Gil Herrera: Finanças tradicionais e Web 3.0 já estão convergindo — mas qual o caminho para o mercado financeiro global?
Por Gil Herrera*. Durante anos, a relação entre o sistema financeiro tradicional e o universo das criptomoedas foi marcada por desconfiança, narrativas paralelas e competição direta. No entanto, o que vimos nos últimos meses é uma mudança estrutural: uma verdadeira integração, que avançou e se tornou inevitável, com um caminho claro em direção a Web 3.0.
O marco mais simbólico dessa transformação veio recentemente com a Nasdaq. Em março de 2026, a SEC, a CVM dos Estados Unidos, aprovou a proposta da bolsa para negociar e liquidar valores mobiliários tokenizados diretamente em blockchain.
Trata-se da primeira integração formal da tecnologia blockchain no núcleo do mercado de ações dos Estados Unidos. Na prática, isso significa que ações e ETFs de grandes empresas poderão existir como tokens digitais, mantendo equivalência total com seus ativos tradicionais.
Outro sinal claro dessa transformação vem do fato de que não apenas a Nasdaq está avançando nessa direção. A New York Stock Exchange (NYSE) também vem desenvolvendo iniciativas para negociação e liquidação on-chain de valores mobiliários tokenizados, em parceria com atores do mercado, com o objetivo de integrar a tecnologia blockchain à infraestrutura tradicional.
Quando as duas maiores bolsas do mundo passam a explorar, quase em paralelo, modelos baseados em tokenização de ativos e liquidação em blockchain, o sinal é difícil de ignorar. Não se trata mais de experimentação isolada, mas de um movimento coordenado de modernização da infraestrutura financeira global.
Tokenização: Entrada dos institucionais na Web 3.0
Esse movimento não é isolado — é o ponto de partida de uma tendência mais ampla.
Quando instituições como Nasdaq e NYSE dão esse passo, elas estabelecem um novo padrão. É razoável esperar que outras bolsas globais — como Madrid, Frankfurt e Paris — acompanhem esse movimento e, gradualmente, avancem em direções semelhantes nos próximos anos, à medida que a infraestrutura regulatória evolui.
Mas além do simbolismo institucional, é importante entender o impacto prático dessa integração.
Do ponto de vista de eficiência, a tokenização reduz significativamente fricções operacionais. Processos que antes levavam dias podem ser liquidados quase instantaneamente. Custos intermediários tendem a cair. A transparência aumenta. E a acessibilidade se expande.
Esse último ponto é particularmente relevante.
Hoje, já existem produtos que oferecem exposição tokenizada a ações e ETFs — ainda que não sejam emitidos diretamente pelas empresas subjacentes. Na prática, replicam o desempenho desses ativos e eliminam barreiras, permitindo que investidores acessem mercados que antes estavam fora de alcance.
Isso abre uma nova porta para o investidor global. Pela primeira vez, torna-se simples ter exposição a empresas como Google, Meta, Microsoft, Nvidia e outras, sem a necessidade de abrir conta em uma corretora internacional, lidar com burocracia regulatória complexa ou arcar com custos elevados de intermediação.
Para além do mercado tradicional
Esse é um avanço concreto em termos de democratização financeira.
Em algumas plataformas, como a Bitget, o volume negociado de ativos não-cripto — especialmente produtos tokenizados — já representa cerca de 40% do total.
Ao mesmo tempo, exchanges que nasceram no universo cripto já começam a refletir essa tendência em seus próprios números. Isso mostra que a demanda não é apenas teórica: ela já existe e está crescendo rapidamente.
Outro elemento fundamental nessa convergência entre finanças tradicionais e Web 3.0 é o papel das stablecoins. Ativos como Tether (USDT) e USD Coin (USDC) já funcionam, na prática, como uma extensão digital do dólar no ecossistema global.
Mais do que um instrumento cripto, as stablecoins se tornaram uma infraestrutura paralela de liquidação: rápida, global e disponível 24/7.
Em um cenário onde ativos tradicionais começam a ser tokenizados e negociados em blockchain, faz sentido que a própria moeda de liquidação também evolua na mesma direção.
Nesse contexto, o chamado “dólar digital” não é mais uma abstração futura. Ele já existe em circulação, sustentando grande parte da liquidez global dentro e fora do ecossistema cripto. Sua importância cresce justamente porque ele atua como ponte entre dois mundos: o sistema financeiro tradicional e as infraestruturas descentralizadas.
Sem stablecoins, a tokenização de ativos teria uma limitação estrutural relevante: a ausência de um meio de troca nativo, eficiente e global. Com elas, essa barreira praticamente desaparece.
O que estamos presenciando não é apenas a adoção de uma nova tecnologia, mas a evolução de um modelo de mercado.
A Web 3.0 não está substituindo o sistema financeiro tradicional — está se integrando a ele, modernizando suas infraestruturas e expandindo seu alcance. E o sistema tradicional, por sua vez, está reconhecendo que a inovação trazida pelo blockchain não é uma ameaça, mas uma oportunidade.
O resultado é um novo paradigma: mais eficiente, mais acessível e mais global.
A integração entre finanças tradicionais e Web 3.0 não é mais uma tendência futura. É uma realidade em construção — e que já começou a transformar a forma como o mundo investe.
*Gil Herrera é diretor de estratégia e operações da Bitget para a América Latina