Juros nos EUA voltam a assustar: Treasury de 30 anos bate maior nível desde 2002
Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, até ensaiaram um alívio nas primeiras horas do pregão desta terça-feira (29), mas o movimento durou pouco.
À tarde, o rendimento (yield) do título de 30 anos, referência para hipotecas de longo prazo, atingiu 5,612%, no maior nível desde 2002.
O yield do título de 10 anos, referência para empréstimos imobiliários, financiamento de veículos e dívidas de cartão de crédito, também manteve-se em alta nas máximas em 19 anos.
Desta vez, o culpado não foi o petróleo: o barril do Brent voltou a operar abaixo de US$ 100 com a retomada dos fluxos no Mar Vermelho – o que ajudou, ainda que temporariamente, a reduzir as preocupações de nova alta nos preços de energia e, consequentemente, de pressões inflacionárias na economia global.
Contudo, a expectativa de juros elevados por mais tempo nos Estados Unidos continuou a refletir nos juros mais longos após dados de atividade e declarações de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano).
Segundo dados do CME Group, os investidores precificam ao menos uma alta nos juros pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) até dezembro.
No início do mês, o Fed elevou os juros em 25 pontos-base, pela primeira vez em três anos, para a faixa de 3,75% a 4,00%, em decisão unânime.
De olho nos dados
Segundo o Conference Board, o índice de confiança do consumidor despencou 6,7 pontos neste mês, para 81,9, nível mais baixo desde 2014. Os economistas consultados pela Reuters previam leitura de 89,2.
“Os detalhes mostram ansiedade tanto em relação ao custo de vida, refletindo principalmente o aumento dos preços dos combustíveis para veículos, quanto à segurança no emprego, com o diferencial do mercado de trabalho — a proporção de pessoas que dizem que há muitos empregos menos a proporção das que dizem que é difícil conseguir emprego — no nível mais fraco desde março de 2021”, destaca o economista-chefe global do ING, James Knightley, em relatório divulgado nesta terça-feira.
Já as vagas de emprego em aberto caíram em 256 mil, para 7,079 milhões, no último dia de agosto, segundo o Escritório de Estatísticas do Trabalho do Departamento do Trabalho, em seu relatório Jolts. Os economistas consultados pela Reuters previam 7,225 milhões de vagas em aberto em agosto. A taxa de vagas de emprego caiu de 4,4%, em julho para 4,3%.
Ao longo da semana, novos dados de inflação e emprego podem reforçar — ou não — a perspectiva de juros elevados por mais tempo.
Entre eles, a divulgação do Índice de Despesas de Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), principal referência de inflação para o Fed, amanhã (30).
O consenso da Dow Jones aponta para uma alta de 0,3% no índice cheio e no núcleo, que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia, na base mensal. Em termos anuais, a expectativa é de alta de 3,7% no índice cheio e de 3,3% no núcleo, ainda acima da meta de 2% do Fed.
O relatório de empregos não-agrícolas (payroll) referente à outubro deve ser divulgado na sexta-feira (2).
O que o Fed diz
Ao longo do dia, os investidores acompanharam uma série de declarações de autoridades do Fed. Entre eles, o presidente da unidade do BC de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou que permitir que a inflação permaneça acima da meta do Fed por 5,5 anos é “brincar com fogo”.
Já o presidente da unidade do Fed de Nova York, John Williams, defendeu que outro aumento da taxa de juros pode ser necessário ainda neste ano, mas considerou que o BC deve ser “mais paciente”.
“Um novo ajuste para cima na meta da taxa de juros dos fundos federais pode ser apropriado no final deste ano para apoiar um retorno mais oportuno da inflação à meta”, disse ele em um discurso proferido em Buffalo.
Ele acrescentou que “com as medidas políticas que tomamos em nossa reunião de setembro, não há necessidade de urgência e temos tempo para coletar mais informações”. “O acúmulo de mais dados deverá proporcionar maior clareza sobre as tendências subjacentes da economia e os riscos associados ao alcance de nossas metas — e, consequentemente, à definição adequada da política monetária”, disse ele.
Na mesma linha, o diretor do Fed, Michael Barr, voltou a defender novos aumentos nas taxas de juros, observando que os altos preços da energia e o aumento repentino nos investimentos relacionados à inteligência artificial (IA) fizeram com que “nos desviássemos do rumo” no avanço em direção à meta de inflação de 2%.
“Ainda não vejo uma tendência clara para um retorno oportuno aos 2%”, disse Barr em discurso preparado para ser proferido no Detroit Economic Club. “Precisamos recalibrar a política monetária para nos colocarmos em uma posição melhor, que equilibre de forma mais uniforme os riscos para ambos os componentes de nosso duplo mandato”, afirmou.