Adeus ao CDI? XP aponta onde buscar retorno na renda fixa com a Selic em queda
A queda da taxa Selic não significa que o investidor precisa abandonar a renda fixa. Pelo contrário: com os juros ainda elevados e a expectativa de novos cortes pelo Banco Central, a XP vê uma janela para travar retornos atrativos em títulos prefixados e atrelados ao IPCA, além de manter uma parcela da carteira em pós-fixados.
Em relatório, a XP projeta que a Selic encerre 2026 em 13,25% ao ano e recue para 11,50% em meados de 2027. Para a casa, o movimento tende a aumentar a importância do chamado carrego, ou seja, da remuneração contratada pelo investidor ao comprar o título e mantê-lo por um período mais longo.
O cenário, segundo os analistas, abre espaço para olhar além do CDI. Isso porque prefixados e papéis indexados à inflação ainda oferecem taxas historicamente elevadas e também podem se valorizar caso os juros cobrados pelo mercado continuem recuando.
Prefixados: ainda dá tempo de travar taxas?
Nos títulos prefixados, a XP chama atenção para uma combinação que costuma favorecer o investidor: juros ainda altos em meio a um ciclo de queda da Selic.
Ao analisar diferentes janelas entre 2006 e 2026, a casa constatou que os prefixados apresentaram desempenho igual ou superior ao CDI em cerca de 69% das observações. Os maiores excessos de retorno apareceram justamente nos momentos em que os juros partiam de níveis elevados, abrindo espaço para cortes posteriores.
“O benefício dos prefixados tende a ser maior quando o investidor consegue travar taxas elevadas antes que o ciclo de flexibilização esteja totalmente refletido nos preços”, afirma a XP no relatório.
Isso acontece por dois caminhos. O primeiro é que, ao comprar um prefixado, o investidor garante a taxa oferecida naquele momento caso carregue o papel até o vencimento. O segundo é a marcação a mercado. Se os juros caírem, títulos emitidos anteriormente com taxas maiores tendem a se valorizar, permitindo eventualmente ganhos adicionais em uma venda antecipada.
A XP, porém, faz uma ressalva importante: prazo maior não significa necessariamente oportunidade melhor.
A preferência está nos vencimentos intermediários, que ainda oferecem retornos elevados, mas apresentam menor exposição às incertezas fiscais e inflacionárias de longo prazo. Os papéis mais longos podem ganhar mais se os juros caírem, mas também sofrem oscilações maiores caso as expectativas piorem.
IPCA+ acima de 7% chama atenção
Outra oportunidade destacada pela XP está nos títulos ligados à inflação. Atualmente, há papéis oferecendo juros reais superiores a 7% ao ano, patamar bem acima da média de aproximadamente 3,9% registrada na última década.
A combinação é especialmente relevante porque o investidor garante a variação do IPCA mais uma taxa real. Além disso, pode obter ganhos de marcação a mercado caso os juros reais recuem.
Segundo a XP, os níveis atuais são pouco comuns. Desde 2011, as taxas das NTN-Bs 2030 e 2035 ficaram concentradas, na maior parte do tempo, entre 5% e 6,5% ao ano, enquanto patamares superiores a 7,5% apareceram em uma parcela pequena das observações.
Parte desse prêmio reflete justamente os riscos que continuam rondando o cenário brasileiro. A XP cita as incertezas fiscais, o maior volume de emissões do Tesouro Nacional e fatores técnicos do mercado. A inflação implícita nos títulos também permanece acima das projeções da própria XP e das expectativas do Focus, sinalizando que os preços ainda incorporam um cenário mais cauteloso para os próximos anos.
Aqui, novamente, a recomendação é não correr automaticamente para o vencimento mais distante. Para os IPCA+, a XP considera que títulos com duration em torno de seis anos oferecem uma relação mais equilibrada entre retorno esperado e risco.
Carrego vira protagonista com Selic em queda
Mais do que tentar acertar exatamente o movimento das taxas, a XP defende que o tempo de investimento ganha importância nesse cenário.
Nos prefixados, por exemplo, mais de 84% das observações em janelas de 24 meses apresentaram retornos superiores a 10%. À medida que o horizonte aumenta, diminui também a ocorrência de resultados negativos ou próximos de zero.
Isso ocorre porque as oscilações provocadas pela marcação a mercado pesam mais no curto prazo. Conforme o tempo passa, o retorno contratado inicialmente tende a assumir parcela maior do resultado.
“O principal motor de retorno tende a ser o carrego contratado no momento da aplicação”, diz a XP.
E o CDI?
Apesar do destaque dado aos prefixados e IPCA+, a XP não recomenda abandonar os pós-fixados.
Com a Selic ainda em nível elevado e a expectativa de que os juros permaneçam restritivos por algum tempo, esses títulos continuam oferecendo remuneração atrativa, menor volatilidade relativa e liquidez.
A estratégia defendida pela casa, portanto, não é trocar completamente um indexador por outro, mas combinar pós-fixados, prefixados e IPCA+. Em um cenário no qual a Selic cai, mas as taxas de mercado continuam elevadas, a XP avalia que a principal oportunidade está em aproveitar o carrego disponível hoje sem concentrar a carteira em uma única aposta.