Economia perde força, emprego resiste: os dados que vão pesar na decisão do Copom
A inflação perdeu força no mês, mas o mercado de trabalho continua aquecido e a atividade econômica apresenta sinais mistos. É com esse conjunto de indicadores que o Comitê de Política Monetária (Copom) chega à decisão desta quarta-feira (4), quando define o futuro da Selic, atualmente em 13,75% ao ano.
Os números ajudam a dimensionar o desafio do Banco Central, que terá que avaliar se o processo de desaceleração da economia e dos preços permite avançar com a redução dos juros. Entre os indicadores reunidos, a surpresa favorável da inflação divide espaço com desemprego baixo, crescimento da renda e geração de vagas acima das expectativas.
Inflação desacelera, mas exige atenção
O IPCA-15 de outubro trouxe um alívio para o BC. A prévia da inflação subiu 0,32%, abaixo dos 0,44% esperados pelo mercado e dos 0,70% registrados em setembro. No acumulado em 12 meses, porém, o índice acelerou de 4,47% para 4,62%.
A composição também mostrou movimentos diferentes. As passagens aéreas caíram 9,24% e a energia elétrica recuou 0,89%, ajudando a conter o resultado. Na outra direção, a alimentação no domicílio avançou 1,01%, enquanto os combustíveis subiram 1,20%. Oito dos nove grupos pesquisados registraram aumento de preços.
A leitura, portanto, combina uma surpresa positiva no mês com pressões que continuam no radar. Vale lembrar que a meta de inflação é acompanhada pelo IPCA cheio; o IPCA-15 oferece uma sinalização antecipada do comportamento dos preços.
Atividade cresce no mês, mas recua no trimestre
Na atividade, o IBC-Br de agosto também surpreendeu, desta vez para cima. O indicador do Banco Central, conhecido como uma prévia do PIB, avançou 0,3%, ante expectativa de alta de 0,12%.
A recuperação mensal, contudo, não eliminou a perda de ritmo observada em uma janela mais ampla. No trimestre encerrado em agosto, o índice caiu 0,6% em relação ao trimestre terminado em maio. Em 12 meses, acumulou crescimento de 1,6%.
Esses resultados sugerem uma economia que ainda consegue crescer de um mês para outro, mas encontra dificuldades para sustentar a expansão. Para a decisão dos juros, essa diferença importa: uma retomada pontual não significa, necessariamente, uma reversão da desaceleração.
Desemprego baixo e renda em alta
O mercado de trabalho oferece outro elemento para a avaliação do Copom. A taxa de desemprego ficou em 5,2% no trimestre encerrado em setembro, em linha com as expectativas e no menor nível para esse período da série histórica, iniciada em 2012. No trimestre terminado em junho, estava em 5,4%.
A renda também avançou na comparação anual. O rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.790, com alta de 3,6%, enquanto a massa de rendimentos cresceu 4,7%, para R$ 387,5 bilhões.
Para a política monetária, a combinação merece atenção porque emprego e renda sustentam o consumo. Isso pode tornar mais lenta a redução das pressões sobre os preços, especialmente nos serviços — embora o desemprego baixo, isoladamente, não determine a trajetória da inflação.
Caged também mostrou contratações acima do esperado
No emprego formal, o resultado de agosto do Caged apontou a criação líquida de 165.827 vagas com carteira assinada, acima das 97.826 previstas pelo mercado. O setor de serviços respondeu pela maior parte do saldo, com 110.346 postos.
O dado reforça o retrato de resistência do emprego, ainda que as pesquisas tenham abrangências diferentes: o Caged acompanha as movimentações do trabalho formal, enquanto a Pnad Contínua também contempla outras formas de ocupação.
A combinação dos indicadores deixa uma tarefa para o Copom que é pesar o alívio recente da inflação e a fraqueza da atividade no trimestre diante de um mercado de trabalho que continua sustentando a renda e o consumo.