EUA devem aumentar mistura de etanol na gasolina e Brasil pode ganhar mercado de 8 bilhões de litros, afirma Plinio Nastari
Um mercado anual de 8 bilhões de litros de etanol pode ser aberto com o aumento da mistura do biocombustível à gasolina de 10% (E10) para 15% (E15) nos Estados Unidos. E o Brasil é um dos poucos países capazes de aproveitar essa demanda extra criada pelo E15, afirmou ao Money Times o presidente da Datagro Consultoria, Plinio Nastari.
Na semana passada, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou projeto que autoriza a mistura de 15% do etanol à gasolina no ano inteiro. A mistura é de 10% atualmente, mas em 2025 a média nacional foi de 10,51%, pois alguns estados do Meio-Oeste autorizaram o E15 durante alguns meses. Durante a tramitação do projeto, que agora segue para o Senado, o E15 foi testado nacionalmente durante 20 dias.
“O que se pretende agora é autorizar o E15 para todo o país durante o ano inteiro. O presidente Donald Trump é a favor dessa autorização e, como o Senado tem maioria Republicana (partido de Trump), provavelmente vai ser aprovado”, disse Nastari. Como o etanol é produzido de milho nos Estados Unidos, Trump teria dividendos políticos com os agricultores locais e com indústrias do setor.
Nas contas de Nastari, o mercado de até 8 bilhões de litros seria aberto no curto prazo. O E15 deve elevar o consumo anual do etanol de 18 bilhões a 19 bilhões de litros naquele país. Os Estados Unidos têm um excedente do biocombustível de 9 bilhões a 10 bilhões de litros e essa oferta, normalmente exportada, seria destinada ao mercado local. O consumo interno com o E15 sairia de 52 bilhões a 53 bilhões para até 62 bilhões de litros, que é a produção anual norte-americana.
“O excedente vai zerar e um mercado adicional será criado, que pode ser abastecido pela produção local ou importação. A tendência é que cresça a produção, mas só de absorver a exportação, um mercado de pelo menos 8 bilhões de litros será aberto e o Brasil pode se aproveitar disso, pois tem oferta”, afirmou Nastari.
A oportunidade para os produtores brasileiros coincide com um cenário de expansão na produção interna acima da nossa demanda. Em 2026 a oferta de etanol no Brasil pode aumentar 5 bilhões de litros, com o início de operação de unidades do biocombustível de milho na nova fronteira do Centro-Oeste e também com o aumento da oferta do etanol de cana nas regiões tradicionais.
O excedente anual do Brasil, que produz 36,8 bilhões e consome 33 bilhões de litros, ficará próximo a 4 bilhões de litros. Essa oferta maior que a demanda deve disparar ao longo dos anos, com o início de operação das novas fábricas de etanol de milho. A estimativa da Datagro é que a produção do biocombustível a partir do cereal salte mais de 100%, de 12 bilhões de litros para 24,7 bilhões de litros anuais até 2034.
Cenário interno ruim mesmo com guerra
A guerra entre Estados Unidos e Irã, que levou o petróleo para acima de US$ 100 o barril e pressionou o preço da gasolina no Brasil, poderia ser uma oportunidade para etanol ganhar espaço no mercado local. Mas não foi o que aconteceu. A produção do biocombustível aumentou em 2026 e, desde o início do ano, o preço do etanol ao produtor recuou quase 25% no mercado paulista.
“Só que o preço na bomba dos postos caiu apenas 5%. Ou seja, a distribuição e a revenda têm capturando a queda ao produtor e não repassam ao consumidor”, disse Nastari. Outros pontos negativos para o etanol no mercado interno, segundo o presidente da Datagro, são as ações da Petrobras para segurar repasses da alta da gasolina e do governo federal em subsidiar o combustível derivado do petróleo.
“O consumo e os preços do etanol deveriam ser maiores, mas as refinarias não repassam para a gasolina defasagem que é de 48% sobre a paridade de importação e o governo ainda concede subsídio de R$ 0,89 centavos por litro para evitar aumento nos preços”, afirmou Nastari.