Milhões de reais envolvidos e milhares de reais na conta; salário de ministro do STF contrasta com glamour do Caso Master
Milhões de reais envolvidos, festas nababescas regadas a uísque Macallan. A rede de relações pessoais que Daniel Vorcaro, do Banco Master, criou antes de ser preso envolve funcionários públicos de todos os elos da cadeia hierárquica e traz à tona, novamente, a polêmica sobre se a carreira como servidor estatal vale à pena.
No foco da crise desta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) é a instituição cujos salários dos ministros representam o teto do funcionalismo público no Brasil. Um valor bruto de R$ 46.366,19 mensais, mas que pode chegar a R$ 18,8 mil com descontos. Foi o que recebeu, segundo dados do Portal da Transparência, o ministro André Mendonça.
Esse valor líquido representa pouco mais de seis garrafas de um The Macallan 18 anos Double Cask, a um custo médio de R$ 3 mil, e cerca de um terço de um The Macallan 30 anos, produzido em 2018, que sai por R$ 58 mil, mas melhores lojas do ramo. É bem menor do que os 2,28 milhões de libras esterlinas, ou R$ 15,7 milhões em valores atualizados, pagos em 2023 por uma garrafa do uísque destilado em 1926, em um leilão da Sotheby’s, um recorde para a marca.
Relator do Caso Master o STF, Mendonça é criticado por ter adotado práticas capazes de anular todo o processo, ao exigir, por exemplo, que a Polícia Federal (PF) realizasse relatórios sobre o conteúdo dos celulares de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Dados que foram revelados pelo Estadão e esgarçaram a crise interna no Supremo e colocaram em lados opostos Mendonça e Alexandre de Moraes.
Na semana passada, Mendonça afirmou, em evento da Associação Nacional de Magistrados Evangélicos, que a remuneração mensal de um ministro do Supremo não permite uma “vida nababesca“, colocando o magistrado em uma “classe média de vida, uma classe B” e exigindo que ainda precise “controlar a despesa no dia a dia”, apesar do orçamento garantido para assessoria técnica e segurança.
Para quem enxerga o STF como um ativo de poder ou ganhos financeiros, desde que as práticas sejam legais e morais, o ministro expôs o lado oculto do topo. Ele revelou que os seus dois primeiros anos na Corte “foram períodos de muita infelicidade”, mostrando que o custo da visibilidade e da pressão pública supera qualquer ilusão de prestígio profissional.
“Se o seu propósito for ganhar dinheiro ou ter poder, ouçam a experiência de quem poderia dizer que chegou ao ápice da justiça: você vai se frustrar”, disse Mendonça, enfatizando que a estabilidade do cargo não anula a sobrecarga emocional e o impacto direto na rotina familiar de um integrante do tribunal.
“Queiram servir à justiça no Judiciário, no Ministério Público ou na advocacia. Mas o eixo do propósito não pode ser o dinheiro. O teto do STF garante uma condição de vida média digna, mas o ônus do cargo é muito maior do que qualquer outra coisa”, afirmou.
O funil de entrada e as barreiras do mercado político
Diferente de carreiras reguladas apenas por concursos ou métricas corporativas, o acesso às 11 cadeiras da Corte exige passar por um rigoroso filtro político. Por integrar a linha direta de substituição da Presidência da República, o cargo é privativo de brasileiro nato, exige idade entre 35 e 70 anos, notável saber jurídico e reputação inquestionável.
O processo começa com a escolha do Presidente da República e segue para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que precisa sabatinar e aprovar a indicação. A etapa final depende do plenário principal da Casa, onde o indicado necessita do voto favorável de pelo menos 41 dos 81 senadores para assumir a vaga.
*Sob orientação de Gustavo Porto