Trump deixa Pequim com poucas vitórias e muitas palavras calorosas para Xi Jinping
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou a China nesta sexta-feira (15) exaltando acordos comerciais que deram pouco motivo de comemoração aos mercados, enquanto Pequim alertava Washington sobre o manejo inadequado da questão de Taiwan e dizia que a guerra com o Irã jamais deveria ter começado.
A visita de Trump ao principal rival estratégico e econômico dos Estados Unidos, a primeira de um presidente americano desde sua última viagem em 2017, tinha como objetivo alcançar resultados concretos para fortalecer seus índices de aprovação abalados antes das eleições legislativas decisivas de meio de mandato.
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A cúpula foi marcada por grande pompa, desde recepções grandiosas com soldados marchando em passo de ganso até banquetes luxuosos e visitas privadas a um jardim secreto, enquanto Trump repetidamente elogiava seu anfitrião, comentando sobre seu calor humano e sua estatura política.
“Foi uma visita incrível. Acho que muita coisa boa saiu dela”, disse Trump a Xi em sua reunião final no complexo de Zhongnanhai, um antigo jardim imperial que abriga os escritórios dos líderes chineses, antes de jantarem um menu com bolinhos de lagosta e vieiras Kung Pao.
Mas pouco antes da reunião desta sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China divulgou uma declaração contundente expondo sua frustração com os Estados Unidos e com a guerra de Israel contra o Irã.
“Esse conflito, que jamais deveria ter acontecido, não tem razão para continuar”, afirmou o ministério, acrescentando que a China apoiava esforços para alcançar um acordo de paz em uma guerra que afetou severamente o fornecimento de energia e a economia global.
Em Zhongnanhai, Trump disse que os líderes haviam discutido o Irã e que pensavam “de forma muito parecida”, embora Xi não tenha comentado o assunto.
Esperava-se que Trump pressionasse a China a usar sua influência sobre o Irã para fechar um acordo. Mas analistas duvidam que Xi esteja disposto a pressionar Teerã com firmeza ou encerrar o apoio ao seu setor militar, dado o valor do Irã para Pequim como contrapeso estratégico aos Estados Unidos.
Um breve resumo americano das conversas de ontem destacou o que a Casa Branca chamou de desejo compartilhado dos líderes de reabrir o Estreito de Ormuz, por onde antes passava um quinto do petróleo e gás do mundo, além do aparente interesse de Xi em comprar petróleo americano para reduzir a dependência chinesa do Oriente Médio.
“O que chama atenção é que não há nenhum compromisso chinês de fazer algo específico em relação ao Irã”, disse Patricia Kim, pesquisadora de política externa da Brookings Institution.
Ações da Boeing caem com acordo abaixo das expectativas
Autoridades americanas disseram que também foram fechados acordos para venda de produtos agrícolas e houve avanços na criação de mecanismos para administrar o comércio futuro, com ambos os lados devendo identificar US$ 30 bilhões em produtos não sensíveis.
No entanto, houve poucos detalhes sobre os acordos e nenhum sinal de avanço na venda para a China dos avançados chips de inteligência artificial H200 da Nvidia, apesar da inclusão de última hora do CEO Jensen Huang na viagem.
Trump disse à Fox News que a China concordou em encomendar 200 aviões da Boeing, sua primeira compra de jatos comerciais fabricados nos Estados Unidos em quase uma década, mas isso ficou muito abaixo dos cerca de 500 esperados pelos mercados, e as ações da Boeing caíram mais de 4%.
“Para o mercado, a cúpula pode ser estrategicamente tranquilizadora, mas decepcionante em termos de substância”, afirmou Chim Lee, analista sênior para a China da Economist Intelligence Unit.
As ações chinesas caíram nesta sexta-feira, já que a reunião entre os líderes das duas maiores economias do mundo produziu poucos acordos capazes de entusiasmar os investidores.
A principal conquista da cúpula pode ter sido manter uma frágil trégua comercial firmada quando os líderes se encontraram pela última vez em outubro e Trump suspendeu tarifas de três dígitos sobre produtos chineses, enquanto Xi recuou da ameaça de interromper o fornecimento de minerais de terras raras essenciais.
Ainda não foi decidido se a trégua será estendida além de seu vencimento no fim deste ano, disse à Bloomberg TV nesta sexta-feira o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, que acompanha Trump.
Essa extensão seria “o parâmetro mais básico” para avaliar a cúpula, disse Patricia Kim, da Brookings.
Duro alerta sobre Taiwan
As declarações de Xi a Trump de que lidar de forma inadequada com Taiwan, a ilha democraticamente governada que Pequim reivindica, poderia levar a um conflito representaram um alerta duro, embora não inédito, durante uma cúpula que, de resto, pareceu amigável e descontraída.
Taiwan, localizada a apenas 80 quilômetros da costa chinesa, há muito tempo é um ponto de tensão nas relações entre os dois países, com Pequim se recusando a descartar o uso da força militar para assumir o controle da ilha e os Estados Unidos obrigados por lei a fornecer meios para sua autodefesa.
“A política dos EUA sobre a questão de Taiwan permanece inalterada até hoje”, disse o secretário de Estado Marco Rubio, que também acompanha Trump, à NBC News, acrescentando que os chineses “sempre levantam esse tema… nós sempre deixamos clara nossa posição e seguimos em frente”.
O ministro das Relações Exteriores de Taiwan, Lin Chia-lung, agradeceu aos Estados Unidos nesta sexta-feira por expressarem repetidamente seu apoio.
Rubio disse que Trump levantou com Xi a questão de Jimmy Lai, magnata da mídia e mais vocal crítico da China em Hong Kong, condenado a 20 anos de prisão em fevereiro no maior caso de segurança nacional da história do centro financeiro asiático.
Os assuntos de Hong Kong são uma questão interna da China, afirmou anteriormente o Ministério das Relações Exteriores chinês ao ser questionado sobre Lai, que nega todas as acusações contra ele.
Embora talvez não tenham fechado muitos acordos, ambos os lados celebraram uma relação mais estável, que Xi chamou de a mais importante do mundo.
“Precisamos fazer isso funcionar e nunca estragar tudo”, disse ele no banquete de Estado.