Guerra fria entre milho e cana? Para a Unem, que já olha o etanol de cereais, há complementariedade
Por anos, a expansão do etanol de milho alimentou uma pergunta recorrente no setor sucroenergético: o novo combustível veio para disputar espaço com a cana-de-açúcar ou para complementar a matriz brasileira de biocombustíveis?
Para Amaury Pekelman, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), a resposta é cada vez mais clara. Em vez de competição, o que se consolida é um modelo de complementariedade entre as duas cadeias.
“A gente está trabalhando uma complementação e tem muita complementariedade”, afirmou durante entrevista ao Money Minds.
Segundo ele, um dos maiores benefícios da chegada do milho ao setor foi justamente eliminar um problema histórico do mercado brasileiro de combustíveis: a volatilidade da oferta durante a entressafra da cana.
Antes, quando as usinas encerravam a moagem e iniciavam seus períodos de manutenção, havia temor de redução na oferta de etanol. O cenário ficava ainda mais sensível em momentos de chuvas intensas no Centro-Sul.
Com a expansão das plantas de milho e das operações flex, esse quadro mudou.
“Hoje você tem a cana produzindo na safra e o milho rodando na entressafra. Nós temos uma garantia de estabilidade de fornecimento de etanol durante o ano todo”, disse Pekelman.
A aposta da indústria está justamente na integração entre as duas matérias-primas. Nas chamadas usinas flex, a cana produz durante a safra, enquanto o milho ocupa a capacidade industrial nos meses seguintes.
Além de manter a produção ativa durante todo o ano, o modelo proporciona ganhos energéticos ao aproveitar o bagaço e a biomassa gerados pela própria cana.
“É o projeto em que eu mais acredito. Você consegue produzir o ano inteiro e tem energia para rodar a operação o ano inteiro”, afirmou o executivo.
O futuro pode ir além do milho
Apesar do foco no fomento à indústria do etanol de milho, a Unem já acompanha de perto novas matérias-primas que podem ampliar o conceito de etanol de cereais no Brasil.
O sorgo aparece no radar de empresas associadas, enquanto projetos envolvendo trigo começam a sair do papel, principalmente no Sul do país.
“A gente está estudando muito sorgo. Já tem plantas avaliando isso. E temos o projeto da Be8 com trigo no Rio Grande do Sul”, afirmou Pekelman
Na avaliação do executivo, o futuro pode ser menos sobre uma disputa entre milho e cana e mais sobre a ampliação da participação dos cereais dentro da indústria de biocombustíveis.
“O interessante vai ser cereais. Acho que o lance dos cereais vai crescer”, disse.
Outra planta que já tem dominado as paisagens do Rio Grande do Sul e surge como uma alternativa entre os biocombustíveis é a canola, que já caiu no gosto do produtor gaúcho e atua como um catalisador na engrenagem da 3tentos (TTEN3).