Oncoclínicas (ONCO3) consegue liminar contra vencimento de dívidas, em meio à pressão financeira; entenda
A Oncoclínicas do Brasil (ONCO3) anunciou, na manhã desta sexta-feira (17), que obteve uma liminar (isto é, uma decisão provisória) no Tribunal de Justiça de São Paulo para suspender os efeitos de toda e qualquer cláusula contratual que imponha o vencimento antecipado de dívidas.
Segundo comunicado divulgado ao mercado, a decisão da Justiça atende a pedidos feitos em uma ação de tutela cautelar em caráter antecedente formulada pela companhia e suas afiliadas.
A medida também interrompe a exigibilidade de obrigações relacionadas a instrumentos financeiros e instituições credoras envolvidas.
Na prática, com a liminar, que funciona como uma espécie de “pausa”, dando tempo para a empresa reorganizar sua estrutura de capital, a Oncoclínicas evita, ao menos por ora, um possível efeito cascata de cobranças.
Injeção de capital
Na véspera (16), a empresa já havia comunicado que seu conselho de administração aprovou uma proposta apresentada pela MAK Capital e pela Lumina Capital para dar fôlego financeiro às operações.
Em meio a problemas para a compra de medicamentos e atrasos no tratamento de pacientes, a rede de tratamentos oncológicos irá obter um financiamento entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões.
Com esse dinheiro, a companhia poderá realizar a compra de medicamentos da OncoProd, sua principal fornecedora, que vinha limitando as vendas em meio aos problemas de caixa enfrentados pela Oncoclínicas.
A operação será garantida por meio de cessão fiduciária de recebíveis de contratos com operadoras de planos de saúde, hospitais ou seguradoras.
Para atender às condições impostas por MAK e Lumina, o conselho aceitou a renúncia imediata de Bruno Ferrari como membro e vice-presidente do colegiado, e nomeou o indicado pela MAK, Mateus Affonso Bandeira, e o CEO Carlos Gil Ferreira para ocupar as vagas abertas no conselho até a assembleia de acionistas de 30 de abril de 2026.
Na leitura do JP Morgan, embora o custo da dívida dessa operação possa ser elevado (termos não divulgados), ela ainda indica uma potencial capitalização no nível da ONCO3, juntamente com uma reestruturação adicional.
“Além disso, a saída de Bruno Ferrari tende a ser bem recebida pelo mercado, pois promove renovação no conselho e melhorias de governança, especialmente no contexto de um possível novo investidor financeiro, que deve trazer mudanças estratégicas e maior disciplina de capital”, avaliaram os analisas do banco norte-americano, que mantém recomendação underweight (equivalente à venda) para as ações ONCO3.
O que aconteceu com a Oncoclínicas?
Na última semana, a empresa reportou um prejuízo líquido de R$ 1,516 bilhão referente ao quarto trimestre de 2025 (4T25), aumentando as perdas de R$ 759 milhões que já haviam sido registradas no mesmo período de 2024.
A companhia apurou um resultado operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado de R$ 238,8 milhões no período, recuo de 24% sobre o 4T24.
A receita líquida no 4T25 também registrou queda, sendo 12,6% inferior ao mesmo intervalo de 2024, para R$ 1,37 bilhão.
A empresa surgiu com tratamentos oncológicos como o core do negócio. No entanto, após o IPO em 2021, a Oncoclínicas expandiu o foco de clínicas que realizavam o diagnóstico e tratamentos como radioterapia e quimioterapia para uma parte de alta complexidade do tratamento oncológico.
Para fomentar a continuidade da expansão, a estratégia se voltou para aquisições de hospitais. O movimento, contudo, não deu certo, dada a falta de expertise para gerir outras áreas hospitalares além da oncológica.
Como resultado, a companhia, que chegou a adquirir três hospitais gerais e trabalhava na construção de três outros, vem lidando com piora nos resultados, alta alavancagem e elevado consumo de caixa.
Nesse processo, a companhia passou por diversas capitalizações e chegou a estar envolvida com o Banco Master, com parte de caixa aplicado em CDBs do banco de Daniel Vorcaro.
- Aprofunde aqui: Oncoclínicas (ONCO3) detém R$ 478 milhões em CDBs do Banco Master e fecha acordo para resgate (em parcelas); veja detalhes