O risco que pode frear o agro brasileiro, segundo acionista da SLC Agrícola (SLCE3)
O agro brasileiro segue competitivo, com ganhos de produtividade e espaço para novos investimentos. Mas há um risco fora da porteira que pode limitar esse avanço: a situação fiscal do Brasil.
A avaliação é de Guilherme Scheffer, empresário do agronegócio e acionista da SLC Agrícola (SLCE3), durante o painel “O cenário do agronegócio brasileiro”, no primeiro dia do J. Safra Investment Conference.
“O grande risco do Brasil não são os setores. O país precisa melhorar a responsabilidade fiscal para trazer capital, confiança e investimento”, afirmou.
A família Scheffer, controladora do Grupo Scheffer e representada por Guilherme, detém uma participação relevante na SLC Agrícola, com 5,37% do capital social da empresa, correspondente a 26.764.762 ações.
A Scheffer é um dos grandes grupos agrícolas do Brasil, com atuação concentrada na produção de algodão, soja e milho e operações principalmente em Mato Grosso. Fundada pela família Scheffer, a companhia também ganhou destaque pela adoção de práticas de agricultura regenerativa em larga escala, combinando produção agrícola, tecnologia e iniciativas voltadas à conservação do solo.
Para Scheffer, a preocupação não está necessariamente nos fundamentos dos setores produtivos, mas no ambiente macroeconômico e em sua capacidade de atrair recursos para novos investimentos.
O empresário participou do debate ao lado de João Marcelo Dumoncel, CEO da 3tentos (TTEN3). Com moderação de Anibal Braga, Head de Cobertura de Agribusiness no Investment Banking do J. Safra, o painel discutiu ainda produtividade, infraestrutura, inteligência artificial (IA), gestão de riscos e processamento de soja.
Gestão de risco vira parte do “dever de casa”
Scheffer também destacou a evolução da gestão dentro das empresas agrícolas, principalmente diante da volatilidade dos preços das commodities.
Segundo ele, uma das principais lições dos últimos anos foi aprimorar o planejamento e escolher melhor os momentos de proteção dos preços.
“O que mais aprendemos nesses anos foi alinhar melhor os momentos de hedge, aproveitar as curvas de cada momento e fazer o dever de casa bem feito”, afirmou.
Esse “dever de casa”, segundo Scheffer, passa também pelo aumento da produtividade e pelo controle do custo por unidade produzida.
Na visão do empresário, apesar dos desafios, o agronegócio atravessa um período que ainda oferece oportunidades e espaço para a entrada de capital.
IA já maneja 3 mil hectares
A tecnologia é outra ferramenta utilizada para buscar ganhos de eficiência.
Scheffer relatou que o grupo desenvolveu, em Cuiabá, uma base de dados a partir de análises de seiva das plantas. Nos últimos dois anos, essas informações passaram a ser utilizadas para calibrar sistemas de inteligência artificial e gerar recomendações agronômicas.
“Temos 3 mil hectares manejados pela IA. Ela dita o que fazer e o que aplicar para melhorar, com diagnóstico e recomendação”, disse.
Segundo Scheffer, a experiência proporcionou um aumento de produtividade de 20% nas áreas manejadas com apoio da tecnologia.
Agro mais forte após o ciclo?
Para Scheffer, os períodos mais difíceis também podem provocar uma seleção entre os participantes do mercado e deixar o agronegócio mais preparado para o ciclo seguinte.
Nesse ambiente, produtividade, controle de custos, gestão de risco e tecnologia ganham ainda mais importância para atravessar momentos de margens pressionadas.
A avaliação apresentada no painel é que o Brasil continua reunindo condições para ampliar sua relevância no agronegócio global. O desafio é fazer com que os ganhos conquistados dentro da porteira sejam acompanhados por avanços fora dela.
No diagnóstico de Scheffer, isso também passa pelas contas públicas. Uma melhora do ambiente fiscal, segundo ele, é necessária para aumentar a confiança e criar condições para atrair mais capital e investimentos para o país.