Fim da turbulência: SLC Agrícola (SLCE3) ganha upgrade do BofA, mas ‘maior assimetria’ está em outra ação
O Bank of America (BofA) elevou a recomendação para as ações da SLC Agrícola (SLCE3) de venda para neutra, com preço-alvo de R$ 14,50, diante da perspectiva de um ciclo mais favorável para os grãos em 2027.
Apesar do upgrade, a preferência do banco entre as empresas do agronegócio brasileiro segue sendo a 3tentos (TTEN3). O BofA reiterou recomendação de compra para os papéis, com preço-alvo de R$ 22, e avalia que a companhia apresenta uma relação risco-retorno mais favorável.
Segundo o relatório assinado pelas analistas Isabella Simonato e Julia Zaniolo, o setor agrícola brasileiro começa finalmente a “sair da turbulência” depois de três a quatro anos marcados pela pressão sobre os preços das commodities e pelo avanço dos custos.
Os preços dos grãos subiram mais de 20% nos últimos dois meses e acumulam valorização superior a 30% no ano, segundo o banco. Entre os fatores que explicam o movimento estão conflitos geopolíticos, condições climáticas adversas nos Estados Unidos, estresse sobre as lavouras europeias, fortalecimento do El Niño e a mudança no posicionamento dos fundos no mercado futuro.
Com algumas dessas disrupções ainda em andamento, o BofA espera que os preços dos grãos permaneçam elevados em 2027, beneficiando tanto a SLC quanto a 3tentos.
“Acreditamos que o setor agrícola brasileiro esteja finalmente saindo da turbulência após três a quatro anos desafiadores de preços pressionados das commodities e custos crescentes”, afirmam as analistas.
Por que o BofA prefere 3tentos?
Embora enxergue melhora para as duas companhias, o BofA vê maior assimetria na 3tentos, especialmente após a forte queda relativa das ações. Nos últimos três meses, TTEN3 teve desempenho 62% inferior ao de SLCE3, segundo o banco.
No curto prazo, porém, a 3tentos ainda enfrenta margens pressionadas no esmagamento de soja. O custo da oleaginosa avançou 25% nos últimos seis meses, enquanto os preços do farelo de soja e do biodiesel subiram apenas 9% e 6%, respectivamente.
O banco avalia que esse cenário pode melhorar mais à frente. A mistura obrigatória B16 tende a dar suporte aos preços do biodiesel e às margens de esmagamento, enquanto a instituição também destaca o histórico de execução da companhia.
Além disso, o BofA considera que a 3tentos possui menor exposição ao risco cambial do que a SLC e continua sendo uma história relevante de crescimento no agronegócio brasileiro.
O ponto de atenção é a alavancagem. A expectativa é que a relação entre dívida líquida e Ebitda da companhia atinja 3,2 vezes ao final de 2026, com fluxo de caixa livre negativo em R$ 611 milhões.
Nas estimativas do banco, porém, a 3tentos deve adiar o projeto de etanol de milho no Pará, decisão que reduziria a alavancagem projetada para 2027 em aproximadamente 0,5 vez.
SLC Agrícola ganha upgrade, mas enfrenta câmbio, hedge e alavancagem
Para a SLC Agrícola, a perspectiva de preços mais elevados para milho e soja também melhora o cenário operacional.
A equipe global de agricultura do BofA projeta potencial de alta de 7% para os preços atuais do milho em 2027, diante de um mercado norte-americano bastante apertado. Para o próximo ano, o banco trabalha com milho médio a US$ 5,80 por bushel e soja a US$ 13,30 por bushel.
O câmbio, contudo, pode limitar parte dos ganhos da SLC. Como a receita da produtora agrícola possui exposição relevante ao dólar, uma valorização do real reduz parte do benefício proporcionado pela alta das commodities.
O BofA trabalha com dólar médio de R$ 5 em 2027 e calcula que, para cada variação de R$ 0,10 nessa premissa, o Ebitda estimado da SLC para o próximo ano muda em aproximadamente 1,8%.
Outro obstáculo está nos hedges. Cerca de 50% da produção de algodão e soja de 2027 está protegida a preços inferiores aos níveis atuais do mercado à vista. No algodão de 2026, aproximadamente 40% da safra está travada a US$ 0,75 por libra-peso, contra cerca de US$ 0,83/lb no mercado à vista.
O BofA também chama atenção para o aumento dos custos de produção do milho, estimado em 8,3% na comparação anual, além do risco de pressão sobre a produtividade associado ao El Niño.
Terras entram no radar da SLC
A alocação de capital é outro ponto de atenção para a SLC. Mesmo com resultados mais fortes, o banco estima um retorno de fluxo de caixa livre (FCF yield) de apenas 6% em 2027, diante de um balanço mais alavancado.
A dívida líquida deve passar de R$ 3,6 bilhões em 2024, ou 2 vezes dívida líquida/Ebitda, para R$ 6,1 bilhões em 2026, equivalente a 2,4 vezes, após aproximadamente R$ 2,25 bilhões em aquisições de terras.
Além disso, o BofA enxerga risco de novas compras à medida que a Radar continua monetizando ativos.
Assim, embora o banco tenha melhorado sua visão sobre a SLC diante da recuperação do ciclo de grãos, a maior assimetria permanece, na avaliação das analistas, com a 3tentos.