Itaú BBA traça panorama para o agronegócio e recomenda compra de apenas 3 ações — uma pode saltar 80%
A recente alta das commodities agrícolas voltou a colocar o agronegócio no radar dos investidores, mas o Itaú BBA ainda vê motivos para ser seletivo na hora de escolher ações do setor.
Após a 18ª Conferência de Commodities do banco, realizada nos dias 16 e 17 de setembro, os analistas traçaram um panorama para grãos, açúcar e etanol e proteínas e destacaram cinco empresas: SLC Agrícola (SLCE3), 3tentos (TTEN3), São Martinho (SMTO3), JBS (JBSS32) e MBRF (MBRF3).
Dessas, apenas três carregam recomendação outperform, equivalente a compra: SLC Agrícola, 3tentos e JBS. São Martinho e MBRF aparecem com market perform, equivalente a uma visão neutra.
Entre as brasileiras, a 3tentos é a que chama mais atenção pelo potencial indicado pelo preço-alvo. O Itaú BBA mantém preço-alvo de R$ 19 para o fim de 2027. Considerando os R$ 10,55 do fechamento de segunda-feira (21), o valor representa potencial de valorização de cerca de 80%.
De maneira geral, o banco avalia que a recente valorização das commodities agrícolas reacendeu as discussões sobre o setor, em meio a fundamentos de oferta e demanda mais construtivos e balanços globais mais apertados.
Além disso, riscos climáticos podem ampliar os movimentos dos preços. Um eventual El Niño, segundo o BBA, poderia dar impulso adicional às commodities, embora o fenômeno também traga riscos para a produtividade das empresas agrícolas.
Ao mesmo tempo, nem tudo joga a favor do setor. Os spreads do esmagamento de soja continuam pressionados, enquanto a desalavancagem permanece como uma das principais preocupações das companhias após ciclos recentes de investimentos e em meio ao custo de capital ainda elevado.
SLC Agrícola: commodities ajudam, mas clima segue no radar
Para a SLC Agrícola, o Itaú BBA mantém recomendação de compra e preço-alvo de R$ 19 para o fim de 2026.
O banco destaca que soja, milho e algodão ganharam força nas últimas semanas diante de um cenário global mais apertado de oferta e demanda. Revisões recentes dos balanços do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicaram estoques menores para culturas importantes, enquanto os riscos climáticos também deram sustentação às cotações.
A valorização do petróleo adiciona outro componente positivo ao cenário ao reforçar as perspectivas para a demanda ligada aos biocombustíveis.
O clima, porém, continua sendo uma variável importante. Segundo o relatório, episódios anteriores de El Niño afetaram regiões de atuação da SLC, mas as condições atuais são diferentes das observadas em ciclos anteriores.
As chuvas no começo da temporada foram mais favoráveis, enquanto os investimentos realizados pela companhia em irrigação podem ajudar a reduzir os riscos para a produtividade.
No campo financeiro, a palavra de ordem continua sendo desalavancagem. A administração reforçou ao BBA que a geração de caixa sazonalmente mais forte no segundo semestre deve contribuir para reduzir o endividamento.
A companhia também não descartou iniciativas como operações de sale-leaseback, nas quais vende ativos e os mantém sob sua operação por meio de contratos de arrendamento, caso enxergue criação de valor.
3tentos: potencial de 80%, mas esmagamento preocupa Itaú BBA
Na 3tentos, recomendada como outperform (compra) e com preço-alvo de R$ 19 para o fim de 2027, o principal assunto das conversas com investidores foi o cenário das margens de esmagamento de soja.
Apesar da expectativa de normalização dos efeitos não recorrentes que pesaram sobre o último trimestre, o BBA afirma que os indicadores ainda apontam para margens desafiadoras no curto prazo.
Os custos dos grãos continuam subindo, enquanto os preços do farelo de soja não avançaram na mesma intensidade. Os preços do biodiesel também seguem pressionados após o adiamento da mistura B16.
Por outro lado, a planta de etanol de milho da companhia atingiu plena capacidade em meados de agosto. Com isso, os números do quarto trimestre já devem incorporar integralmente a operação da unidade, além do início do esmagamento de canola em Ijuí (RS).
Se a pressão sobre as margens persistir, o banco aponta que a indústria poderá antecipar paradas de manutenção e passar por uma racionalização operacional, sobretudo entre empresas não verticalizadas e menos eficientes.
Outro ponto positivo está na expansão geográfica da 3tentos. A companhia relatou recepção inicial considerada encorajadora nas lojas abertas nos quatro novos Estados anunciados — Pará, Tocantins, Minas Gerais e Goiás.
