Selic a 7,5% para conter a dívida? Proposta de Lara Resende ganha apoio no PT e provoca reação
Uma proposta para reduzir os juros e frear o crescimento da dívida pública colocou o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, no centro do debate sobre os rumos da política econômica. As ideias ganharam apoio de integrantes do PT e repercutiram após notícias de um possível encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O debate reúne duas interpretações sobre o desequilíbrio fiscal. Para Lara Resende, os juros elevados são o principal motor da dívida; para os críticos, reduzi-los sem recuperar a confiança nas contas públicas pode pressionar o dólar, a inflação e o custo de financiamento do Tesouro.
O que Lara Resende propõe
No artigo Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos, publicado em 25 de setembro, o economista defende que o Banco Central anuncie uma trajetória de redução da Selic para aproximadamente 7,5% ao ano em cerca de 12 meses.
O plano prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por estabelecer metas coordenadas para quatro a cinco anos. A taxa básica caminharia posteriormente para uma faixa entre 3% e 5,5% ao ano, com exceções autorizadas pelo conselho.
A proposta também contempla intervenções com reservas internacionais para suavizar uma eventual desvalorização do real provocada pela queda dos juros.
Por que ele responsabiliza os juros?
O argumento parte da diferença entre dois resultados das contas públicas. O primário compara receitas e despesas sem considerar juros. O nominal inclui essa conta.
Na avaliação de Lara Resende, o resultado primário relativamente próximo do equilíbrio contrasta com um déficit nominal elevado, puxado pelos encargos da dívida.
“A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida”, escreve.
Embora reconheça problemas na qualidade e na distribuição dos gastos públicos, o economista atribui à política de juros o papel central na deterioração das contas.
Lara Resende sustenta que a redução da Selic diminuiria o custo de carregamento da dívida e ajudaria a recuperar a confiança na capacidade de pagamento do Estado.
“A redução do juro básico é a solução do desequilíbrio fiscal”, afirma no artigo.
Sua tese também questiona a interpretação convencional sobre a política monetária. Ele argumenta que juros menores podem favorecer a redução da inflação no longo prazo, embora reconheça riscos de pressão cambial durante a transição.
Onde está a controvérsia
Reconhecer o peso dos juros na dívida não significa concordar com a solução proposta. Economistas e gestores ouvidos pela Folha de S.Paulo argumentam que a fragilidade fiscal contribui para manter as taxas elevadas — e que uma redução por determinação política poderia agravar a desconfiança.
Nesse cenário, o BC poderia baixar a Selic enquanto investidores exigiriam remuneração maior para comprar títulos de longo prazo. A queda da taxa básica, portanto, não garantiria uma redução equivalente do custo de financiamento público.
Os críticos também apontam riscos para a autonomia do Banco Central e questionam a capacidade das reservas internacionais de conter uma pressão persistente sobre o câmbio.
Apoio político e negativa da Fazenda
A repercussão ganhou força após Gleisi Hoffmann elogiar publicamente o artigo. Segundo reportagem com informações do Estadão Conteúdo, ela manifestou apoio às ideias do economista em meio às críticas à política fiscal brasileira.
A discussão ocorre durante as expectativas sobre a composição da equipe econômica do próximo mandato. Apesar da repercussão, Dario Durigan afirmou que nenhuma proposta de tabelamento dos juros está na mesa de Lula e negou uma reunião agendada com Lara Resende.
*Com informações da Folha de S. Paulo