Houthis atacam Arábia Saudita e negociações entre países do Golfo e Irã são adiadas
Os houthis do Iêmen, alinhados com o Irã, lançaram um novo ataque contra a Arábia Saudita nesta segunda-feira, e os países árabes do Golfo Pérsico adiaram as negociações previstas com o Irã, reforçando os temores de que o conflito no Oriente Médio possa se alastrar ainda mais e ameaçar o abastecimento global de petróleo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã deseja chegar a um acordo com Washington, sinalizando uma possível abertura diplomática, apesar das tensões regionais cada vez maiores.
“A enfraquecida nação do Irã quer fechar um acordo, e quer fazê-lo rapidamente, a qualquer custo. Caberá a mim decidir se os Estados Unidos vão se engajar nisso ou não, uma possibilidade à qual estamos abertos”, escreveu Trump na rede Truth Social.
Trump fez os comentários após o cancelamento da reunião planejada entre os países do Golfo e o Irã e enquanto os houthis expandiam suas operações militares para além do Iêmen, aumentando as preocupações com a segurança da infraestrutura energética e das rotas marítimas em toda a região.
Os houthis afirmaram ter disparado dezenas de mísseis e drones contra uma base aérea militar em Khamis Mushait, no sul da Arábia Saudita, tendo como alvo hangares de aeronaves, sistemas de radar, pistas de pouso e depósitos de munição, em retaliação aos ataques aéreos sauditas no Iêmen.
As autoridades sauditas emitiram alertas de emergência naquela região e em outras três cidades do sul que já haviam sido alvo de ataques dos houthis anteriormente.
Os houthis avançaram rapidamente no Iêmen nos últimos dias, conquistando território, incluindo a Ilha de Perim, na foz do Mar Vermelho, na sexta-feira. Um ataque separado no mesmo dia, que Riad atribuiu a combatentes apoiados pelo Irã no Iraque, danificou o oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita, uma rota fundamental que permite que as exportações de petróleo do Golfo contornem o Estreito de Ormuz, que está bloqueado.
Preços do petróleo disparam
Os preços do petróleo bruto subiram mais de 4% nesta segunda-feira, quando o mercado reabriu após os acontecimentos do fim de semana, antes de perder terreno durante o pregão da manhã nos EUA, após as declarações de Trump. Os contratos futuros de referência do Brent eram negociados com alta de cerca de 1,6%, a aproximadamente US$106 por barril, às 14h30 (horário de Brasília).
O preço médio de varejo do diesel nos Estados Unidos, tema politicamente delicado, atingiu um novo recorde histórico acima de US$6,23 por galão (3,8 litros).
Operadores afirmaram que uma interrupção prolongada do oleoduto saudita poderia reduzir em até 4% o fornecimento global de petróleo. Imagens de satélite mostraram danos causados pelo incêndio ao longo de trechos do trajeto, embora Riad não tenha informado quando as operações poderão ser retomadas.
Omã deveria sediar, nesta segunda-feira, uma reunião com o Irã e os países do Golfo para discutir negociações com o objetivo de reabrir o Estreito de Ormuz, a rota de transporte de petróleo mais importante do mundo, praticamente fechada desde que os EUA e Israel atacaram o Irã no final de fevereiro.
Mas o ministro das Relações Exteriores de Omã, Sayyid Badr Albusaidi, anunciou durante a madrugada que a reunião havia sido adiada. O Irã afirmou que o adiamento ocorreu a pedido da Arábia Saudita.
Enquanto isso, o Irã publicou uma lista de 77 navios que, segundo o país, teriam violado seus protocolos operacionais no Estreito de Ormuz e alertou que eles poderiam enfrentar multas, apreensão ou confisco em futuras travessias.
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou nesta segunda-feira que o número médio de navios que cruzam o estreito secretamente com apoio dos EUA está aumentando. No entanto, observadores independentes sugeriram que o fluxo de petróleo pode ter diminuído neste mês, já que os combates se intensificaram novamente após um agosto tranquilo.
Expansão da guerra para Iêmen é dilema para Trump
O recomeço do conflito no Iêmen representa mais um desafio para Trump, que enfrenta pressão dos aliados do Golfo para ajudar a conter os houthis, mas tem procurado evitar a abertura de uma nova frente importante na guerra regional.
A Arábia Saudita lidera uma coalizão que combate os houthis desde 2015, mas o conflito havia se acalmado em grande parte sob um cessar-fogo nos últimos anos. Os combates recomeçaram este mês, com os houthis repelindo forças alinhadas ao governo reconhecido internacionalmente.
A Organização Internacional para as Migrações estima que 82 mil iemenitas tenham fugido dos combates desde o início do mês, à medida que os houthis avançavam sobre cidades, incluindo o histórico porto de Mocha, no Mar Vermelho, na semana passada.
Aisha Muhammad, uma senhora idosa que queimava galhos para aquecer uma chaleira em território controlado pelo governo perto de Taiz, disse à Reuters que havia deixado para trás duas filhas e três filhos que não conseguiram escapar.
“Eles nem conseguem sair para o mercado para comprar comida e água potável. Estão sendo impedidos e alvejados, então ficam presos dentro de casa”, disse ela. “Eles não conseguem chegar até nós, e nós não podemos voltar para eles. Isso é uma provação de Deus.”
A mídia estatal saudita informou que o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, se reuniu com o comandante regional dos EUA, o almirante Brad Cooper, em Jeddah nesta segunda-feira.
Três fontes informaram à Reuters que Washington tem resistido, até o momento, aos pedidos sauditas de intervenção militar direta, além do apoio de inteligência. Trump disse no fim de semana que havia conversado com o príncipe herdeiro e que os houthis também haviam entrado em contato com Washington, instando-o a ficar fora do conflito.
Os Estados Unidos bombardearam alvos houthis por dois meses em 2025, antes de Trump interromper a campanha após chegar a um cessar-fogo com o grupo.
Trump, que participou de um torneio de golfe em um de seus resorts na Irlanda, disse no fim de semana que esperava que a guerra com o Irã terminasse logo após as eleições de meio de mandato de novembro nos EUA, após as quais os preços do petróleo “cairiam vertiginosamente”.