O que é Dfinity e seu “Internet Computer”, que pode substituir a internet tradicional?

15/05/2021 - 11:00
Traduzido e editado por Daniela Pereira do Nascimento
Confira, na primeira parte do superartigo escrito por Mira Christanto e Wilson Withiam, da Messari, do que se trata o projeto Dfinity e seu “Internet Computer” (Imagem: Medium/Dfinity)

Dfinity é uma das plataformas de contratos autônomos (ou “smart contracts”) mais bem-financiados no setor cripto. Ainda assim, é um dos menos compreendidos.

Grande parte da obscuridade da Dfinity se dá pela complexidade técnica e visão abstrata. O lançamento de seu token e a disponibilização de seu código aberto irão criar mais interesse e compreensão sobre o projeto.

Vimos a tecnologia blockchain, como as aspirações de “computador mundial” da Ethereum, ser aplicada para abordar as finanças tradicionais e colecionáveis análogos. Porém, Dfinity está tentando abordar os problemas relacionados à internet tradicional.

Grande parte do conteúdo, da funcionalidade e dos dados de usuários existe em ecossistemas próprios e controlados por grandes empresas.

A resposta da Dfinity, o Internet Computer (ou “Computador da Internet”), é uma reimaginação do setor de Tecnologia da Informação, onde desenvolvedores podem desenvolver e hospedar softwares livre dos monopólios das Big Techs que atualmente controlam os dados de usuários.

Apresentação ao Dfinity e o Internet Computer

Dfinity quer que a internet em si forneça suporte para aplicações de software e dados em vez de simplesmente fornecer conexões de ponto a ponto e esperar que serviços privados de armazenamento em nuvem cuidem do restante (Imagem: Medium/Dfinity)

Desde 2016, a Dfinity tem focado em desenvolver o “Internet Computer”, uma rede blockchain descentralizada que visa expandir a funcionalidade da internet. O problema que Dfinity está abordando além de apenas a tecnologia blockchain.

Pretende criar uma plataforma descentralizada, escalável e parecida com serviços em nuvem que possa armazenar dados, executar cálculos e apoiar a governança direcionada pela comunidade.

Está abordando os problemas que assolam a internet tradicional, como a segurança de dados relativamente baixa e um oligopólio que consiste de grandes empresas de tecnologia.

Nativos em cripto podem imediatamente pensar no “computador mundial” da Ethereum ou no “metaprotocolo” da Polkadot quando pensam em analogias para o Internet Computer.

Porém, Dfinity pretende redefinir o que um blockchain deveria fazer. Embora a primeira iteração da Dfinity parecia similar à ETH 2.0, seu escopo agora se estende para além das capacidades básicas da Ethereum.

Dfinity quer que a internet em si forneça suporte para aplicações de software e dados em vez de simplesmente fornecer conexões de ponto a ponto e esperar que serviços privados de armazenamento em nuvem cuidem do restante.

O Internet Computer (IC) é menos sobre um registro imutável e mais sobre criar uma internet de acesso livre. A internet conecta bilhões de pessoas por meio de Protocolos de Transmissão/Protocolo de Internet (TCP/IP).

O Internet Computer Protocol (ICP) visa levar esse conceito além ao oferecer uma plataforma computacional pública para que desenvolvedores, empresas e agências governamentais implementem softwares e serviços diretamente à internet pública.

Assim como a Ethereum, essa plataforma irá permitir que desenvolvedores operem aplicações computacionais em uma infraestrutura descentralizada.

Diferente da Ethereum, o IC presente fornecer às empresas a eficiência de operar essas aplicações em grande escala e a flexibilidade de desenvolvê-las para se adequarem às necessidades específicas de uma base de usuários específica (como privacidade, por exemplo).

 

No atual ambiente da internet, grandes empresas de tecnologia controlam os conteúdos e dados criados pelos usuários. Os algoritmos e os sistemas por trás dessas plataformas são privados.

Grandes plataformas de tecnologia, como Twitter e Google, têm bastante controle sobre a forma como usuários interagem entre si e também em como interagem com serviços externos à plataforma.

O fundador Dominic Williams afirmou que a internet se tornou bem mais monopolística e corporativa.

Monólitos de tecnologia, como Facebook ou Amazon Web Services (AWS), podem mudar os parâmetros e o acesso da plataforma sem uma notificação prévia, colocando os usuários e as empresas que dependem desses serviços em risco intensificado.

