Mercado preditivo pode ser usado para proteger seus investimentos? Eis o que dizem os especialistas
O mercado preditivo virou o novo tema de destaque entre os investidores. Muitas vezes confundido com apostas (bets) e usando quase as mesmas terminologias (como odds, probabilidades etc.), esse segmento vem crescendo vertiginosamente desde o fim de 2025.
O Polymarket, plataforma mais conhecida do mercado preditivo, chegou a atingir US$ 1,2 bilhão em volume negociado em março deste ano, segundo o agregador Token Terminal — um crescimento de mais de 900% em relação ao pico do mesmo mês de 2025.
É natural que as apostas mais engraçadas ganhem as manchetes — como quais as chances de Jesus Cristo voltar antes de 2027 ou se os Estados Unidos confirmariam a existência de alienígenas neste ano.
Mas existe uma forma de usar essas plataformas como proteção (hedge) na sua carteira de investimentos — como apostar a favor ou contra um corte de juros por parte do Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano) ou qual partido formará maioria nas eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos.
Veja a seguir como fazer isso.
Como funciona o mercado preditivo
Voltando alguns passos, apesar de parecerem semelhantes em diversos aspectos, o mercado preditivo e as apostas (bets) guardam diferenças significativas.
Começando pelas apostas tradicionais, o esquema de ganhos é o conhecido “você contra a banca”: um jogador aposta em um evento acontecer e ganha se acertar; caso contrário, é a casa quem fica com o dinheiro.
Já no mercado preditivo, o sistema de ganhos é um pouco diferente. É criado um contrato de “sim e não” para um determinado evento acontecer. O usuário escolhe no que acredita, e a plataforma ganha apenas com as taxas de negociação daquele contrato, independentemente do resultado.
Por exemplo: na Polymarket há um contrato em aberto apostando se a guerra entre Ucrânia e Rússia acabará em 31 de maio. Segundo a plataforma, há menos de 1% de chance de que o evento ocorra.
Assim, o usuário pode marcar se acredita que a guerra acabará no dia específico (“sim”) ou crê que o evento não tem chances de acontecer (“não”). Caso ele acerte, o valor da aposta é multiplicado na plataforma e o usuário embolsa aquele valor.
Como usar plataformas de mercado preditivo a seu favor
Apesar de existirem diversos contratos em aberto apostando nas mais variadas coisas — na Khalsi, por exemplo, as apostas esportivas dividem espaço com eventos macroeconômicos —, é possível usar essas plataformas a seu favor.
Isso porque esses contratos tendem a funcionar como derivativos informais de eventos específicos.
Os contratos derivativos estão atrelados a um ativo subjacente (como ouro, petróleo, ações) com as mais diversas características: apostando na alta ou queda de um produto financeiro ou exercendo opção de compra ou venda desse ativo a um preço pré-estabelecido.
Esse tipo de contrato é usado como proteção (hedge) para empresas e carteiras em momentos de incerteza — como poder comprar uma centena de barris de petróleo por um preço mais baixo do que o contrato atual, acima de US$ 100.
Nesses casos, o investidor pode optar por contratos mais baratos no mercado preditivo — isto é, que não necessariamente são ativos com o mesmo preço do mercado tradicional — e ainda funcionam além dos horários das bolsas comerciais.
Assim, o usuário pode apostar que o preço do barril de petróleo atingirá o valor de US$ 97 no fechamento específico do mercado e, caso isso ocorra, embolsar algum dinheiro.
Além disso, é possível apostar em eventos macroeconômicos, como se o Estreito de Ormuz será liberado a partir da próxima semana. Em caso de vitória na predição, o usuário consegue se proteger, ainda que o resultado não seja o melhor para os mercados globais naquele momento.
Vale dizer que é preciso garimpar um pouco dentro dessas plataformas para escolher os melhores contratos que se adequem ao seu portfólio e perfil de investidor antes de colocar dinheiro nesse mercado.
Por fim, algumas plataformas permitem que os próprios usuários criem suas odds, enquanto outras são fechadas para isso, o que pode limitar o número de opções possíveis.
Problema matemático
Vale ressaltar que existem questões a serem levadas em conta antes de colocar dinheiro nessas plataformas.
O mercado preditivo pode ser usado como um termômetro do sentimento do mercado sobre determinados temas, como eleições, por exemplo — ou, como gostam de chamar os analistas, uma “sabedoria das massas”.
Entretanto, isso não significa que elas devem ser lidas como pesquisas eleitorais ou verdades absolutas, mas, sim, como uma expectativa coletiva sobre um determinado tema.
A própria Casa Branca já afirmou que pretende incorporar dados do mercado preditivo aos modelos de expectativas de inflação, PIB e juros no futuro.
Além disso, é importante ressaltar que os investidores devem ter cautela antes de alocar seus recursos em plataformas de mercado preditivo. Afinal, a regulação do setor ainda está em andamento, enquanto esses aplicativos se multiplicam.
Vale lembrar que, recentemente, o Banco Central publicou uma norma do Conselho Monetário Nacional (CMN) que proíbe a oferta e a negociação de apostas em plataformas dos chamados mercados preditivos atreladas a eventos esportivos, jogos online e temas políticos, eleitorais, sociais, culturais ou de entretenimento.
Na prática, a regra limita a atuação, no Brasil, de plataformas como Kalshi e Polymarket de oferecer apostas sobre eleições, jogos, reality shows e outros acontecimentos que não sejam ligados à economia.
Entretanto, continuam liberadas plataformas atreladas ao mercado de apostas em derivativos de ativos já regulados.
*Esta reportagem contou com o auxílio dos especialistas da VoxFi