Reestruturação da Raízen (RAIZ4) segue em negociação e se encaminha para reta final; o que está na mesa?
A Raízen (RAIZ4), em recuperação extrajudicial, busca uma solução para lidar com a dívida de R$ 65 bilhões que tem na mesa. Diferentes acordos já estiveram em pauta, no entanto, uma solução ainda não está completamente estabelecida, inclusive, com o aporte de R$ 500 milhões de Rubens Ometto em xeque.
Segundo informações do colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, publicadas no último domingo (24), as negociações para a reestruturação da companhia estão em reta final, com o acordo caminhando para uma conversão de 45% da dívida em ações, tornando os credores donos de quase 80% da empresa.
O desenho contaria ainda com uma capitalização de R$ 3,5 bilhões da Shell e, mais à frente, a divisão da Raízen em duas companhias, uma voltada para a produção de etanol e outra para a distribuição de combustíveis.
Também está no radar a eleição de um novo conselho de administração para a Raízen, joint venture entre Shell e Cosan, no primeiro trimestre de 2027, com a criação de um cargo de diretor de reestruturação (CRO).
Segundo informações do Broadcast, do Estadão, publicadas na segunda-feira (25), parte dos credores não contam com um aporte de R$ 500 milhões do empresário Rubens Ometto, co-controlador e presidente do conselho da Raízen.
Apuração do jornal aponta que a continuidade de Ometto no aumento de capital da Raízen segue em discussão, com ausência do empresário como umas das opções discutidas. No entanto, tendo em vista a situação da Raízen, uma das fontes ouvidas pelo Broadcast afirma que o aporte de Ometto não faria diferença para o reequilíbrio financeiro.
Se o aporte do empresário ocorrer, somado ao da Shell, totalizaria um aporte de R$ 4 bilhões na companhia.
Ao InvestNews, entretanto, Ometto afirmou que a proposta de aporte segue de pé independentemente da sua continuidade no comando do conselho.
Procurada pelo Money Times, a Raízen afirmou que não irá comentar o assunto.
Fugindo de uma RJ
A Raízen entrou com pedido de recuperação extrajudicial (RE) em 11 de março deste ano. Diferentemente da recuperação judicial (RJ), a extrajudicial permite que empresas em crise financeira renegociem dívidas diretamente com credores.
A ideia não é levar à Justiça a recuperação, mas chegar a acordos sobre a reestruturação de dívidas diretamente com os credores. Dessa maneira, o processo tende a ser mais rápido, menos burocrático e mais barato que a recuperação judicial, focado no acordo voluntário para reestruturar passivos.
A Raízen busca não passar da RE para a RJ e a intenção, de acordo com o Estadão, é levar um plano para homologação na Justiça no início de junho, quando se encerra o prazo de 90 dias previsto por lei. O entendimento é de que essa alternativa seria a pior para todas as pares envolvidas.
O caso Raízen
A Raízen estreou na bolsa em meio ao boom de IPOs de 2021, avaliada em R$ 76 bilhões e com a promessa de liderar uma revolução dos combustíveis verdes, impulsionada pelo etanol de segunda geração (E2G).
Na prática, porém, a tese encontrou obstáculos relevantes: o arrefecimento do apetite global por investimentos ESG, o avanço do etanol de milho — alternativa mais barata e escalável — e um cenário de preços pressionados para açúcar e etanol.
Quase cinco anos após o IPO, realizado em 5 de agosto de 2021, a joint venture entre Cosan e Shell perdeu valor de mercado e se transformou em uma penny stock, quando uma ação negocia na casas dos centavos. Ao mesmo tempo, a companhia acumulou uma dívida bilionária após um ciclo agressivo de aquisições e expansão de ativos.
Na tentativa de reverter essa trajetória, a Raízen iniciou, no fim de 2024, um processo de reestruturação focado na redução da alavancagem. O movimento incluiu uma ampla troca no comando executivo, com a chegada de Nelson Gomes ao cargo de CEO, após passagens por ExxonMobil, Cosan, Compass, Comgás e Moove.
Até fevereiro de 2026, a companhia já havia levantado cerca de US$ 5 bilhões com iniciativas de desinvestimento, incluindo a venda de usinas e outros ativos.
No terceiro trimestre da safra 2025/2026, porém, veio outra pancada: a companhia reportou prejuízo de R$ 15,65 bilhões. A dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões no 3T25 para R$ 55,3 bilhões no 3T26, enquanto a alavancagem medida pela relação dívida líquida/Ebitda passou de 3 vezes para 5,3 vezes no mesmo intervalo.
O cenário desencadeou rumores, negociações e promessas de aporte por parte de Cosan e Shell, em discussões que se arrastaram por semanas. Até que, em 11 de março, a Raízen protocolou um pedido de recuperação extrajudicial para suspender, por 90 dias, o pagamento de dívidas que somam cerca de R$ 65 bilhões.
O movimento levou à exclusão da companhia do Ibovespa e outros índices da bolsa brasileira.
Propostas de reestruturação
O início da recuperação extrajudicial abriu espaço para uma série de propostas e discussões envolvendo a reestruturação financeira da Raízen. Em 6 de abril, o Valor Econômico noticiou que credores rejeitaram a proposta de converter 45% da dívida — cerca de R$ 29 bilhões — em ações. O mecanismo poderia abrir caminho para aproximadamente R$ 10 bilhões em vendas de ativos.
Segundo a publicação, alguns credores chegaram a enviar uma carta aos acionistas Cosan e Shell pedindo um reequilíbrio da proposta de reestruturação.
Pouco mais de uma semana depois, em 14 de abril, credores e detentores de títulos da Raízen apresentaram uma contraproposta para converter 45% da dívida em troca de 90% de participação na empresa, segundo a Bloomberg News.
Em 20 de abril, a Bloomberg informou que bancos credores apresentaram uma nova proposta de reestruturação. O plano previa que 30% dos recursos obtidos com a venda de ativos da companhia na Argentina fossem destinados à redução da dívida.
Entre as exigências dos credores também estava a saída de Rubens Ometto da presidência do conselho da Raízen — pedido já defendido anteriormente pelos detentores de títulos.
Enquanto os bondholders solicitaram um aporte de R$ 8 bilhões, a proposta dos bancos não especificava um valor para capitalização.
Após a repercussão das negociações, a Raízen informou à B3 que mantinha conversas com credores e demais partes interessadas para construir uma solução consensual para a reestruturação financeira, mas ressaltou que ainda não havia definição sobre os próximos passos.
Já em 26 de abril, a Bloomberg News informou que a companhia encaminhou uma proposta alternativa aos credores enquanto tentava negociar os termos da reestruturação dos R$ 65 bilhões em dívidas.
Segundo a Bloomberg, a Raízen comunicou aos credores que negociava uma captação entre R$ 2,5 bilhões e R$ 5 bilhões em novos recursos. O montante se somaria aos R$ 4 bilhões em financiamento já comprometidos por Shell e Rubens Ometto.
Ainda assim, os credores não receberam sinalização positiva da companhia sobre mudanças no comando do conselho. De acordo com a Bloomberg, Rubens Ometto resistia em deixar a presidência do colegiado.
No dia 28 de abril, um grupo de detentores de títulos de renda fixa da Raízen contratou a consultoria financeira Journey Capital e o escritório Felsberg Advogados para representá-los no processo de reestruturação da companhia, segundo a Reuters.
De acordo com fontes ouvidas pela Reuters, o grupo concentra cerca de R$ 14 bilhões em títulos emitidos pela Raízen. A Journey confirmou a contratação, enquanto Felsberg e Raízen preferiram não comentar.