Zygna, uma empresa de jogos sociais, foi destituída quando o Facebook alterou suas regras. Fortnite foi deslistado das lojas de aplicativos do Google e da Apple após se negar a pagar 30% da parcela de receita.

Em 2012, o Twitter restringiu o uso de sua interface de programação de aplicações (API), prejudicando o desenvolvimento de clientes externos e limitando os possíveis usos de dados de sua rede entre entidades que não são parceiras. Em 2015, o LinkedIn fez o mesmo.

Limitar o acesso a desenvolvedores externos pode prejudicar a inovação conforme empreendedores enfrentam um grau de “risco de plataforma”. Em resposta, o IC espera integrar uma nova geração de softwares e serviços que são de código aberto.

Pretende reduzir não apenas o risco de plataforma, como também a complexidade em desenvolver e manter sistemas. Isso iria acelerar o tempo que demora para desenvolvedores lançarem um novo produto.

Caso seja executado corretamente, Dfinity espera fornecer o primeiro blockchain que possui altíssima velocidade e pode escalar para fornecer suporte a qualquer volume de cálculos de contratos autônomos e qualquer quantidade de dados.

Esse novo setor de Tecnologia da Informação terá mais requisitos de hardware. O IC irá depender mais de maiores centros de dados e máquinas de nós de alta qualidade (validadores) em comparação a redes como a Ethereum.

Porém, suas vantagens podem resultar em casos de uso completamente novos, mais acessíveis e menos dependentes da extração de dados. Essas aplicações podem incluir interoperabilidade, privacidade, segurança e abertura.

Casos de uso incluem redes sociais, mensagens privadas, pesquisa, armazenamento e interações de internet de ponto a ponto.

Se o IC tiver sucesso em substituir a Tecnologia da Informação tradicional, não haverá necessidade de utilizar serviços centralizados de sistemas de nome de domínio (DNS), antivírus, “firewalls”, sistemas de base de dados, serviços em nuvem e redes privadas virtuais (VPNs).

(Imagem: Dfinity)

Para resumir a nova oferta da Dfinity para desenvolvedores que quiserem uma alternativa, os benefícios de começar a desenvolver na internet incluem:

– custo de instalação: desenvolvedores não têm de se cadastrar em inúmeras plataformas;

– custo operacional: um protocolo seguro significa a redução no custo operacional de manter a segurança e em lidar com a complexidade;

– desenvolvimento: Dfinity propõe que o Internet Computer reinventa o próprio software, simplificando o processo de desenvolver e manter os sistemas. Isso fornece mais tempo para focar na experiência dos usuários (UX);

– abertura: o IC apresenta um software aberto que garante o acesso à funcionalidade por meio de APIs para outros serviços.

A história da Dfinity

Parecido como a forma em que a rede Polkadot foi desenvolvida pela Parity e Web3 Foundation, o Internet Computer é desenvolvido pela Dfinity Foundation.

A organização sem fins lucrativos foi fundada em 2016 pelo empreendedor da tecnologia Dominic Williams, que agora atua como o cientista-chefe da Dfinity.

O Internet Computer é o resultado de cinco anos de pesquisa e desenvolvimento por grandes criptógrafos e especialistas em sistemas distribuídos e linguagens de programação. Atualmente, Dfinity possui quase cem mil citações acadêmicas e 200 patentes.

Dfinity é um dos projetos mais bem-financiados e promovidos da indústria cripto. A rede principal foi lançada em 7 de maio de 2021 e seu token foi lançado publicamente na última segunda-feira (10).

O projeto começou o financiamento antes da febre das ofertas iniciais de moeda (ICOs) em 2017 sob o ticker DFN mas, desde então, o reformulou para ICP. Após a Polkadot, Dfinity é o projeto que mais arrecadou capital. Arrecadou grande parte dos fundos não congelados a US$ 160 milhões até hoje:

Capital arrecadado entre novos desafiadores da Ethereum – Dfinity é o segundo projeto a arrecadar mais capital entre os Desafiadores da Ethereum lançados desde janeiro de 2020 ou com futuras datas de lançamento (Imagem: Messari, CoinList)

Houve diversas versões contraditórias de rodadas de financiamento do Dfinity nos jornais. Segundo a Dfinity, só houve três rodadas principais e um evento de distribuição gratuita (“airdrop”):

1) Rodada “seed” (para impulsionar seu crescimento) em fevereiro de 2017

Essa rodada foi promovida por um tuíte e aberta ao público ao fornecer o download de uma extensão de internet. Dfinity arrecadou 3,9 milhões de francos-suíços (ou US$ 3,9 milhões) de 370 participantes a uma valoração de US$ 16 milhões ou a um preço de US$ 0,03 por token.

