Argentina x Inglaterra: entenda a rivalidade que envolve Guerra das Malvinas, Maradona e Beckham
Nesta quarta-feira (15), Argentina e Inglaterra se enfrentam pelas semifinais da Copa do Mundo. O que pode parecer “só um jogo de futebol”, como descreveu o treinador argentino Lionel Scaloni, é na verdade um confronto histórico marcado por polêmicas, tensões dentro e fora de campo e até uma rivalidade de guerra.
O primeiro encontro entre as duas seleções em um mundial veio na fase de grupos da Copa de 1962, quando a seleção de Bob Charlton abriu vantagem de 3 gols, contra 1 do time argentino.
Mas a rivalidade no futebol chegou, de fato, em 1966, com o gol de Geoff Hurst, que a imprensa argentina declarou “o roubo do século”, afirmando que o jogador estava impedido. Também foi esse o jogo que inspirou a criação dos cartões amarelo e vermelho no futebol, após o árbitro alemão Rudolf Kreitlein expulsar Antonio Rattín, capitão argentino.
Na ocasião, o jogador e o juiz se desentenderam após a marcação de uma falta. A barreira linguística foi um fator crucial na confusão. Rattín resistiu a deixar o campo, saindo apenas pela intervenção de Ken Aston, chefe de arbitragem do campeonato, sob vaias e arremessos de objetos por torcedores ingleses.
Aston, que já havia presenciado cenas de violência no futebol ao apitar a partida entre Chile e Itália em 1962, conhecida como “A Batalha de Santiago”, foi o criador dos cartões. Ele afirmava ter usado como referência as cores do semáforo de trânsito.
Malvinas: quando a guerra saiu dos gramados
Fora de campo, a rivalidade entre Reino Unido e Argentina se intensificou em 1982, com a Guerra das Malvinas. Sob o comando do ditador Leopoldo Galtieri, tropas argentinas ocuparam as ilhas e tomaram o controle da capital.
O governo britânico, comandado por Margaret Thatcher, reagiu enviando 27 mil soldados e 111 navios de guerra, com o apoio dos Estados Unidos. Os confrontos levaram 74 dias, com a morte de 649 militares argentinos e 255 militares britânicos.
A “Mão de Deus” e o gol do século
Quatro anos depois, em 1986, a revanche do conflito ocorreu no futebol, nas quartas-de-final da Copa do Mundo no México.
Logo no início do segundo tempo, Diego Maradona, abriu o placar com um gol para lá de polêmico. Maradona desviou a bola com a mão esquerda para vencer o goleiro Peter Shilton. O árbitro Ali Bin Nasser não viu a irregularidade. Ao final da partida, o ídolo albiceleste declarou: “Fiz [o gol] com a cabeça de Maradona, mas com a Mão de Deus”.
A partida ainda ficou marcada por outro lance icônico, conhecido pelos argentinos como “o gol do século”. Maradona recebeu a bola no meio de campo, arrancou e driblou toda a defesa da Inglaterra para marcar o segundo gol para a Argentina. Gary Lineker, atacante britânico ainda tentou recuperar, mas a vitória ficou com os Hermanos.
Beckham, o vilão que virou herói
A batalha entre as duas seleções ganhou um novo capítulo 12 anos depois, nas oitavas-de-final na Copa do Mundo de 1998.
O jogo estava empatado em dois a dois, até o segundo tempo, quando o David Beckham recebeu um cartão vermelho após uma falta contra Diego Simeone. O jogo seguiu para os pênaltis, com vitória de 4 a 3 para a Argentina. Beckham ficou marcado por esse episódio e declarou ter recebido ameaças que o culpavam pela derrota, na época.
A redenção do jogador e de toda a seleção inglesa veio na Copa seguinte, em 2002, ainda na fase de grupos, quando Beckham foi o responsável pelo único gol da disputa.
O encontro mais recente da Inglaterra e Argentina no futebol aconteceu em 2005, com mais uma vitória de virada dos europeus, 3 a 2, com gols de Wayne Rooney e Michael Owen.
O que está em jogo além da vaga na final?
Agora, vinte e um anos depois, as seleções seguem como rivais históricas, em um jogo valendo a vaga na final da Copa.
Ao vencer as quartas-de-final contra a Suíça, os argentinos relembraram a trajetória contra os britânicos.
Em vídeo publicado pelo zagueiro Nicolás Otamendi nas redes sociais, os jogadores comemoraram cantando a música “La Cuarta Estrella”, com o trecho “Pelas Malvinas, pelo Diego (Maradona) e pela última do Leo (Messi)”.
A disputa vai contar, inclusive, com um amuleto da sorte. A Associação de Futebol Argentino (AFA) conseguiu aprovação da Fifa para entrar em campo com a segunda camisa, de cor azul escuro, ao invés da clássica listrada de branco e azul celeste.
O uniforme se tornou símbolo de sorte, após ser usado por Maradona no jogo histórico da Copa de 1986.
A Argentina busca sustentar o título de campeã, mantendo a taça em casa após a vitória em 2022. Já a Inglaterra corre atrás da sua segunda vitória mundial, desde 1966.
Para garantir a segurança, o Departamento de Polícia de Atlanta afirmou ter reforçado a equipe e adotado recursos adicionais. A partida começa às 16 horas de quarta-feira, no horário de Brasília.
*Com supervisão de Ricardo Gozzi