Fundo de R$ 2,2 bilhões ligado ao Banco Master e a Vorcaro perde quase 80% de valor em um mês
O Marne Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, que recebeu praticamente todo o patrimônio de outro fundo, o Somme, no início deste ano, perdeu quase 80% de seu valor em um mês. A queda atingiu diretamente uma estrutura que, como mostrado anteriormente pelo Money Times, teria sido usada para ocultar patrimônio ligado a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Dados oficiais enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que o patrimônio líquido do fundo Marne caiu de R$ 2,23 bilhões, em 31 de maio, para R$ 446,7 milhões, no fim de junho. A cota passou de R$ 1.039,89 para R$ 208,32 — uma desvalorização de 79,97% em apenas um mês. A perda equivale a aproximadamente R$ 1,78 bilhão.
Fundo foi citado em apuração sobre patrimônio de Vorcaro
Em abril, o Money Times revelou que investigadores teriam identificado R$ 2,245 bilhões em uma conta associada a Vorcaro. De acordo com uma fonte, na época, os recursos teriam passado por uma estrutura ligada à CBSF, antiga Reag, antes de chegar, em última instância, ao Somme.
O Somme tinha patrimônio próximo de R$ 2,2 bilhões e apenas um cotista. O fundo surgiu dentro da infraestrutura do próprio Master e depois teve sua gestão e administração transferidas. Ele passou a ser operacional no meio do ano passado e logo passou a concentrar, então, cerca de R$ 2,1 bilhões em cédulas de crédito bancário emitidas pela PKL One, empresa dona do Credcesta, entre maio e setembro de 2025.
O Credcesta, de Augosto Ferreira Lima, ex-sócio do Master, era um dos principais braços de crédito do banco e é investigado por ter criado carteiras falsas e por descontos não aprovados.
A composição do fundo mudou no início de 2026. O Somme transferiu praticamente todo o patrimônio para cotas do Marne, outro fundo administrado pela QORE e também gerido pela North Sea. Na mesma época, decisão de André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 2.2 bilhões da família, afirmando que, mesmo após as primeiras fases da Compliance Zero, continuaram as tentativas de ocultar patrimônio.
O Marne, por sua vez, entre janeiro e fevereiro deste ano, deixa de declarar uma posição bilionária em papéis do Credcesta e passar afirmar que aplicava todos os seus recursos em cotas de um fundo imobiliário de uma grande gestora. O veículo investido, no entanto, tinha patrimônio próprio muito inferior ao valor atribuído às cotas mantidas pelo Marne, de apenas R$ 65 milhões.
A grande gestora obrigou a mudança da carteira declarada pelo Marne na CVM. Após o texto, o fundo passou a declarar uma posição bilionária em créditos da Credcon, uma consultoria financeira localizada em São Paulo e com capital social de apenas R$ 20 mil.
North Sea e QORE contestaram informações
A North Sea e a QORE contestaram as associações feitas pela reportagem e chegaram a enviar notificações extrajudiciais pedindo a retirada do texto e retração pública. As empresas afirmaram que não eram investigadas, que Vorcaro não era e nunca havia sido investidor dos fundos e que os veículos operavam normalmente.
A QORE também declarou que atuava apenas como administradora fiduciária, sem controlar as decisões de investimento ou a identidade final dos cotistas.
Poucas semanas depois da reportagem, porém, as duas renunciaram à gestão e à administração de ambos os fundos.
A North Sea renunciou à gestão do Marne em documento recebido pela administradora em 22 de abril. Em 19 de maio, a própria QORE renunciou à administração do fundo. As duas instituições também anunciaram, na mesma época, a saída do Somme.
Pelas regras dos fundos, as prestadoras continuam formalmente responsáveis até a substituição ou a liquidação dos veículos, dentro do prazo previsto nos regulamentos. É por isso que North Sea e QORE ainda podem aparecer nos registros cadastrais da CVM, apesar das renúncias.
Novamente buscadas, QORE e North Sea não haviam respondido até a publicação desta reportagem.
Queda não foi provocada por resgate
Os dados da CVM indicam que a perda de junho não foi causada pela saída de investidores. O Marne manteve praticamente a mesma quantidade de cotas em circulação entre maio e junho: cerca de 2,144 milhões. Os campos de captação, resgates, resgates solicitados e amortizações permaneceram zerados.
O regulamento do Marne permite a constituição de provisão quando surgem evidências de redução do valor recuperável de um direito creditório. Nessa situação, o ativo deve ser ajustado à estimativa atualizada de seu fluxo de caixa. Os informes públicos de junho, contudo, não identificam claramente o ativo responsável pela perda.
O fundo continuou declarando sua carteira de direitos creditórios como integralmente adimplente. Os campos referentes a atrasos, inadimplência, recuperação judicial e redução do valor recuperável aparecem zerados nos dados estruturados enviados à CVM.
Há, portanto, uma diferença relevante entre os dois conjuntos de informações: a cota perdeu quase 80%, mas os indicadores públicos de qualidade da carteira não mostram deterioração correspondente. Isso não prova, isoladamente, uma irregularidade. Mostra, porém, que os dados públicos disponíveis ainda não são suficientes para explicar a origem e o cálculo da baixa de R$ 1,78 bilhão.