Essa empresa do setor ‘mais seguro’ do crédito acendeu o alerta; entenda o que está por trás
Recentemente, a Águas do Rio entrou no radar dos investidores de crédito privado diante de dúvidas sobre seu risco. Para o Itaú BBA, no entanto, o principal ponto de atenção não está na estrutura do projeto, mas na execução operacional.
A análise vem em um momento mais turbulento para o setor, especialmente para a controladora da concessionária, a Aegea. A companhia viu a percepção de risco piorar após adiar repetidas vezes a divulgação do balanço auditado de 2025, em meio a uma revisão contábil relevante.
O episódio abalou a confiança em um setor historicamente visto como seguro, por ter receitas previsíveis e prestar um serviço essencial. Na prática, a revisão levou a Aegea a ajustar o reconhecimento de receitas, passando a refletir melhor a capacidade real de pagamento dos clientes, principalmente nos casos de maior inadimplência.
Esse movimento acabou afetando a percepção sobre ativos ligados ao grupo, como a Águas do Rio, que atende 26 municípios do Rio de Janeiro em um contrato de concessão de 35 anos.
Apesar disso, o Itaú BBA destaca que a concessionária deve ser analisada de forma independente. Isso porque a empresa tem estrutura própria de financiamento e regras específicas em seus contratos de dívida.
No que ficar de olho
Foi nesse contexto que o banco organizou sua análise em seis pontos principais, com o objetivo de esclarecer dúvidas e dar mais visibilidade sobre o estágio atual do projeto.
Um dos destaques é a reapresentação dos resultados de 2024. As mudanças contábeis, que passaram a considerar como receita apenas valores com maior chance de recebimento, não afetaram o caixa, mas tornaram os números mais fiéis à realidade.
Com isso, a leitura sobre inadimplência ficou mais precisa e alinhada à arrecadação efetiva, reduzindo distorções.
Ainda assim, o banco reforça que o maior risco hoje está na execução. O desempenho da concessão depende de três fatores principais: expandir a cobertura de serviços, especialmente de esgoto; transformar potenciais usuários em clientes pagantes; e reduzir perdas na distribuição de água. Esses pontos serão determinantes para a evolução da geração de caixa nos próximos anos.
Outro aspecto importante é o nível de endividamento. Segundo o Itaú BBA, dívidas elevadas são comuns em projetos de infraestrutura no início da operação e não indicam, por si só, um problema.
Por isso, métricas tradicionais como dívida líquida/Ebitda são menos relevantes nesse caso. O foco passa a ser o Índice de Cobertura do Serviço da Dívida (ICSD), que mede a capacidade de pagamento ao longo do tempo.
Pelas projeções atuais, a Águas do Rio deve conseguir honrar suas obrigações no curto prazo, sem risco relevante de inadimplência.
O relatório também lembra que o início da concessão foi mais desafiador do que o esperado, com cobertura menor e maior participação de clientes na tarifa social, o que pressionou o caixa.
Parte desses problemas começou a ser resolvida após um acordo com a agência reguladora no início de 2026, que incluiu descontos na compra de água e ajustes tarifários.
O BBA também reforça que a Águas do Rio segue a lógica de um projeto de “project finance”, com regras que priorizam o pagamento da dívida. A estrutura inclui contas segregadas e limita a distribuição de dividendos enquanto os indicadores financeiros não atingirem níveis adequados.
Na prática, isso cria uma camada extra de proteção para os credores, enquanto a tese de investimento continua dependendo, sobretudo, da execução.