Novo presidente da Anbima defende tempestividade nas reações, cita ‘casos isolados’ e diz que espera ‘evoluções positivas’ na CVM
Tempestividade e evolução da autorregulação foram as palavras mais repetidas por Roberto Paris, diretor-executivo do Bradesco e eleito novo presidente da Anbima, Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais.
Em cerimônia realizada nesta segunda-feira (18), em São Paulo, o executivo falou em “eventos recentes” e “casos isolados”, sem mencionar nominalmente os escândalos da Reag e do Banco Master, que a entidade vem buscando tratar como “eventos pontuais”.
“Casos isolados não podem definir a percepção sobre o setor. Ao contrário, devem demonstrar o papel estrutural que o mercado de capitais tem na economia e na vida de todos os brasileiros”, defendeu Paris em seu discurso de posse.
Em entrevista coletiva, o executivo voltou a reforçar essa visão. “A indústria de fundos e o mercado de capitais têm mais de R$ 11 trilhões sob gestão”, afirmou. “Pode parecer que todo o mercado de capitais está implicado por problemas pontuais que aconteceram em uma gestora ou outra, em um banco ou outro. [Mas] O mercado é muito grande.”
Questionado por jornalistas especificamente sobre os casos Reag e Master, Paris afirmou que a Anbima vem trabalhando “para aperfeiçoar a autorregulação e tentando ter mais tempestividade” para reagir ao detectar “certas situações”.
Ele ressalvou, porém, que a atuação da entidade tem suas limitações, dentro da autorregulação do mercado, e que outras ações cabem exclusivamente aos órgãos reguladores. “A gente não tem o poder de polícia, não tem o poder do regulador para tomar decisões mais drásticas.”
Crise na CVM
Paris também foi questionado pela reportagem sobre a situação de precarização atual da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) – a entidade enfrenta perda de servidores especializados, defasagem salarial frente a outras carreiras regulatórias, restrições orçamentárias e crescente dificuldade de fiscalização do mercado. Um exemplo desta situação é o fato de a CVM ter apenas dois diretores titulares em exercício no momento, quando deveria ter 5 membros no Colegiado (1 presidente e 4 diretores).
Em princípio, o executivo da Anbima respondeu que a CVM “como qualquer agente público nesse momento, tem suas dificuldades”. Pressionado novamente, Paris afirmou, então, que “todo mundo acompanha como está a situação da CVM” e disse esperar que a entidade “tenha evoluções positivas no longo prazo”.
“Eu acho que tem ali a questão de ter poucos diretores nomeados nessa altura do campeonato, que não é o ideal. A gente espera que ela consiga completar o seu quadro o mais rápido possível”, disse. “E temos apoiado, dentro do que nos cabe, as iniciativas que ela adota na direção de melhorar a qualidade do seu corpo funcional para atender mais rapidamente a evolução do mercado.”
O presidente interino da CVM, João Accioly, participou do evento de posse da nova diretoria da Anbima de forma online. Em seu discurso, afirmou que o mercado vem passando por “momentos interessantes” e que têm gerado “discussões bem relevantes” sobre regulação.
“Existe às vezes uma percepção de conflito entre reguladores e regulados, mas costuma ser uma visão míope. Estamos todos buscando os mesmos objetivos”, afirmou Accioly.
Foco no investidor
Outra questão apontada pelo novo presidente da Anbima foi a necessidade de melhorar as informações oferecidas pelas entidades aos investidores, para que eles possam tomar suas decisões de forma consciente, inclusive dando mais transparência em relação aos agentes envolvidos na oferta dos investimentos.
“Um dos avanços [que buscamos] é acabar com a assimetria na distribuição de produtos financeiros e bancários, trazendo visibilidade dos custos de remuneração recebida por esses agentes quando comercializam esses produtos”, defendeu Paris.
“A Anbima apoia e cria diretrizes para que a distribuição de produtos financeiros acompanhe a capacidade de entendimento e investimento de um determinado cliente.”