Economia

J.P. Morgan: Tarifas dos EUA devem ter impacto limitado no PIB brasileiro, mas risco está na escalada

09 jun 2026, 10:32 - atualizado em 09 jun 2026, 10:32
tarifa estados unidos
CASSIANA FERNANDEZ, Economista-chefe do J.P. Morgan. (Foto: Evandro Macedo/LIDE)

As novas tarifas que os Estados Unidos estudam impor sobre produtos brasileiros devem ter efeito limitado sobre o crescimento econômico do Brasil, mas uma eventual escalada das tensões comerciais entre os dois países pode trazer consequências mais relevantes para a inflação, os investimentos e o ambiente de negócios.

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A avaliação é de Cassiana Fernandez, economista-chefe para a América Latina do J.P. Morgan, durante painel de evento do LIDE sobre as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos realizado nesta terça-feira (9).

O tema ganhou força recentemente após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluir a investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana e propor uma tarifa adicional de 25% sobre parte das importações brasileiras.

A medida ainda passará por consulta pública e negociação diplomática antes de uma decisão final prevista para 15 de julho. Entre os pontos questionados pelos americanos estão o Pix, comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.

Apesar do endurecimento da postura americana, a economista ponderou que a relação entre os dois países vai muito além do comércio.

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“A relação Brasil-Estados Unidos é estratégica e multidimensional. Combina comércio, investimento, tecnologia, energia, serviços financeiros e cadeias industriais integradas”, afirmou.

Segundo Cassiana, caso as medidas avancem nos moldes atualmente discutidos, a tarifa média aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros poderia subir dos atuais 11% a 12% para cerca de 19%, considerando as exceções já previstas para itens como café, carne bovina, terras raras, suco de laranja, partes de aeronaves e equipamentos específicos.

Ainda assim, ela avaliou que o impacto macroeconômico tende a ser reduzido.

A economista lembrou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos representam atualmente menos de 10% das vendas externas do país, algo próximo de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, o Brasil vem registrando sucessivos recordes de exportações graças à diversificação dos mercados compradores.

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“Nenhuma grande casa revisou suas projeções de PIB para o Brasil por conta do anúncio das tarifas”, disse.

Escalada preocupa mais do que a tarifa

Na avaliação da economista do JP, o principal risco não está necessariamente na implementação das tarifas, mas na possibilidade de uma resposta brasileira que desencadeie um ciclo de retaliações comerciais.

Segundo ela, esse cenário poderia elevar custos para empresas e consumidores, pressionar a inflação e dificultar o trabalho do Banco Central em um momento em que os juros seguem elevados e a inflação continua resistente.

“O maior risco é a escalada”, afirmou.

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A economista defendeu que as negociações entre Brasília e Washington mantenham foco na redução das fricções comerciais sem comprometer o ambiente de investimentos entre os dois países.

Atualmente, Estados Unidos e Brasil mantêm um grupo de trabalho bilateral criado após encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em maio, na Casa Branca, justamente para buscar uma solução negociada para as tarifas e para a investigação da Seção 301.

Investimento é a principal âncora

Para Cassiana, o principal ativo da relação bilateral hoje não é o comércio, mas o investimento estrangeiro direto.

Segundo dados apresentados por ela, o fluxo de investimento direto estrangeiro para o Brasil deve alcançar cerca de 3,3% do PIB em 2026. Desse total, aproximadamente 19% têm origem nos Estados Unidos.

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Na avaliação da economista, é esse capital que sustenta geração de empregos, transferência de tecnologia, modernização da infraestrutura e expansão da capacidade produtiva brasileira.

“A agenda Brasil-Estados Unidos deve focar em proteger o ambiente de investimento direto como um ativo estratégico”, afirmou.

Ela também defendeu o avanço de novos acordos comerciais e a diversificação dos mercados de destino das exportações brasileiras, citando o acordo entre Mercosul e União Europeia como um dos caminhos para ampliar oportunidades para o país.

Ao encerrar sua participação, Cassiana afirmou que a disputa tarifária atual não deve obscurecer a importância da relação econômica mais ampla entre Brasil e Estados Unidos.

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“A relação transcende a discussão comercial que está sob estresse no curto prazo. O investimento direto externo é a âncora estrutural e é isso que deve ser preservado ao longo do tempo”, concluiu

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Editor
Jornalista formado pela Unesp, tem passagens pelo InfoMoney, CNN Brasil e Veja. Pautas para vitor.azevedo@moneytimes.com.br
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