Banco do Brasil (BBAS3): O alívio para a carteira agro, segundo diretor
O Banco do Brasil (BBAS3), apesar do ceticismo de parte do mercado, começa a colher boas notícias após ajustes na sua carteira de agronegócio, um dos principais detratores dos últimos resultados.
Segundo o Felipe Prince, vice-presidente de controles internos e gestão de riscos, a maior seletividade e o uso de garantias para empréstimos já está ajudando a diminuir os calotes.
“Observamos um resultado bem mais significativo em relação à inadimplência, mostrando que a mudança na forma de atuação, com maior foco em garantias, tem surtido efeito”, disse em evento para investidores em São Paulo.
Prince nota que a garantia real traz, para a inadimplência, um efeito disciplinador, “inclusive reduzindo o risco moral, já que, em caso de não pagamento, o cliente pode perder o bem dado em garantia”.
“Na safra 2024/2025, tínhamos 31% das operações com garantia real. Nesta safra, considerando as contratações a partir de 1º de julho do ano passado, esse percentual subiu para 69%”, destaca.
E tem mais: ao olhar a alienação fiduciária — que é uma forma mais rápida de obtenção de garantia —, o banco avançou de 3% para 63%.
Mesmo assim, o diretor faz um alerta: em abril, a maior parte da carteira contratada é sem essas garantias, o que mantém os números próximos do observado nos primeiros três meses de 2026.
Ou seja, a solução no agro não irá acontecer do dia para noite. Isso porque o banco carrega os empréstimos das safras passadas. “O ano possui uma inércia que ainda se manifesta nos números”, destaca.
Mais cedo, o CFO, Giovanne Tobias, disse que a recuperação vai acontecer e ela tende a ser em U ou em W. “Ainda não sabemos. Eu suspeito que possa ser mais uma recuperação em W”.
“Ainda estamos acompanhando como as renegociações dentro desse ciclo vão se comportar, bem como a nova safra que está sendo formada”, afirmou em evento com investidores em São Paulo.
Tobias classificou ainda o momento atual do BB como o mais desafiador da história nos últimos 20 anos, especialmente diante do que aconteceu em termos de risco de crédito no ano passado.
Banco do Brasil: Efeitos da guerra e El Ninõ
Outra preocupação do mercado é a guerra no Irã, que fez o petróleo disparar e pode trazer impactos para os insumos agrícolas. Apesar disso, Prince diz que os efeitos não serão sentidos agora.
“No período em que a guerra começou, os insumos já estavam nas fazendas, e a produção atual se encerra agora, no fim da safra 2025/2026. Portanto, não há impacto imediato no custo de produção dos nossos clientes”, afirma.
Por outro lado, diz, pode haver efeito na próxima safra. “E é aí que entra a importância da parceria do Banco do Brasil junto aos produtores e clientes”.
Desde janeiro, o banco estrutura uma linha de pré-custeio com custo mais atrativo. “Nela, oferecemos ao produtor a possibilidade de antecipar a compra de insumos e aproveitar oportunidades de mercado, inclusive com desconto e taxas mais competitivas”.
Prince recorda que após o início da guerra, o custo de insumos — especialmente fertilizantes — chegou a subir cerca de 80%.
“Precisamos monitorar diariamente os impactos nas cadeias produtivas. O grosso das compras de insumos ocorre entre junho e julho. Se essa pressão persistir até lá, é natural que haja compressão de margens — e isso será incorporado ao nosso modelo de concessão para a próxima safra”.
Esse, segundo Prince, é inclusive, um dos argumentos para clientes sobre a importância de manter as operações em dia, sem recorrer a recuperações judiciais.
Na visão de Gilson Bittencourt, diretor de agronegócio do Banco do Brasil, qualquer afirmação categórica neste momento — como dizer que as margens serão comprimidas ou que os produtores terão dificuldades — ainda é especulativa.
“Na prática, vemos grande volatilidade: o petróleo oscila entre 80, 95 e 110 dólares. Se a guerra continuar até junho a setembro, com eventuais restrições logísticas, é possível que haja impacto — e estamos nos preparando para isso”, diz.
Da mesma forma, o banco acompanha o El Niño. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) indica que há 80% de chance de o fenômeno climático acontecer entre junho e agosto, com provável duração até janeiro.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) também divulgou uma nota técnica sobre suas possíveis consequências para o Brasil a partir do segundo semestre de 2026.
Os impactos variam significativamente entre inverno e verão, mas as temperaturas tendem a ficar acima da média; as chuvas geralmente frustram no Nordeste e ficam acima do normal no Sul. Na Argentina, o fenômeno também implica volumes mais elevados de precipitação.
“Historicamente, mesmo em anos de El Niño mais intenso, a produtividade média brasileira se manteve próxima dos padrões históricos. O que muda é a distribuição dos impactos: algumas regiões ou culturas podem enfrentar mais dificuldades do que outras”, destaca Bittencourt.