Ainda assim, os agricultores continuam cautelosos na compra de insumos, e as taxas de aplicação de fertilizantes permanecem abaixo das médias históricas.
Assim como na SLC, a desalavancagem é prioridade. A expectativa é que os estoques recuem cerca de 40% no segundo semestre em relação aos níveis do primeiro, liberando capital de giro e impulsionando a geração de caixa.
JBS: pior do ciclo do boi nos EUA pode ter passado
A JBS é a terceira companhia com recomendação outperform no relatório, com preço-alvo de US$ 18 por ação para o fim de 2026.
Segundo o Itaú BBA, dados recentes da indústria de carne bovina dos Estados Unidos apontam para uma melhora sequencial no terceiro trimestre, especialmente a partir da segunda metade de agosto.
Embora as margens ainda devam refletir um ciclo difícil, a percepção da companhia é de que o pior pode ter ficado para trás. O fechamento de capacidade na indústria deve contribuir para uma recuperação gradual das margens, enquanto a entrada de gado mexicano com peso maior pode ajudar antes do inicialmente esperado.
Uma normalização mais completa da oferta de gado, entretanto, é esperada apenas a partir do segundo semestre de 2027 e continuará dependendo da recomposição do rebanho norte-americano.
No Brasil, o cenário é diferente. Os volumes de carne bovina devem permanecer pressionados após o encerramento da atual cota chinesa, antes de uma recuperação em direção ao quarto trimestre.
Na Seara, os preços de produtos in natura e processados enfraqueceram nas últimas semanas, mas as exportações continuam dando suporte ao negócio.
Câmbio e custos dos grãos aparecem entre as principais variáveis a serem monitoradas. A JBS, segundo o relatório, dispõe de mecanismos capazes de postergar parte da potencial inflação da alimentação animal para o início de 2027.
São Martinho: açúcar ajuda, mas Itaú BBA segue neutro
Para a São Martinho, o BBA mantém recomendação neutra e preço-alvo de R$ 21 para o fim de 2027.
O pano de fundo para o açúcar melhorou significativamente. As cotações avançaram diante dos impactos relacionados ao El Niño nas safras da Europa e da Índia, além de uma moagem abaixo do esperado no Centro-Sul brasileiro.
Agora, o excesso de chuvas adiciona uma nova restrição à oferta. Além de reduzir os dias disponíveis para colheita, a precipitação elevada pode afetar o ATR da cana e pressionar os custos das usinas caso elas operem abaixo da capacidade ideal.
A São Martinho vem aproveitando os preços mais altos para acelerar o hedge da produção.
Para a próxima safra, porém, existe um efeito potencialmente positivo: o melhor desenvolvimento das soqueiras pode elevar a produtividade e reduzir parcialmente a necessidade de investimentos na renovação dos canaviais.
No etanol, o banco destaca que o recente anúncio de subsídios foi bem recebido pelo setor e que eventuais ajustes no preço da gasolina poderiam aumentar a competitividade do biocombustível.
Já o etanol de milho continua mais competitivo que o de cana no atual ambiente de preços dos grãos. O BBA pondera, contudo, que a retirada de incentivos ao combustível de milho no médio e longo prazo, somada às restrições de biomassa, pode reequilibrar os retornos e desacelerar a onda de novos projetos.
MBRF: melhora do boi nos EUA versus cautela no Brasil
Por fim, o Itaú BBA também mantém recomendação neutra para a MBRF, com preço-alvo de R$ 23 para o fim de 2027.
Assim como no caso da JBS, os dados da indústria norte-americana reforçam a percepção de que o pior momento do ciclo da carne bovina pode ter ficado para trás.
A expectativa é de melhora sequencial no terceiro trimestre, apesar do início mais fraco, com o quarto trimestre também podendo se beneficiar de condições mais favoráveis.
No Brasil, os volumes de carne bovina permanecem fracos. A recuperação é esperada no quarto trimestre, quando a indústria começará a se preparar para a próxima cota chinesa e para a cota dos Estados Unidos de 2027.
Já a BRF, incorporada à MBRF, apresenta uma configuração considerada relativamente favorável para 2027, embora os preços domésticos e os custos da ração continuem sendo pontos de atenção.
A exposição aos grãos está amplamente protegida por instrumentos físicos e financeiros até o início de 2027, limitando, por enquanto, o impacto de uma eventual inflação dos custos de alimentação.
Nas exportações, os preços continuam majoritariamente fortes, apesar de quedas pontuais em mercados como Oriente Médio e Japão. A Sadia Halal, por sua vez, continua no caminho para um possível IPO, condicionado às discussões regulatórias.