Deteve uma porção desses fundos em ether (ETH) e bitcoin (BTC) durante o ciclo de alta de 2017. Segundo a equipe, Dfinity transformou essas alocações de ether e bitcoin em US$ 40 milhões em fiduciárias.

Dfinity prometeu a esses investidores que a rodada seguinte seria um evento de financiamento de 20 milhões de francos-suíços, parecido com uma oferta inicial de moeda (IC). Porém, após a febre das ICOs em 2017, o projeto percebeu que seu alvo de avaliação era muito baixo.

Além disso, Dfinity citou que não tinha carências de financiamento imediatas, e realizar um financiamento de ICO poderia ter colocado o projeto em um território jurídico cinzento, onde haveria retaliação devido a leis de valores mobiliários.

Para compensar os participantes iniciais, a equipe prometeu que investidores da rodada “seed” ganhariam 24,72% de tokens no evento gênese.

2) Rodada estratégica em janeiro de 2018

Dfinity arrecadou US$ 20,54 milhões por 7% do fornecimento inicial (o número foi alterado dos 6,84% originais). Essa alocação será distribuída mensalmente durante três anos a partir do lançamento da rede principal (em maio de 2021).

Participantes incluem Polychain Capital, Andreessen-Horowitz (a16z), CoinFund, Multicoin Capital e Greycroft Partners. Essa rodada marca o primeiro token no qual a16z investiu.

Polychain e Dfinity colaboraram para criar o “Fundo de Capital de Risco ao Ecossistema DFINITY” por um tamanho não divulgado.

O objetivo é financiar novos projetos que iriam impulsionar o ecossistema de aplicações do ICP. Sites noticiaram que Dfinity arrecadou uma quantia bem maior: US$ 61 milhões. É possível que essa quantia maior ou tenha sido alterada ou incluiu fundos para o fundo.

3) Venda privada em agosto de 2018

110 participantes contribuíram US$ 97 milhões por 4,96% do fornecimento inicial, vendido a US$ 4 por token ICP. Esse número foi alterado dos 4,75% originais.

Essa alocação terá um cronograma de distribuição mensal de um ano após o lançamento da rede principal. A distribuição começou no evento de distribuição de tokens em 10 de maio de 2021.

Participantes dessa rodada incluem Andreessen-Horowitz (a16z), Polychain Capital, SV Angel, Aspect Ventures, Electric Capital, ZeroEx, Scalar Capital e Multicoin Capital.

4) Distribuição em maio de 2018

US$ 35 milhões em tokens ICP (anteriormente conhecidos como DFN), ou 0,80% do fornecimento inicial, foram concedidos a apoiadores iniciais que faziam parte de sua lista de e-mails, do Slack e da comunidade. Atualmente, esses valores atingiram US$ 1,89 bilhão.

Participantes da distribuição receberam seus tokens ICP em setembro de 2020. Esses tokens se tornaram disponíveis na última segunda-feira.

Havia 469.213.710 tokens ICP no evento gênese e o fornecimento de tokens será distribuído conforme indicado abaixo. A tabela abaixo resume a rodada.

Alocação gênese do token ICP (Imagem: Dfinity)

Os principais grupos incluem:

24,72% a investidores “seed”: àqueles que, em fevereiro de 2017, investiram por um total de 3,9 francos-suíços;

23,9% à Dfinity Foundation: gerencia o capital arrecadado das vendas de tokens. Também supervisiona a Doação da Fundação dos tokens ICP.

Esses tokens são aqueles detidos ou sempre gastos pela fundação ao financiar pesquisa e desenvolvimento, operações, adquirir tecnologia, criar programas de desenvolvimento financeiro da comunidade e incentivos a parceiros;

18,0% a membros da equipe: existem mais de 200 membros;

9,5% a contribuidores iniciais: existem 50 pessoas que ajudaram a equipe antes da criação da Fundação;

7,0% a investidores estratégicos: dos US$ 20,54 milhões arrecadados por Polychain Capital, Andreessen-Horowitz, CoinFund, Multicoin Capital e Greycroft Partners.

