Guerra no Oriente Médio ameaça transformar 2026 no pior ano do agro em uma década
Após três anos consecutivos de compressão de margens, o ano de 2026 prenunciava uma recuperação no setor agrícola – tudo mudou, porém, com a eclosão da guerra no Irã.
Com a explosão dos preços de petróleo e derivados, custos operacionais e financeiros foram revisados para cima, apertando as margens do setor. O ano de 2026 pode ser marcado por uma das piores margens dos últimos 10 anos.
O atual conflito no Oriente Médio é rico em consequências devido à geografia: um dos principais palcos de guerra é o Estreito de Ormuz, por onde circulam aproximadamente 20% de todo o fluxo global de petróleo e derivados – atualmente bloqueado pelas forças iranianas.
Nas estimativas do FMI, a média de embarcações que passaram pelo estreito do início do ano até o imediato pré-guerra foi de 84; após o bloqueio, essa média caiu para três.
Como efeito direto, os preços de referência para o petróleo (Dated Brent, prompt) e gás (TTF europeu e JKM asiático, first-line) chegaram a duplicar. Após o anúncio do atual cessar-fogo, ambos os itens recuaram, mas seguem em patamares bastante elevados.
E mais preocupante que a paralisação inicial nos fluxos de petróleo e gás oriundos do Golfo Pérsico foi o recrudescimento do conflito em meados de março, que levou à destruição física de infraestrutura energética – os ataques em Ras Laffan, no Catar, retiraram do mercado cerca de 20% do fornecimento global de GNL.
Refinarias de petróleo na região também foram alvo de ataques, o que tem levado a uma alta nos preços dos derivados ainda mais pronunciada do que aquela verificada no petróleo bruto e gás – e produzido efeitos pervasivos ao longo das cadeias globais, afetando hubs de negociação na Ásia, Europa e EUA.
Em meio a uma tal disrupção, o setor agrícola é impactado em múltiplas frentes. Dois dos produtos refinados mais atingidos pelo conflito – diesel e nitrogenados – compõem boa parte dos custos ao produtor.
Fertilizantes, defensivos e operações mecanizadas (que consomem diesel e lubrificantes) respondem, em média, por 72% do custeio do milho no Mato Grosso – 83% no caso da soja e 84% no algodão.
Quando considerado o custo total (custeio + despesas com manutenção, taxas e impostos, financiamentos e seguros, pós-produção, arrendamento, depreciações, pró-labore e custo de oportunidade), os custos com fertilizantes, defensivos e operações mecanizadas respondem por 38% do total no caso do milho – 45% no caso da soja e 48% no algodão.
No caso do diesel, o fechamento do Estreito de Ormuz provocou altas da ordem de 70% em praças como Singapura – um dos principais hubs de negociação de bunkering/diesel para tráfego marítimo –, ARA/Europa e Golfo do México nos EUA – de onde se origina boa parte do diesel importado pela América Latina.
No caso dos fertilizantes, cerca de 45% do trade global de ureia, 45% do enxofre, 25% da amônia e 20% dos fosfatados circulam pelo estreito. No caso da ureia, que é um dos principais nitrogenados utilizados por agricultores ao redor do mundo, cerca de 70-80% do custo de produção advém do gás natural.
Hoje, o maior produtor de ureia do mundo é a China, que importa, em média, 31% do seu gás natural no Oriente Médio – 28% somente no Catar. A ureia granular saindo de portos do Oriente Médio já registra altas superiores a 70% desde o início do conflito.
Nos fosfatados, o mercado já apresentava algum aperto de oferta pré-conflito, em especial devido a manutenções industriais no Marrocos e incertezas sobre as exportações chinesas, mas acabam sendo igualmente afetados pelo fechamento do Ormuz devido à presença de amônia na formulação de alguns produtos (MAP, DAP) e enxofre em outros (SSP).
Desnecessário dizer que o choque de preços no diesel fornece um canal adicional de alta para os fertilizantes, que, em sua grande parte, são transportados através de via marítima.
Há, ainda, o fenômeno de “fuga para o curto-prazo” típico de momentos de disrupção do comércio global, que atravessa praticamente todas as principais commodities agrícolas e energéticas e que consiste em um incremento anormal da demanda por produtos disponíveis “no prompt”, isto é, “em agora” – e onde quer que estejam.
Por exemplo, no caso dos nitrogenados, a Índia – grande produtora de arroz e trigo – acelerou os leilões de compra de ureia, pagando valores entre 85-90% acima dos preços negociados no imediato pré-guerra, reduzindo, assim, a oferta deste fertilizante.
