Minerva (BEEF3): Os 3 motivos que fazem o Bradesco BBI não recomendar compra mesmo com potencial de 70% para a ação
As ações da Minerva Foods (BEEF3) apresentam potencial de valorização de 70,43% até o preço-alvo de R$ 6,80 estabelecido pelo Bradesco BBI. Mesmo diante do espaço expressivo para alta, o banco mantém recomendação neutra para os papéis do frigorífico.
A cautela está ligada principalmente a três fatores: o balanço ainda pressionado, a demora na conversão do capital de giro em caixa e uma visão mais conservadora para o ciclo da carne bovina no Brasil.
Os analistas Henrique Brustolin e J. Ricardo Rosalen se reuniram com executivos da Minerva, em Barretos (SP), para discutir a estratégia da companhia e as perspectivas para o mercado global de proteína animal.
Na avaliação da empresa, a América do Sul — especialmente o Brasil — deve ganhar relevância como exportadora líquida de proteínas diante das restrições estruturais à produção nos Estados Unidos e na Europa.
A nova cota norte-americana de 300 mil toneladas de carne bovina moída, por exemplo, tende a beneficiar principalmente Brasil e Paraguai, segundo a companhia.
Nesse cenário, a estratégia da Minerva continua apoiada na diversificação geográfica e na capacidade de arbitrar preços do gado, custos de produção e mercados consumidores entre os diferentes países em que atua.
Apesar das perspectivas favoráveis para as exportações, o foco da tese de investimento mudou. Para o BBI, a principal questão deixou de ser o ganho adicional de escala e passou a ser a capacidade da Minerva de transformar capital de giro em caixa e reduzir a dívida.
Balanço ainda pressionado
O primeiro ponto de cautela é a alavancagem. Atualmente, a relação entre dívida líquida e Ebitda da Minerva está próxima de 2,9 vezes, acima do intervalo entre 1,5 e 2 vezes considerado adequado pela própria administração.
A companhia entende que as despesas financeiras deveriam consumir, no máximo, cerca de 35% do Ebitda. Com os juros nos níveis atuais, atingir esse patamar exigiria justamente uma redução da alavancagem para a faixa entre 1,5 e 2 vezes.
Enquanto isso não acontecer, a expectativa é que os dividendos permaneçam limitados ao mínimo estatutário de 25% do lucro.
A Minerva mantém aproximadamente R$ 15 bilhões em caixa, montante 50% superior ao mínimo de R$ 10 bilhões previsto em sua política de liquidez. A reserva oferece flexibilidade para administrar vencimentos, negociar refinanciamentos e carregar estoques em momentos de oportunidades comerciais.
Ainda assim, para o BBI, o elevado volume de caixa não elimina a necessidade de reduzir o endividamento e aliviar as despesas financeiras.
Conversão de caixa mais lenta
A normalização do capital de giro pode liberar cerca de R$ 3 bilhões em caixa, segundo as estimativas apresentadas pela companhia. O problema é que esse processo deverá acontecer mais tarde do que o inicialmente previsto.
Antes concentrada no terceiro trimestre de 2026, a liberação de recursos deve ganhar força apenas no quarto trimestre, com uma parcela podendo ficar para o primeiro trimestre de 2027.
A menor exposição à China no segundo semestre tende a encurtar o prazo de recebimento. A venda de estoques e a conversão de ativos biológicos também devem contribuir para a geração de caixa.
Por outro lado, a nova cota dos Estados Unidos e os estoques já formados no país devem postergar parte dessa normalização.
Para o Bradesco BBI, embora a direção da melhora esteja clara, o atraso reduz a visibilidade sobre a velocidade da desalavancagem.
Cautela com o ciclo do boi no Brasil
O terceiro motivo é a postura mais conservadora do banco em relação ao ciclo da carne bovina no Brasil.
A Minerva ampliou sua capacidade de abate, sua escala e sua presença geográfica após integrar os ativos adquiridos. A receita acumulada em 12 meses alcançou aproximadamente R$ 57 bilhões, enquanto o volume de abates deve se aproximar de 6 milhões de cabeças em 2026.
A diversificação entre diferentes origens e destinos permite ao frigorífico aproveitar diferenças nos preços do gado e nas condições de exportação. Ainda assim, um ciclo mais apertado no Brasil pode elevar o custo da matéria-prima e pressionar as margens da operação.
Diante desse risco, somado à alavancagem elevada e à demora na liberação do capital de giro, o BBI prefere esperar por evidências mais concretas de geração de caixa antes de adotar uma visão mais positiva para BEEF3.