Guerra, disparada do petróleo e queda do dólar: Onde investir na baixa do exterior
O ano de 2026 nem chegou na metade e já mostra que volatilidade é a palavra do momento. Após um 2025 marcado pelas tarifas de Donald Trump, o cenário geopolítico se deteriorou com o início da guerra entre os Estados Unidos e o Irã.
O resultado foi imediato: disparada do petróleo e queda de ativos globais, incluindo bolsas, dólar, criptomoedas e até o ouro, tradicional porto seguro em momentos de crise. Na contramão, o Ibovespa renovou recorde atrás de recorde e se aproximou dos 200 mil pontos pela primeira vez.
Diante desse cenário, surge a dúvida: ainda vale a pena investir no exterior?
A resposta dos especialistas é direta: sim. Mais do que uma proteção contra crises locais, a alocação internacional passou a ser uma necessidade estrutural para diversificação de portfólio.
Diversificação deixou de ser opcional
Segundo analistas ouvidos pelo Money Times, momentos de aversão a risco (risk-off) tendem a ser temporários e não alteram a trajetória de longo prazo dos mercados.
Para Cauê Valim, analista da Avenue, eventos geopolíticos costumam gerar volatilidade no curto prazo, mas têm impacto limitado no desempenho estrutural dos ativos. Além disso, a performance no médio e longo prazo dos investimentos independe dos conflitos geopolíticos, que são comuns na história da humanidade.
“Esses movimentos geralmente se dissipam em poucas semanas ou meses e não afetam a bolsa como um todo no médio e longo prazo”, afirma. “Isso acaba trazendo mais diversificação no exterior para outros países, setores e principalmente diversificação em diversas moedas”, completa.
Riscos seguem no radar
Apesar da visão construtiva, o ambiente global ainda inspira cautela. A combinação de tensões geopolíticas e juros elevados aumenta a volatilidade e pode provocar movimentos mais bruscos nos preços dos ativos.
Outro ponto de atenção é o câmbio. No curto prazo, a queda do dólar reduz ganhos cambiais, mas melhora o ponto de entrada para investimentos no exterior.
Ainda assim, a tendência de longo prazo segue favorecendo a moeda americana, diante do diferencial de inflação entre Brasil e EUA.
“Nesse curto prazo, estamos vendo uma desvalorização do dólar, mas que nossa visão não é estrutural. O que é estrutural mesmo é que a inflação Brasil é maior do que a dos EUA; então, no longo prazo, esse dólar tende a se fortalecer frente ao real”, afirma Valim.
Home bias: A ilusão de investir só no Brasil
A preferência por investir no próprio país — conhecida como home bias — ainda é forte no Brasil e com razão: o país vem atraindo investidores estrangeiros nos últimos dois anos, o que ajudou a bolsa de valores saltar 50% no período. Além disso, a Selic acima dos 14% faz com que a renda fixa seja a queridinha dos investidores.
Com isso, em média, investidores locais mantêm apenas cerca de 2% do patrimônio no exterior.
Ian Caó, CIO da Gama Investimentos (parte do Grupo HMC Capital) destaca que essa baixa concentração em ativos offshore aumenta a exposição a riscos domésticos, como cenário fiscal, político e cambial.
Além disso, o mercado brasileiro representa uma pequena fatia do universo global e é concentrado em setores como bancos e commodities, deixando o investidor de fora de áreas em expansão, como tecnologia e inteligência artificial.
“O crescimento da alocação internacional no portfólio médio dos brasileiros, seja institucional ou pessoa física, precisa aumentar. Não faz sentido, tendo acesso aos mercados globais, manter 100% do dinheiro no próprio país”, afirma.
Um exemplo usado pelos analistas é da Nvidia. A companhia de chips tem o maior market cap norte-americano e vale quase US$ 5 trilhões, mais do que cinco vezes a bolsa brasileira inteira.
“O mercado brasileiro, apesar de robusto, ainda é muito pequeno quando visto sob uma lente global, e o brasileiro investe um percentual bem baixo ali do seu patrimônio offshore”, completa Caó.
Onde investir no exterior?
“Safe haven”, mas com cautela
Mesmo com os Estados Unidos no centro das tensões globais, o país segue sendo visto como porto seguro para investidores. Historicamente, ativos americanos se recuperam após períodos de crise e voltam a se valorizar no médio prazo.
“No 11 de setembro ou até mesmo na crise de 2008, quando os Estados Unidos foi o epicentro da crise, as bolsas americanas, dólar e ativos de riscos norte-americanos sofreram curtíssimo prazo, porém acabaram se valorizando no médio prazo”, relembra o analista da Avenue.
Ainda assim, os especialistas alertam que investir no exterior vai além do mercado americano. Há oportunidades relevantes em outras regiões, como Europa e Ásia, além de países emergentes como Índia, Vietnã, Malásia e México.
Setores considerados defensivos, como saúde, utilidades públicas e defesa, tendem a apresentar maior resiliência em períodos de incerteza.
Renda fixa global ganha espaço
A alta do petróleo pressiona a inflação global e reforça o cenário de juros elevados, o que aumenta a atratividade da renda fixa internacional.
Segundo Valim, atualmente, é possível encontrar títulos com rendimentos entre 4,5% e 5%, e até superiores em segmentos de maior risco, como crédito high yield.
Além do retorno via juros, investidores também podem se beneficiar da marcação a mercado caso as taxas comecem a cair nos próximos meses.