4,96% a investidores privados na pré-venda: dos US$ 97 milhões arrecadados por a16z, Polychain, SV Angel, Aspect Ventures, Electric Capital, ZeroEx, Scalar Capital e Multicoin Capital.

Distribuição de tokens ICP no lançamento (Imagem: Messari, Dfinity)

Dfinity está aumentando sua rede de centros de dados e desenvolvedores. Na época de lançamento, 12 centros de dados operam 7 sub-redes com 68 nós — “nós” do IC são similares a “validadores” da ETH 2.0.

A fundação espera que o número de centros de dados e operadores de nós do IC cresçam gradualmente após o lançamento para apoiar o ecossistema de aplicativos da rede.

A equipe espera que a rede atinja 123 centros de dados que operam 4,3 mil nós até o fim de 2021. Dfinity espera escalar para que milhares de centros de dados operem milhões de nós no futuro.

A equipe Dfinity

Dfinity foi fundada em 2016 por Dominic Williams. A Dfinity Foundation possui cerca de 200 pessoas na equipe principal. Contribuidores importantes mencionados pela equipe e pelos jornais incluem:

Dominic Williams, cientista-chefe

O empreendedor em série, criou um serviço de armazenamento de arquivos e um jogo on-line multiplayer para crianças envolvendo uma coleção de monstros.

A computação distribuída era necessária para armazenar as listas de lutas de monstros e recompensas de nuggets de ouro, conectando ambos os jogos.

Williams também queria criar uma moeda para o jogo e analisou ideias proof-of-stake (PoS), apesar de a tecnologia ainda ser nascente. Ele entrou para o setor cripto em 2014 e desenvolveu o “Threshold Relay” do Internet Computer.

Jan Camenisch, vice-presidente de pesquisa e cripto

Antes de entrar para a Dfinity, Jan estava no IBM Research, onde liderou a equipe de pesquisa sobre privacidade e criptografia, e era membro da Academia de Tecnologia da IBM. Ele publicou 130 artigos e possui 140 patentes.

Johan Georg Granström, diretor de engenharia

Granström trabalhou na Google, onde foi gestor líder de tecnologia no YouTube.

Andreas Rossberg, pesquisador e engenheiro

Anteriormente, Rossberg trabalhou na Google e liderou a equipe da linguagem de programação JavaScript no Chrome V8.

Ele também é cocriador da WebAssembly, um novo tipo de código que pode ser executado em navegadores de internet modernos, também utilizado na Dfinity. Ele também criou a linguagem de programação Motoko do Internet Computer.

Benjamin Lynn, engenheiro

Lynn é o “L” nas BLS Signatures, apresentadas em um artigo em 2001 que, desde então, se tornou cada vez mais importante na criptografia.

Uma das ofertas tecnológicas da Dfinity é um transmissor aleatório e seguro, com base na Função Aleatória de Verificação (VRF) do Threshold. Isso significa que a aleatoriedade pode ser replicada, caso esteja sob as mesmas condições.

É uma função pseudoaleatória que fornece uma prova verificável da exatidão da informação. A criptografia BLS é usada para gerar aleatoriedade e atingir segurança, velocidade e escala em redes públicas.

Antes disso, Lynn também estava no Google e possui um doutorado em Ciência da Computação pela Universidade de Stanford.

Timo Hanke, pesquisador principal

Hanke é um ex-professor de Matemática e Criptografia.

Ele entrou para a equipe da CoinTerra em 2014, uma fabricante de sistemas e máquinas com chips de circuitos integrados de aplicação específica (ASICs) para a mineração de bitcoin, onde ele atuou como líder de pesquisa e, depois, como diretor de tecnologia.

Hanke possui diversas patentes de otimização de ASICs. Ele inventou um método chamado AsicBoost que melhora o custo e a eficiência da mineração de bitcoin em 20%.

Mahnush Movahedi, pesquisadora sênior

Movahedi estudou na Universidade de Yale, onde ela trabalhou em algoritmos distribuídos, escaláveis e tolerante a falhas para consenso e computação multipartes segura, compartilhamento secreto e comunicação interativa em canais de ruído.

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Última atualização por Daniela Pereira do Nascimento - 13/05/2021 - 16:07

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