Por que o Citi aprovou as mudanças na Natura (NATU3), mas mesmo assim rebaixou a ação
As ações da Natura (NATU3) subiram mais de 10% desde a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, mas, para o Citi, o movimento deixou o papel caro diante de uma recuperação que deve ser mais lenta e complexa do que o mercado espera.
Em relatório divulgado nesta quarta-feira (2), o banco rebaixou a recomendação para os papéis de Neutro para Venda e reduziu o preço-alvo de R$ 10 para R$ 8 por ação.
Apesar da notícia negativa, a ação operava em alta no começo do pregão de hoje. Por volta de 11h20, NATU3 subia quase 1%.
Qual a visão do Citi
A avaliação do Citi é que a reestruturação da Natura está apenas começando. Embora o banco veja com bons olhos as mudanças recentes de governança e o retorno de Alessandro Carlucci ao cargo de CEO, os analistas consideram que ainda há obstáculos relevantes pela frente.
Entre eles estão problemas de disponibilidade de produtos que devem continuar afetando os resultados no segundo semestre, a dificuldade de administrar a concorrência entre diferentes canais de vendas e um ambiente macroeconômico mais fraco no Brasil e na Argentina.
“Somos construtivos em relação ao retorno de Carlucci e acreditamos que ele é o executivo certo para liderar a recuperação da Natura”, afirmam os analistas João Pedro Soares e Felipe Husein.
O que está por trás do rebaixamento
Um dos principais pontos de preocupação é que a recuperação operacional da companhia pode levar mais tempo do que os investidores estão precificando.
A Natura ainda enfrenta problemas de disponibilidade de produtos, que devem continuar pressionando os resultados do segundo semestre no Brasil e podem também afetar o México, que recebe produtos da fábrica de Cajamar, em São Paulo.
Além disso, o Citi chama atenção para um desafio mais estrutural: a chamada canibalização entre canais.
Com a expansão da presença digital e em marketplaces e outros canais que vão além da venda direta, a Natura precisa evitar que esses formatos simplesmente desloquem vendas que antes aconteciam por meio de sua tradicional rede de consultoras.
Para o Citi, esse processo torna a recuperação mais complexa.
Lucro de 2027 fica 20% abaixo do consenso
O banco incorporou aos seus modelos os resultados do segundo trimestre, considerados fracos, embora amplamente esperados.
A partir disso, passou a projetar uma queda de aproximadamente 3% nas vendas brasileiras no segundo semestre de 2026, ante uma expectativa anterior de estabilidade.
Também foram incorporadas despesas financeiras maiores, incluindo custos relacionados a operações de swap.
Como resultado, o Citi reduziu em cerca de 20% sua estimativa de lucro por ação (EPS) para 2027. A projeção passou a ficar aproximadamente 20% abaixo do consenso compilado pela Visible Alpha.
O banco afirma que o novo preço-alvo de R$ 8 reflete justamente uma trajetória de recuperação mais lenta e uma perspectiva de lucro mais baixa.
Ação já subiu mais de 10%
A mudança de recomendação ocorre depois de uma alta superior a 10% nas ações desde a divulgação dos resultados do segundo trimestre.
Na avaliação do Citi, parte desse movimento está relacionada à disposição dos investidores de dar mais tempo à companhia após mudanças importantes em sua estrutura de governança.
Entre elas está a entrada da Advent no acordo de acionistas, com direito a dois assentos no conselho, além do retorno de Carlucci, executivo que já passou pela Natura.
O Citi reconhece que essas mudanças podem contribuir para a recuperação da empresa. O problema, na visão do banco, é o preço pago atualmente pelo mercado por essa expectativa.
A ação é negociada a cerca de 11,5 vezes o lucro projetado para 2027, enquanto as empresas de varejo acompanhadas pelo Citi negociam, em geral, entre 5 e 10 vezes o lucro.
Além disso, a projeção de lucro do banco está 20% abaixo do consenso.
“Embora a recuperação da Natura possa gerar retornos atrativos no longo prazo, a avaliação atual parece precificar uma recuperação mais rápida do que esperamos”, dizem os analistas.