BB, Santander, Itaú e Bradesco: Com guerra e juros altos, bancos elevam provisões contra calote
Os principais bancos do país reforçaram as provisões para eventuais perdas no começo do ano, diante do ciclo restritivo ao crédito. O setor enfrenta os efeitos defasados da escalada da Selic ao pico de 15%, que eleva o endividamento de empresas e famílias a níveis recordes.
O cenário é agravado pela eclosão da guerra no Oriente Médio e o salto nos preços do petróleo, em um ambiente que retarda o ritmo de cortes dos juros básicos pelo Banco Central.
Como resultado, Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco registraram R$ 44,8 bilhões em despesas com provisões contra devedores duvidosos (PDD) no primeiro trimestre (1T26).
O número representa um crescimento de 33% em relação a igual período do ano passado, em um cálculo que desconta valores recuperados de créditos já baixados, para fornecer uma visão mais precisa do provisionamento. Essa fórmula é conhecida como custo de crédito.
Parte do movimento reflete os efeitos da regulamentação CMN 4.966, que antecipa o reconhecimento de perdas esperadas e torna mais rigorosa a classificação de risco, o que pressiona provisões e indicadores de inadimplência. Mas o ambiente macroeconômico também explica os ajustes.
“Estamos em um momento de inflexão do ciclo, com o efeito atrasado da política monetária”, afirma o analista Nícolas Merola, da casa de análise de investimentos EQI Research. “Isso ainda deve causar algum dano ao longo de um período”, prevê.
O panorama é particularmente desafiador para o Banco do Brasil (BBAS3), que constituiu R$ 18,9 bilhões em custo de crédito entre janeiro e março, alta anual de 86%.
Desde meados do ano passado, o banco público lida com um estresse em sua principal carteira, a do agronegócio, em meio à volatilidade nos preços de commodities e eventos climáticos extremos: em março, a inadimplência rural do BB subiu a 6,22%, de 2,76% um ano antes, pelo critério de atrasos acima de 90 dias.
De todo o provisionamento para perdas esperadas, o agro respondeu por R$ 7,4 bilhões. O banco público esperava conseguir entre R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões em recuperação dos créditos no 1T26, mas só obteve R$ 1,2 bilhão.
Para piorar o cenário, há um agravamento do risco também na carteira de pessoa física, diante do maior endividamento das famílias.
“As esteiras ainda estão sendo normalizadas. Já nos antecipamos e reforçamos a provisão, principalmente para a carteira de cartão de crédito”, ressaltou o vice-presidente de Gestão Financeira (CFO) do BB, Geovanne Tobias.
Piora nos bancos privados
Para além do BB, os bancos privados também tiveram deterioração nas métricas de qualidade, embora a dimensão da piora tenha variado.
O movimento foi mais forte no Santander (SANB11), cuja taxa de inadimplência avançou 0,6 ponto porcentual em 12 meses, para 3,3% no primeiro trimestre, pelo critério de atrasos superiores a 90 dias.
No Bradesco (BBDC4), o aumento foi mais tímido, de 0,1 ponto porcentual, enquanto o indicador no Itaú (ITUB4) ficou estável em 1,9%.
Mesmo no estável Itaú, porém, houve elevação na inadimplência entre micro, pequenas e médias empresas.
O fim do período de carência de programas do governo, como o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), impulsionou o indicador de forma mecânica. Nesse sentido, o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, prevê que a métrica pode avançar de 0,1 a 0,2 ponto porcentual à frente.
“Apesar desse aumento observado e absolutamente esperado, os índices seguem em patamares muito abaixo do que observávamos em anos anteriores, e com a perda esperada e rentabilidade em linha com as expectativa”, destacou o executivo.
Na carteira de grandes empresas, casos pontuais afetaram o desempenho dos bancos. Nenhum deles revelou nomes, em respeito ao sigilo bancário, mas o contexto é de dificuldades conhecidas em companhias como Grupo Pão de Açúcar e Raízen, que protocolaram recuperação extrajudicial nos últimos meses.
Os ruídos nas duas carteiras – grandes empresas e PMEs – contribuem para o crescimento das provisões. No Bradesco, o cenário produziu um aumento no custo de crédito, que mede a despesa líquida com provisões para perdas com crédito, expressa como percentual da carteira média de empréstimos. O indicador avançou a 3,5% e deve rodar perto de 3,3% ao longo do ano, segundo os executivos do banco.
Para analistas do Citi, o índice é a principal linha a ser monitorada no Bradesco, porque qualquer retrocesso pode ameaçar a prometida evolução gradual do retorno sobre o patrimônio (ROE).
“Nossa percepção é que o custo do risco deve continuar pressionado nos próximos trimestres, já que o crédito para o segmento de varejo de massa deve seguir demandando um volume maior de provisões”, avalia o banco americano.
No Santander, o CEO, Mario Leão, garantiu não haver uma “preocupação estrutural”, mas disse estar atentos a três carteiras: as pequenas empresas, agronegócio e alguns portfólios de cartões. No agro, o executivo prevê que 2026 será melhor que 2025, mas ainda não exatamente bom. Leão está em processo de transição para transferir o cargo para Gilson Finkelsztain, atual CEO da B3.
Novo Desenrola
Em março, a inadimplência total do crédito no Brasil atingiu 4,3%, de 3,3% um ano antes, acordo com dados mais recentes do Banco Central. Para tentar reverter essa pressão, o governo editou uma nova versão do programa de renegociações de dívidas Desenrola.
A iniciativa é voltada para trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil, com atrasos entre 90 dias e dois anos. Os descontos podem chegar a 90%, com base em garantias do Fundo Garantidor de Operações (FGO).
O programa foi bem recebido pelos bancos, mas deve ter impacto limitado entre os grandes, conformou mostrou reportagem do Broadcast na semana passada.
O JPMorgan avalia que as medidas não resolvem a alavancagem de maneira estrutura, mas podem ajudar as instituições financeiras a recuperarem uma parte dos créditos perdidos. “Acreditamos que o Nubank será o maior vencedor”, diz o banco americano.