BrasilAgro (AGRO3): Soja salva 4T26, mas cana e algodão preocupam; o que fazer com a ação?
A BrasilAgro (AGRO3) encerrou o quarto trimestre da safra 2025/2026 (4T26) com resultados considerados fracos pela XP Investimentos, mas apresentou uma melhora relevante em sua operação agrícola, segundo o BTG Pactual.
A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 14 milhões, ante lucro de R$ 61 milhões no mesmo período do ano anterior. A receita líquida recuou 25%, para R$ 256 milhões.
O Ebitda ajustado operacional, por sua vez, alcançou R$ 57 milhões, ante um resultado próximo da estabilidade um ano antes. O desempenho também ficou acima dos R$ 15 milhões projetados pela XP.
Apesar de ambos os bancos destacarem a recuperação da operação agrícola, as avaliações sobre a ação são diferentes. O BTG reiterou recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 25, enquanto a XP manteve indicação neutra e preço-alvo de R$ 22,50.
Considerando a cotação de R$ 19 utilizada pelo BTG, o preço-alvo representa potencial de valorização de 31,6%. Somado ao retorno esperado com dividendos, de 8,2%, o ganho total projetado chega a 39,8%.
Soja salva o trimestre
A soja foi o principal destaque positivo do resultado. Segundo o BTG, o volume vendido aumentou 80% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto o custo unitário caiu 9%.
Com isso, o lucro bruto por tonelada avançou 31%. A XP explica que o desempenho foi favorecido pelo carregamento de estoques e pela concentração das vendas no último trimestre do ano-safra.
O milho também apresentou evolução, com redução de 9% no custo unitário e crescimento de igual magnitude no lucro bruto por tonelada, de acordo com o BTG. A combinação de custos menores e produtividade elevada sustentou a rentabilidade da cultura.
Na avaliação do banco, o resultado operacional foi melhor que o observado um ano antes. Como não houve venda de propriedades no trimestre, todo o Ebitda ajustado veio das atividades agrícolas.
Já a XP pondera que o resultado acima de sua projeção foi impulsionado, em parte, por ganhos com derivativos e pela realização de ativos biológicos.
Cana e algodão pressionam BrasilAgro
A melhora da soja e do milho foi parcialmente anulada pelo desempenho mais fraco do algodão e da cana-de-açúcar.
No algodão, a XP destacou a combinação de preços mais baixos e custos unitários elevados. A companhia prevê responder ao cenário com uma redução de 70% na área de algodão de primeira safra em 2026/2027.
Na cana-de-açúcar, a queda dos preços do açúcar e do etanol levou as usinas a reduzirem o ritmo de moagem. Como consequência, a colheita de aproximadamente 280 mil toneladas inicialmente esperada para o trimestre foi transferida para os períodos seguintes.
A BrasilAgro reduziu ligeiramente suas projeções para a cultura e passou a esperar uma colheita de 2,152 milhões de toneladas, com produtividade de 79,1 toneladas por hectare. Ambas as estimativas representam queda de aproximadamente 1% ante as previsões anteriores, mas a produtividade permanece bem acima dos níveis deprimidos da última safra.
Para a XP, uma recuperação mais lenta do que o esperado na operação de cana-de-açúcar representa o principal risco de revisão negativa para a tese de investimento.
Estratégia defensiva para enfrentar o El Niño
Diante da perspectiva de um El Niño de forte intensidade, a BrasilAgro adotou um planejamento mais conservador para a safra 2026/2027.
A área total em produção deve cair apenas 1%, para 165,2 mil hectares, mas haverá uma mudança relevante na composição. A companhia reduzirá em 5% a área de soja, eliminará o feijão safrinha e diminuirá fortemente o algodão de primeira safra.
Em contrapartida, a área de milho de primeira safra deve crescer 22%, enquanto as pastagens avançarão 21%. O algodão safrinha terá expansão de 36%, concentrada principalmente em áreas irrigadas.
O BTG considera a decisão coerente do ponto de vista de gestão de riscos, uma vez que diminui a exposição a culturas e regiões mais vulneráveis às condições climáticas. Essa estratégia, porém, reduz o potencial de ganhos por hectare caso o clima se mostre mais favorável.
A XP estima que a alteração no mix de plantio reduzirá em 7% sua projeção anterior para o Ebitda da BrasilAgro em 2027.
Premissas ambiciosas
Apesar da estratégia defensiva, o BTG chamou atenção para as premissas de produtividade e custos adotadas pela companhia.
A BrasilAgro espera elevar em 6% a produtividade da soja, mesmo após a cultura ter superado o orçamento original em 2025/2026. No milho, a projeção considera crescimento de 12% na produtividade.
As estimativas de custos também são vistas como ambiciosas. A companhia prevê quedas de 12% no custo por hectare do milho safrinha e de dois dígitos nas duas safras de algodão.
Com isso, os custos unitários projetados recuariam 12% no milho e 17% no algodão. Para o BTG, parte da redução é explicada pela base elevada de comparação, mas as metas ainda exigem uma execução sólida diante do cenário atual.
Comprar ou ficar de fora de AGRO3?
O BTG sustenta sua recomendação de compra na capacidade da BrasilAgro de transformar propriedades rurais e capturar a valorização das terras por meio de vendas.
O portfólio da companhia foi avaliado internamente em R$ 3,34 bilhões, valorização anual de 8,2%. O banco também espera que uma eventual recuperação dos preços das commodities melhore a rentabilidade agrícola.
Já a XP apresenta uma visão mais cautelosa. Embora reconheça que a empresa entra na nova safra com grande parte dos custos de insumos travada e exposição a uma possível alta das commodities, a corretora mantém recomendação neutra devido aos riscos operacionais, especialmente na cana.
Assim, enquanto o BTG enxerga uma combinação de valorização das terras, dividendos e recuperação das commodities, a XP considera que parte desse potencial ainda depende de uma melhora operacional que não está garantida.