Como o Itaú (ITUB4) se blinda de calotes? CEO revela fórmula (e diz o que esperar daqui para frente)
O Itaú (ITUB4) reportou, mais uma vez, resultados em linha com as expectativas, mesmo em um cenário mais difícil.
Além dos juros altos, na casa dos 15%, o primeiro trimestre costuma ser mais complicado devido à sazonalidade. Isso porque é um trimestre com menos dias, além de um período em que os consumidores estão colocando as finanças em ordem.
Não bastasse o lucro de R$ 12,3 bilhões e ROE (retorno sobre o patrimônio líquido, em português) de quase 25%, o banco também conseguiu controlar a inadimplência. Como base de comparação, o Santander viu o seu índice subir tanto no índice longo (acima de 90 dias) quanto no curto (entre 15 e 90 dias).
Para o CEO Milton Maluhy, a fórmula do sucesso é simples: disciplina. Olhar para o longo prazo também ajuda, especialmente no Brasil, em que há um cenário mais volátil.
“A gente tem que observar o cliente em ciclos mais longos, porque você pode estar diante de um cenário muito favorável, mas a gente sabe que existem ciclos macroeconômicos que geram ou trazem maiores desafios para a população”, diz.
O CEO explica ainda que essa modelagem de riscos passa por ter uma estrutura de dados centralizada e modelos que vêm sendo trabalhados em inteligência artificial há muitos anos.
“O segredo é definir muito bem uma estratégia, ter essa disciplina de alocação de capital, ter gestão de risco como parte do DNA da instituição. Isso está impregnado em todos os níveis, do nível da concessão até as áreas de controle de risco”.
Nenhuma ruptura
Olhando para frente, Maluhy não vê nenhuma ruptura no ciclo de crédito. A expectativa é que o banco cresça a carteira em 9,5% em 2026. No primeiro trimestre, entregou crescimento de 9%, para R$ 1,4 trilhão.
Mesmo com a cautela costumeira, o CEO disse que a expectativa para os próximos trimestres é de uma relativa estabilidade nos indicadores, com exceção de pequenas e médias empresas.
“É mais um efeito simbólico, mecânico, de um aumento de 10 a 20 pontos-base, que é irrelevante, mas muito a ver com os programas governamentais que deixaram de ter período de carência”.
No caso das grandes empresas, onde há sinais de atenção, com empresas pedindo recuperações judiciais ou extrajudiciais, o CEO diz que são casos isolados, que sempre podem ter uma discussão adicional.
“Mas o nosso portfólio, com todos os eventos conhecidos pelo mercado, já tem provisões mais do que adequadas”.
Desafios globais
Mesmo assim, Maluhy não deixou de destacar que o cenário é de cautela, muito em função da guerra do Irã, que bagunçou os preços do petróleo. O temor é de que o Banco Central seja obrigado a manter os juros elevados por mais tempo.
O CEO diz que a dinâmica do mercado de capitais, por exemplo, piorou em relação ao ano passado. Neste ano, inclusive, era esperada uma nova janela de IPOs (oferta pública de ações), que não se abriu até agora.
“O mercado, sem dúvida, está mais cauteloso, dado o nível de juros, e a gente vai continuar com a nossa disciplina e olhar de longo prazo a alocação de capital e gestão tempestiva de risco”.
Mas, acrescentou, o guidance para o crescimento da carteira de crédito, dado no início do ano, está mantido. “O balanço do banco está muito protegido em todas as linhas”, disse, acrescentando que o Itaú “continua muito confortável com a qualidade, mas atento, sem dúvida, aos desafios do cenário”.
De acordo com o diretor financeiro do banco, Gabriel Amado de Moura, o endividamento dos clientes pessoa física do Itaú é bastante menor do que o banco tem visto na indústria como um todo.
Maluhy Filho afirmou que o banco trabalhou ativamente na construção do Novo Desenrola, junto com o Ministério da Fazenda, via Febraban, e que já está operando dentro do programa, mas citou que o público-alvo, proporcionalmente ao portfólio do Itaú, é um pouco menor do que se observa possivelmente em outras instituições na indústria.
ROE acima de 20%
Na teleconferência com analistas, Maluhy Filho ressaltou que o guidance dado no início do ano tem implícita uma rentabilidade acima de 20% e acrescentou que o banco tem conseguido entregar esse ROE recorrentemente e deve manter o ritmo.
O executivo afirmou que, com as informações que tem atualmente, não antevê nenhum problema em relação à rentabilidade que o Itaú vem registrando.
“Vamos continuar entregando uma rentabilidade importante ao longo dos próximos trimestres”, afirmou, acrescentando que pode haver alguma volatilidade, mas reforçando que está confortável com o guidance colocado.
O retorno sobre o patrimônio (ROE) líquido médio consolidado ficou em 24,8% no primeiro trimestre, ante 22,5% um ano antes e 24,4% no quarto trimestre de 2025.
De acordo com o diretor financeiro do banco, se considerado o capital mínimo (11,5%) que o banco tem aprovado para o apetite de risco, “que é mais comparável com o que se vê no mercado”, o ROE seria de 25,8% no consolidado e de 27,4% para a operação do Brasil.
Com Reuters