Inaugurado na época do Brasil Imperial, prédio histórico dos Correios no Rio é colocado à venda após quase 150 anos
Localizada na Rua Primeiro de Março, no Centro do Rio de Janeiro, a antiga sede dos Correios foi à leilão recentemente, como parte de um processo de reestruturação e de revisão da carteira imobiliária da estatal.
Com 9 mil m² de área construída e terreno de cerca de 1,5 mil m², a antiga sede foi colocada à venda com lance inicial de R$ 53,6 milhões.
O imóvel, concebido ainda no período imperial, é um dos mais históricos do conjunto arquitetônico tombado da Praça XV, área protegida em âmbito federal.
A antiga sede dos Correios está próxima de marcos como o Paço Imperial, a Igreja da Candelária e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). O edifício integra a paisagem de uma área que concentrou atividades administrativas, comerciais e financeiras da antiga capital brasileira.
Apesar do tombamento, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não interfere na transferência da propriedade ou da posse de bens protegidos. Isso significa que a responsabilidade pelo imóvel passará ao próximo proprietário.
Do Império à era digital
A antiga sede dos Correios do Rio de Janeiro foi inaugurada em 1878, durante o reinado de Dom Pedro II, como o primeiro grande edifício brasileiro concebido para especificamente concentrar os serviços postais.
O projeto é atribuído ao engenheiro e arquiteto Antonio de Paula Freitas, um dos nomes mais relevantes da engenharia imperial.
A construção buscava conferir aos Correios uma presença institucional compatível com a modernização do Estado brasileiro e com a expansão das comunicações no país.
O início de suas operações veio logo após a adesão do Brasil à União Postal Universal (UPU) em 1877, marco que conectou o sistema postal brasileiro a uma rede internacional de circulação de correspondências e fortaleceu as relações do Império com o restante do mundo.
Ocupando integralmente o quarteirão delimitado pelas ruas Primeiro de Março, do Rosário e Visconde de Itaboraí, além da Travessa Tocantins, o edifício nasceu com três pavimentos e um mezanino. Ao longo das décadas, passou por ampliações que o levaram à configuração atual, com cinco andares.
A sede dos Correios atravessou a queda da monarquia, a República Velha, o Estado Novo, as reformas administrativas do século XX e a criação da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (atual Correios).
Com quase 150 anos de história para contar, o edifício que simbolizou a comunicação do país inicia uma nova etapa com a venda.
O imóvel pode ser alterado?
O leilão da antiga sede dos Correios levantou dúvidas acerca do futuro do edifício e de sua inserção no conjunto histórico e cultural do centro do Rio. A presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), Isabel Rocha, esclareceu essas questões em entrevista à Agência Brasil.
Segundo ela, o tombamento protege as características do edifício, mas não impede a transferência de propriedade. No entanto, aquele que eventualmente comprá-lo não pode demolir ou descaracterizar o bem e deve obter autorização dos órgãos responsáveis pela preservação antes de qualquer intervenção.
Por isso, para a arquiteta, quem adquirir o prédio deverá considerar não apenas as restrições impostas pelo tombamento, mas também o valor histórico atribuído ao imóvel em uma das áreas mais icônicas do Brasil Imperial.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.