Mercado de crédito
O analista da Gama Investimentos lembra que, com juros mais altos, o carrego em crédito também aumenta, o que torna o ambiente mais atrativo para quem está alocando capital.
Por outro lado, esse mesmo nível de juros mais elevados impõe um custo maior para as empresas, o que pode afetar o ritmo de emissão e a dinâmica do mercado.
Segundo ele, o cenário atual é mais complexo e envolve diversas variáveis. Em alguns segmentos, há um movimento semelhante ao que se viu em estratégias de direct lending, com fundos fechados no exterior ganhando espaço, em parte por alocações específicas.
É o caso de setores como software, que passam por mudanças estruturais e têm uma dinâmica mais idiossincrática, menos dependente do macro.
“Do ponto de vista de crédito, o ponto de partida é um ambiente de inadimplência muito baixa, próximo de mínimas históricas. Ainda que haja uma leve normalização, os balanços corporativos seguem, em geral, saudáveis, e isso vem sendo confirmado trimestre após trimestre. Ou seja, há um aumento natural da inadimplência a partir de uma base extremamente baixa, mas sem deterioração relevante até aqui”, afirma.
Dentro do mercado de crédito, há diferenças importantes entre subsegmentos. Títulos pós-fixados tendem a se beneficiar de uma curva de juros mais inclinada, já que acompanham o nível elevado das taxas. Já os pré-fixados deixam de capturar ganhos potenciais caso não haja fechamento da curva.
No caso dos bonds de investment grade, que têm duration mais longa, o impacto tende a ser mais negativo em termos de preço, o que explica uma performance relativamente pior em momentos de abertura ou manutenção de juros altos.
A força das empresas globais
No mercado de ações, os analistas lembram que o principal motor de retorno continua sendo o desempenho das empresas, e não eventos pontuais. As companhias globais com forte geração de caixa e atuação internacional tendem a atravessar períodos de volatilidade com mais resiliência.
“Uma Apple não vai deixar de vender seu iPhone por causa de um conflito geopolítico. Talvez só venda menos em algum lugar específico do mundo”, afirma Valim.
Entre os setores com maior previsão de estabilidade estão os de saúde, utilities e de defesa ligado à parte governamental. As empresas de tecnologia também seguem no radar, impulsionados pelos investimentos em inteligência artificial, ainda que existam dúvidas sobre o retorno desses aportes no longo prazo.
No caso do setor de tecnologia, Caó orienta olhar menos para a precificação da companhia e mais para os fundamentos.
“Esse é um setor extremamente relevante, mas muito difícil de precificar. Por isso, o mercado acaba indo para o micro: analisando empresa por empresa, contratos de longo prazo, posição competitiva, e tentando separar o que é core do que pode ser substituído. Em alguns casos, isso permite algum nível de precificação mais racional de ativos individuais.”
Dólar fraco não anula tese internacional
A recente queda do dólar não invalida a estratégia de investir no exterior, segundo os analistas. O retorno desses investimentos não depende apenas do câmbio, mas também da valorização dos ativos e da geração de renda, como dividendos e juros.
Além disso, perdas cambiais podem ser compensadas fiscalmente no Brasil, o que ajuda a suavizar impactos no curto prazo.
“Essas perdas pelo câmbio podem ser usadas para abater futuros ganhos no cálculo do Imposto de Renda por aqui. Isso pode deixar o investidor no 0x0, suavizar um pouco a volta, até melhorar o retorno líquido no longo prazo”, afirma Valim.
Os especialistas também alertam contra a tentativa de prever o melhor momento para investir com base no câmbio. Essa estratégia pode levar à perda de oportunidades ao longo do tempo.
Mercados emergentes
Em momentos de crise global, os mercados emergentes costumam atrair um fluxo maior de capital estrangeiro, por serem vistos como economias com potencial de valorização e relativa estabilidade.
Esse movimento dá continuidade à tendência observada no ano passado, quando esses países receberam forte entrada de recursos vindos dos Estados Unidos.
Nesse contexto, o analista da Gama Investimentos não descarta boas oportunidades entre os emergentes. Ainda assim, ele alerta para o risco de um excesso de “home bias” nas decisões de alocação.
“Quando um gestor observa o cenário macro e percebe que o dólar está em queda global, ele pode aumentar a exposição a emergentes de 10% para 30%. É claro que o Brasil vai captar parte desses recursos, mas talvez a participação passe de 10% para 20% dentro de um portfólio global. Isso, no fim, é relativamente irrelevante”, afirma.
Além disso, assim como ocorre com empresas, é necessário analisar cada país individualmente. Os mercados emergentes, em geral, apresentam maior imprevisibilidade econômica e política, o que faz com que parte deles entregue bom desempenho enquanto outros ficam para trás.
Estratégia: Como investir lá fora
Para quem busca diversificação com menor complexidade, os ETFs (fundos de índice) vêm ganhando espaço, por oferecerem ampla exposição a mercados e setores globais com custos mais baixos.
Já investidores mais sofisticados podem complementar a carteira com estratégias ativas, como hedge funds, private equity e crédito estruturado, que tendem a explorar ineficiências específicas e oportunidades mais seletivas.
O consenso entre especialistas é que investidores brasileiros deveriam manter entre 15% e 20% do patrimônio no exterior — um patamar suficiente para reduzir riscos e capturar oportunidades globais.