente democrático, em que todo mundo pode especular e experimentar. Dá para perder muito dinheiro, mas também dá para ganhar muito.

NFTs vão voltar muito forte com jogos, arte visual, musical, colecionáveis, ativos reais, domínios e seguiremos estudando.

Acompanhamos desde 2017 e atuar no final de 2018 nesse segmento e é uma grande oportunidade para a eliminação de intermediários. Estou muito otimista. Adoro esse mercado de NFTs.

Se você chega primeiro, você tem uma chance maior de usufruir de um mercado que está nascendo.

10) E falando em previsões, qual preço você acredita que o bitcoin poderá chegar até o fim do ano?

No final de 2020, quando o bitcoin valia US$ 19 mil dólares, eu fiz um chute de que chegaria a US$ 200 mil. Compartilhei a minha tese de que o bitcoin é cíclico. Acredito que, no próximo ciclo, o bitcoin poderá variar entre US$ 150 mil e US$ 200 mil dólares ainda este ano.

Me chamaram de irresponsável, mas erraram em 2020, pois seus chutes de US$ 20 mil foram superados pelas altas históricas. Existem vários sinais de topo de mercado. Estou fazendo um chute, tomando minha decisão com base na minha tese.

Você pode conferir os artigos de João Hazim aqui no Crypto Times, bem como os da EscolaCripto, e acompanhar o projeto no Instagram, Twitter, YouTube ou no site oficial.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 18/05/2021 - 16:31

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