Como os leilões na Índia são subvencionados pelo governo, a elasticidade-preço da demanda indiana é menor comparativamente àquela de outros países. Essa dinâmica afeta diretamente o Brasil, que costuma receber o grosso dos fertilizantes importados – cerca de 70% – entre setembro e abril do ano seguinte, o que sugere, inclusive, algum impacto inicial da alta dos preços já agora nos meses de março e abril.
Caso os importadores acelerem as aquisições nos meses a seguir, podemos ver mais um foco de pressão de alta sobre os preços.
Enquanto isso, os preços das principais commodities agrícolas seguiram de lado ou com valorização aquém da alta dos custos. Considerando os primeiros vencimentos futuros negociados nos EUA, a soja caiu 1% desde o início do conflito – o milho subiu 2%, o trigo subiu 3% e o algodão subiu 17%. O açúcar chegou a subir mais de 10 p.p, mas devolveu toda a alta ao longo do mês de abril.
Com o aumento dos custos superando o aumento – quando há – no preço das commodities, a resultante é a redução das margens ao produtor. Há, todavia, uma segunda ordem de efeitos do conflito que deve exercer ainda mais pressão sobre as margens: a inflação de energia e alimentos, que, em conjunto, devem segurar o ritmo dos cortes de juros nas principais economias do globo.
As disrupções no Estreito de Ormuz estão repercutindo sobre amplos setores e já têm determinado uma reprecificação da curva de juros em diversos centros econômicos, como EUA, UE – e, claro, Brasil.
No caso dos EUA, que oferece um norte para o resto do mundo, a taxa implícita na negociação dos futuros de Fed Funds para o final de 2026 pré-conflito era de 3% – portanto, 2 cortes em relação à taxa referencial atual (que oscila entre 3,5% e 3,75%); pós-conflito, o mercado negocia implicitamente uma taxa de 3,58%, ou seja, sem cortes para o ano. Enquanto isso, na UE chegou-se a ventilar a possibilidade de retomada de um ciclo de altas.
No Brasil, o processo de desinflação observado ao longo do último ano começou a apresentar sinais de estabilização, influenciado pela queda nos preços de alimentos e bens industriais, com efeitos indiretos positivos sobre serviços.
No entanto, o cenário de curto prazo se mostrou mais desafiador que o esperado, diante de surpresas altistas concentradas principalmente em itens voláteis, sobretudo, em função da forte elevação dos preços dos combustíveis, frustrando, assim, as expectativas de um ciclo mais agressivo de corte de juros por aqui.
Esse é um cenário particularmente crítico para os produtores rurais, especialmente aqueles que operam com algum grau de alavancagem.
De acordo com o último levantamento do Monitor RGF, da consultoria RGF&Associados, 539 empresas do setor agropecuário estavam em recuperação judicial no 1T26, um aumento de 58% em comparação a igual intervalo do ano passado. A combinação de custos operacionais e financeiros mais elevados podem continuar exercendo pressão sobre o crédito no setor.
Em síntese, o choque geopolítico no Oriente Médio introduz um vetor relevante de deterioração para o setor agrícola global, ao operar simultaneamente via custos operacionais (energia e fertilizantes) e condições financeiras mais restritivas.
A assimetria entre a rápida recomposição dos custos e a resposta mais lenta – ou inexistente – dos preços agrícolas implica compressão adicional de margens ao longo de 2026, após um período já prolongado de fragilidade.
No plano macro, a reprecificação da trajetória de juros nas principais economias adiciona uma camada adicional de pressão, especialmente para produtores mais alavancados, ao elevar o custo de carregamento e restringir a disponibilidade de crédito.
No Brasil, onde a dependência de insumos importados é elevada e o ciclo de desinflação dá sinais de esgotamento no curto prazo, os efeitos tendem a ser amplificados.
Nesse contexto, esperamos uma piora adicional nos indicadores de rentabilidade do produtor ao longo dos próximos trimestres, com potenciais desdobramentos sobre inadimplência e reestruturações no setor.
A materialização desse cenário dependerá, em grande medida, da persistência das disrupções no mercado energético e da capacidade – ainda incerta – de repasse de custos ao longo da cadeia.
Em nossa visão, o balanço de riscos para o setor agrícola em 2026 permanece assimétrico para baixo.
Olhando mais adiante, enxergamos a possibilidade de a compressão atual de margens culminar em um ajuste global da produção agrícola – via menores investimentos em kit tecnológico, como fertilizantes e sementes, retração na aquisição e renovação de maquinário e, eventualmente, desistências de plantio –, levando a uma contração do excedente global de grãos e consequente aumento dos preços das commodities.